<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991</id><updated>2012-02-02T21:54:37.835+01:00</updated><category term='Espécie de peça de teatro em 5 voos'/><category term='Cinema'/><category term='Prémios'/><category term='Discursos'/><category term='Exercícios com rima'/><category term='Das personagens de verdade'/><category term='A pessoa e a personagem'/><category term='Contos adultos para crianças'/><category term='Rodrigo'/><category term='Funções alternativas para objectos que cumprem uma só função'/><category term='Da música'/><category term='O fiscal'/><category term='Estados muito Unidos'/><category term='Contos do outro mundo'/><category term='Da escrita'/><category term='Histórias do real'/><category term='Do muco'/><category term='O senhor de chapéu'/><category term='A casinha dos livros'/><category term='Primeiros estudos quase poéticos'/><category term='Western revisited'/><category term='Discurso diarístico sem mim'/><category term='O meu joelho direito'/><category term='Contos linguísticos'/><category term='Das pessoas de verdade'/><category term='Exercícios de escrita criativa'/><category term='A Casa'/><category term='Dos livros'/><category term='Histórias de mim'/><category term='No escritório do chefe'/><category term='Contos infantis para adultos'/><category term='Diálogo sobre o ser'/><category term='Sobre os lugares'/><category term='incompatibilidades'/><category term='Histórias do corpo e da alma'/><category term='Diálogos'/><title type='text'>BELGAVISTA</title><subtitle type='html'>bela vista, vida bela, terra à vista, vista de elfa, boca belfa, uma história amarela, à tarde no belga, sou belatriz</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>291</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-7320348274384110271</id><published>2012-02-01T12:15:00.004+01:00</published><updated>2012-02-01T12:24:11.443+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Das personagens de verdade'/><title type='text'>Um casal comprido e narigudo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um casal comprido e narigudo vem aos beijinhos no metro.&amp;nbsp;São 8h da manhã e as pessoas afastam-se do casal, incomodadas com os beijinhos alheios (barulho, lábios, saliva, credo!). Uma rapariga de casaco vermelho fica a olhar para eles e ri-se. Acha curioso observar pessoas de narizes compridos a darem beijinhos, parecem passarinhos e&amp;nbsp;não se atrapalham nada.&amp;nbsp;Observa-os atentamente: Ela de rugas fininhas mas profundas&amp;nbsp;na ponta dos olhos&amp;nbsp;e dos lábios, caracóis ao alto, ele de cabelo grisalho e bem composto. Têm ambos, à vontade,&amp;nbsp;idade para ter juízo. Dão beijinhos curtos e sonoros - chuac, chuac,&amp;nbsp;pio, pio - um som entre o assobio de pássaro e o grasnar de ganso.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A rapariga de casaco vermelho ri-se outra vez. É&amp;nbsp;infantil, apesar de já ser bem&amp;nbsp;grande.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A carruagem vem cheia de gente de hálitos e hábitos esquisitos. Uma mulher com ar de quem começa a dar&amp;nbsp;ordens ao marido às 6h da manhã e lava o chão da cozinha todos os dias porque os&amp;nbsp;três filhos rapazes não sabem comer para cima da mesa&amp;nbsp;encolhe os ombros, sobe e desce as sobrancelhas num tique nervoso, está verdadeiramente irritada com os beijinhos curtos e sonoros do casal comprido e narigudo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um senhor de óculos pequeníssimos vem a ler a Economist. De vez em quando suspira e&amp;nbsp;lança um olhar enfastiado para o casal comprido e narigudo. Também lança um olhar enfastiado para a rapariga de casaco vermelho, que se vem a rir (é infantil). Afinal lança um olhar enfastiado para todos os passageiros (nothing personal).&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;As pessoas estão cada vez mais próximas umas das outras porque querem afastar-se o mais que podem do casal comprido e narigudo (barulho, lábios, saliva, credo!). Uma senhora baixinha e muito magra, de franja pelos olhos para fingir que tem 30 anos, embora seja visível que tem, no mínimo,&amp;nbsp;50, masca uma pastilha acelerada e olha para&amp;nbsp;o mapa do metro com um ar muito concentrado. Claramente, esta senhora de franja pelos olhos não está a olhar para o mapa do metro, até porque é impossível ver alguma coisa através daquela franja farfalhuda. Está mesmo&amp;nbsp;só&amp;nbsp;à procura de uma distração.&amp;nbsp;Os beijinhos destabilizam-lhe os ouvidos e a senhora já tem problemas de equilíbrio por causa de não-sei-quê nos tímpanos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A carruagem vem cada vez mais cheia e as pessoas estão cada vez mais unidas contra o casal comprido e narigudo, conspiram e suspiram contra os beijinhos sonoros no metro, uma vergonha.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A mulher dos três filhos está tão enervada que, ao sair do metro, abalroa a rapariga do casaco vermelho, que ainda vem com um sorrisinho parvo no semblante.&amp;nbsp;A rapariga do casaco vermelho, que, apesar de infantil, é grande,&amp;nbsp;vai projetada contra a senhora da franja pelos olhos que, por ser franzina e ter problemas de equilíbrio, acaba mesmo por cair nos braços do senhor dos óculos&amp;nbsp;pequeníssimos. Na carruagem paira brevemente uma esperança de romance que afinal não é mais do que isso: uma esperança de romance. Senhora e senhor dão às asas como pombos assustados, cada um para seu lado. Desolada, &lt;i&gt;pas de soucis&lt;/i&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O senhor dos óculos pequeníssimos dá o último suspiro e guarda a revista debaixo do sovaco,&amp;nbsp;o que é um claro sinal de que&amp;nbsp;o senhor&amp;nbsp;desistiu de se cultivar. Trata-se portanto de&amp;nbsp;uma perda de conhecimento valioso, tanto para o senhor&amp;nbsp;dos óculos&amp;nbsp;pequeníssimos&amp;nbsp;como para a comunidade no geral. A carruagem apoquenta-se.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O casal comprido e narigudo com idade para ter juízo continua aos beijinhos - chuac, chuac, pio, pio. Ela de rugas fininhas, ele de cabelo grisalho, não reparam em nada disto: na mulher dos três filhos, no senhor dos óculos&amp;nbsp;pequeníssimos, no estado do mundo, na senhora da franja pelos olhos, na rapariga de casaco vermelho.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;As pessoas que dão beijinhos sonoros passam a vida a transformar o mundo mas nem dão por isso, porque&amp;nbsp;não querem saber de nada e, muito provavelmente,&amp;nbsp;não leem a Economist. São burras.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-7320348274384110271?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/7320348274384110271/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=7320348274384110271' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/7320348274384110271'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/7320348274384110271'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2012/02/um-casal-comprido-e-narigudo.html' title='Um casal comprido e narigudo'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-2840311684259896666</id><published>2012-01-17T22:07:00.002+01:00</published><updated>2012-01-17T22:08:21.853+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos infantis para adultos'/><title type='text'>Conto infantil para adultos: A alegoria da caixa de fósforos</title><content type='html'>Era uma vez uma caixa de fósforos, onde viviam encarceradas centenas de fósforos que muito raramente viam a luz do dia. Certa manhã de sol e nuvens pequeninas, por obra de um milagre ou de uma mão desajeitada, caíram dois fósforos da caixa que, eufóricos,&amp;nbsp;rebolaram pelo chão da cozinha a festejar a sua liberdade. De seguida, como tinham frio e calor, correram um para o outro e acenderam-se. Ambos ficaram encandeados com a chama admirável que, juntos, emitiam.&lt;br /&gt;Passados dez segundos - mais coisa, menos coisa - morreram.&lt;br /&gt;Moral da história: O excesso de luz embrutece.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-2840311684259896666?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/2840311684259896666/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=2840311684259896666' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/2840311684259896666'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/2840311684259896666'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2012/01/conto-infantil-para-adultos-alegoria-da.html' title='Conto infantil para adultos: A alegoria da caixa de fósforos'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-1218414227835341986</id><published>2012-01-15T23:08:00.000+01:00</published><updated>2012-01-15T23:08:27.813+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Exercícios de escrita criativa'/><title type='text'>vil vendaval vertebrado</title><content type='html'>varrendo &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vilas vales ventres&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vozeando &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;viçoso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vocais vocábulos vocativos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;verbos versos versículos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vira vigia venera &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vigorosas valquírias &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;virgens venéreas &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;véus vestidos vaidades &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vento valente vetusto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;veloz voraz veraz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vem vai volta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vê vive vence &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vigorosos veteranos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;viúvas vindouras&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vós vosselências vencidas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vulgares vassalos &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vivendo vergados&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vagares vigilantes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;virtudes viciosas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;valores virtuais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ventania vidente vacilante&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;veio vigorosa vasculhando &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;virilhas vaginas vísceras&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;veleiros vimeiros vitrais &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;varrida ventaneira vingativa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;voejando verdes várzeas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vindicando veemente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vida &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vanguarda &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vitória&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vaivém viandante&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;viagem vertical vulcânea&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vidas vãs&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ventres vazios&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;viravolta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vácuo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vice-versa&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-1218414227835341986?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/1218414227835341986/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=1218414227835341986' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/1218414227835341986'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/1218414227835341986'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2012/01/vil-vendaval-vertebrado.html' title='vil vendaval vertebrado'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-1999495678385707074</id><published>2012-01-05T21:00:00.000+01:00</published><updated>2012-01-05T21:00:00.387+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Exercícios de escrita criativa'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Exercícios com rima'/><title type='text'>Texto com monossílabos - Um mar sem fim</title><content type='html'>não tem&lt;br /&gt;ar&lt;br /&gt;nem pés&lt;br /&gt;nem céu&lt;br /&gt;é&lt;br /&gt;só um mar&lt;br /&gt;sem sal&lt;br /&gt;nem&lt;br /&gt;pôr&lt;br /&gt;do&lt;br /&gt;sol&lt;br /&gt;que cai&lt;br /&gt;em mim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;um mar&lt;br /&gt;de dor&lt;br /&gt;e fé&lt;br /&gt;que vai&lt;br /&gt;de cá &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; pra lá&lt;br /&gt;sem pé&lt;br /&gt;sem ar&lt;br /&gt;sem céu&lt;br /&gt;e não tem&lt;br /&gt;fim&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-1999495678385707074?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/1999495678385707074/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=1999495678385707074' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/1999495678385707074'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/1999495678385707074'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2012/01/texto-com-monossilabos-um-mar-sem-fim.html' title='Texto com monossílabos - Um mar sem fim'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-2382757143441781285</id><published>2012-01-04T17:10:00.000+01:00</published><updated>2012-01-04T17:10:22.910+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Rodrigo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Diálogos'/><title type='text'>O Rodrigo e o carro</title><content type='html'>&lt;br /&gt;- Olá, Rodrigo! Tens uma Sininho?!&lt;br /&gt;- Sim.&lt;br /&gt;- Queres brincar com a Sininho?&lt;br /&gt;- Sim.&lt;br /&gt;- Sabes que a Sininho tem poderes mágicos?&lt;br /&gt;- Sim.&lt;br /&gt;- A Sininho voa.&lt;br /&gt;- Carro.&lt;br /&gt;- Como?&lt;br /&gt;- O carro.&lt;br /&gt;- Mas a Sininho não anda de carro.&lt;br /&gt;- ...&lt;br /&gt;- A Sininho voa, não anda de carro. E tem uns pozinhos mágicos para nós podermos voar também. &lt;br /&gt;- ...&lt;br /&gt;- Olha a Sininho a pôr uns pozinhos mágicos em mim. Plim, plim, plim!&amp;nbsp;Agora estou a voar, vês? Olha eu a voar: Vrrrrrruuuuummm…&lt;br /&gt;- Vrrrrrruuuuummm… (risos)&lt;br /&gt;- Vrrrrrruuuuummm…&lt;br /&gt;- Vrrrrrruuuuummm… (ainda mais risos)&lt;br /&gt;- Vrrrrrruuuuummm…&lt;br /&gt;- Carro.&lt;br /&gt;- Isto não é um carro, Rodrigo, há outras coisas no mundo além de carros. Isto&amp;nbsp;somos nós a voar. Queres voar com a Sininho?&lt;br /&gt;- Não.&lt;br /&gt;- Não queres?!&lt;br /&gt;- Não. Vrrrrrruuuuummm… (risos)&lt;br /&gt;- Vrrrrrruuuuummm…&lt;br /&gt;- Carro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-2382757143441781285?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/2382757143441781285/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=2382757143441781285' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/2382757143441781285'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/2382757143441781285'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2012/01/o-rodrigo-e-o-carro.html' title='O Rodrigo e o carro'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-2676535696720301522</id><published>2012-01-03T18:38:00.000+01:00</published><updated>2012-01-03T18:38:34.555+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias de mim'/><title type='text'>Rua do Alecrim com Gonçalo M Tavares</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No ano passado, no final do mês de dezembro (há uns dias, vá), vínhamos (eu e o homem ilimitado) a descer entusiasmados a Rua do Alecrim, quando reconheci à minha frente os caracóis do Gonçalo M Tavares. Palavra de honra, reconheci-lhe os caracóis antes de lhe reconhecer as lunetas, até porque o senhor Tavares estava de costas, não dava para lhe ver o frontispício. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Gosto de caracóis no geral e dos caracóis do senhor Tavares em particular.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Antes de dar de caras com os caracóis do Gonçalo M Tavares, já vinha toda contente a descer a Rua do Alecrim. A bem dizer, não precisava do senhor Tavares para ganhar o dia, até porque estava sol e eu vinha a descer a rua com o homem ilimitado, falávamos animadamente sobre coisas da vida, o rio brincava ao longe com a luz e nós íamos apanhar o comboio para Cascais. Isso tudo (sol, rua, coisas da vida, rio, luz, comboio) já era suficiente para descer a Rua do Alecrim aos pulinhos. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Além disso, quando desço a Rua do Alecrim lembro-me sempre da canção do alecrim-aos-molhos e essa canção dá-me logo vontade de andar aos pulinhos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ao avistar os caracóis do Gonçalo M Tavares, fiquei ainda mais contente (Alecrim, alecrim aos molhos...). Por momentos, até achei que lhe ia dar assim uma palmada bem dada nas costas. Mas depois pensei outra vez e não dei uma palmada bem dada nas costas do senhor Tavares, fiquei só a vê-lo descer a Rua do Alecrim. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O senhor Tavares trazia pela mão, não um cãozinho, não um gatinho, mas uma misteriosa mala preta e vinha assim curvado para a frente, a falar e a rir, muito debruçado sobre outro ser humano que também falava e também ria, mas a quem não prestei atenção absolutamente nenhuma. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Durante esta observação atenta (Alecrim, alecrim, aos molhos, por causa de ti...), reparei que o Gonçalo M Tavares tem um ar bonacheirão. Tem mesmo um ar bonacheirão, deve gostar de comer bom queijo e beber bom vinho, imaginei logo um respeitável caderno Moleskine cheio de nódoas de tinto, extremamente difíceis de tirar. Depois reparei que, ao contrário do que eu imaginava, os ombros do Gonçalo M Tavares são muito magrinhos. Isto, primeiro, surpreendeu-me, depois assustou-me.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Uma pessoa com ar bonacheirão não tem ombros magrinhos.&amp;nbsp;Fiquei logo apoquentada.&amp;nbsp;Seria isto um indicador de que&amp;nbsp;Gonçalo M Tavares afinal não é bonacheirão? Ou que o Gonçalo M Tavares não come bom queijo?&amp;nbsp;Teria o senhor Tavares perdido a vontade de comer? Estaria a criatividade do senhor Tavares a alimentar-se dos ombros do senhor Tavares? Estaria o senhor Tavares a alimentar-se exclusivamente de papel não reciclado?&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em qualquer dos casos, os ombros do senhor Tavares não mereciam uma palmada bem dada e eu perdi logo a vontade de lhe dar uma palmada bem dada nas costas. Na verdade, substituí essa vontade&amp;nbsp;por uma outra vontade: a de fazer uma sopa de cenoura para o senhor Tavares. No entanto, não fiz uma sopa de cenoura para o senhor Tavares, porque afinal a vontade não era assim tão grande e também não havia por ali cenouras nem batatas nem cebolas&amp;nbsp;à mão de semear.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Por causa de todas estas coisas (sol, rua, coisas da vida, rio, luz, comboio, Gonçalo M Tavares, cenouras, batatas, cebolas), eu e o homem ilimitado íamos muito lançados rua fora (Alecrim, alecrim, aos molhos...) e não conseguíamos abrandar o passo,&amp;nbsp;de maneira que&amp;nbsp;acabámos por ultrapassar o senhor Tavares.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Ao passar pelos seus ombros magrinhos assim pela esquerda, olhei para o senhor Tavares e o senhor Tavares, sentindo-se observado por comuns mortais, aguçou o olfato, parou de rir e de falar e olhou para mim. Sorri envergonhada como uma menina de 8 anos e meio (até me saiu um risinho agudo de menina de 8 anos de meio e corei). De seguida, desatei a correr pela Rua do Alecrim a cantar a canção do alecrim aos berros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, este episódio serve para demonstrar, mais uma vez, que a criatividade é um bicho muito cruel,&amp;nbsp;instala-se no corpo de repente e é muito difícil uma pessoa livrar-se do bicho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou muito preocupada com os ombros magrinhos do Gonçalo M Tavares.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-2676535696720301522?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/2676535696720301522/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=2676535696720301522' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/2676535696720301522'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/2676535696720301522'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2012/01/rua-do-alecrim-com-goncalo-m-tavares.html' title='Rua do Alecrim com Gonçalo M Tavares'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-6457879003483026297</id><published>2011-12-27T10:00:00.000+01:00</published><updated>2011-12-27T10:00:03.312+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Exercícios de escrita criativa'/><title type='text'>Um homem que era uma árvore</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um parque que não é bem um parque, que talvez tenha sido um parque porque há restos de árvores e bancos de jardim. Do céu cai agora mesmo o resto de uma chuva que não chega a molhar o chão. Um homem antigo caminha pela lama que já foi relva mas não vê nada disto: o parque, os bancos, o resto da chuva. É um homem magro, macilento, comprido, parece o tronco velho de uma árvore moribunda. Traz no alto da cabeça um emaranhado de cabelos que já não são bem cabelos, que talvez tenham sido cabelos, mas que agora são ervas daninhas ou o ninho abandonado de pássaros cruéis, um cabelo feito de caruma e lama e folhas pisadas de Inverno sujo. Aproxima-se cada vez mais do nosso banco de jardim e os seus olhos não olham para nós, têm outras coisas dentro. Olhos cheios de nuvens e água, uma luz que não passa. Olhos que olham para dentro. &lt;br /&gt;Ficamos a observá-lo. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É impossível que este homem veja para fora. Talvez não veja de todo para fora e, nesse caso, não saiba que os seus braços são dois ramos vazios sem folhas nem flores nem frutos, só duas mãos que descobrem os dias, extremas e alvacentas como dois sóis de Inverno. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Passa pelo nosso banco de jardim, mas não nos vê ali, vive para dentro, a olhar para outro céu, numa outra Terra, sozinho, perdido, talvez feliz.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-6457879003483026297?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/6457879003483026297/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=6457879003483026297' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/6457879003483026297'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/6457879003483026297'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2011/12/um-homem-que-era-uma-arvore.html' title='Um homem que era uma árvore'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-3017629275989109368</id><published>2011-12-22T16:00:00.000+01:00</published><updated>2012-01-03T18:54:59.790+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Das pessoas de verdade'/><title type='text'>Tia Lilita</title><content type='html'>Cada um faz o seu luto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns choram, outros nem tanto: ficam assim endurecidos, incolores, o semblante desabrido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tia Lilita morreu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não foi hoje. Também não foi ontem. Foi há muito tempo. &lt;br /&gt;Não, não foi há muito tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Via a tia Lilita nos casamentos, nos baptizados,&amp;nbsp;nos Verões em São Pedro de Moel. Ultimamente, nos funerais. Pegava-me na mão com as suas duas mãos, repetia o meu nome várias vezes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez, fui ao Porto almoçar a casa da tia Lilita. Uma vez só, não percebo. Foi no Verão de 2008, os primos de Hamburgo também estavam lá e&amp;nbsp;o &lt;a href="http://belgavista.blogspot.com/2008/09/o-homem-rimar.html"&gt;tio Pedro&lt;/a&gt; ainda era vivo. Chamou-me ao quarto, disse-me: «Diz ao teu pai que eu penso muito nele, nos nossos tempos lá em Angola.». Vim para Lisboa com esse recado ao colo e entreguei-o ao &lt;a href="http://belgavista.blogspot.com/2008/04/retrato-de-homem-ao-sbado-de-manh.html"&gt;pai&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era difícil chegar a casa da tia Lilita, tínhamos de subir muitos degraus e&amp;nbsp;faltava-nos o fôlego várias vezes, mas nós disfarçávamos o esforço como podíamos, porque éramos jovens e saudáveis. A tia Lilita&amp;nbsp;também tinha dificuldade em&amp;nbsp;descer e subir tantos degraus. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A &lt;a href="http://belgavista.blogspot.com/2011/06/avo.html"&gt;avó&lt;/a&gt; e a tia Lilita eram muito amigas. O &lt;a href="http://belgavista.blogspot.com/2009/11/o-meu-avo-e-eu.html"&gt;avô&lt;/a&gt; e o tio Pedro também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tia Lilita foi a última a morrer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, não foi a última a morrer, porque nós ainda cá estamos (somos jovens e saudáveis)&amp;nbsp;e, depois de nós, virão outros e, depois deles, outros, para que nunca tenhamos tempo de lembrar os que vieram de Angola.&lt;br /&gt;Cada um faz o seu luto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mim deu-me para ler &lt;a href="http://www.tintadachina.pt/book.php?code=20d9a0d69ff1a6f31c0d6c564259e359&amp;amp;tcsid=fea7940119d2358c88d81aa69e5c7964"&gt;O Retorno&lt;/a&gt; da Dulce Maria&amp;nbsp;Cardoso. O retorno de África contado na perspectiva de um adolescente. Acabei de ler o livro esta semana. Tantas&amp;nbsp;coisas que ficaram&amp;nbsp;por saber desse retorno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Consta que a Dulce Maria Cardoso era adolescente quando veio de&amp;nbsp;Angola. O meu pai&amp;nbsp;também era adolescente, mas não é retornado, porque veio antes do retorno. O pai não quer ler O Retorno, porque não é retornado. Diz-me: «Eu não sou retornado» e, de facto, não é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tia Lilita foi a última a morrer. A última dos nossos. Dos que foram para Angola construir estradas e outras coisas (não sei bem o quê). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tia Lilita casou por procuração. Só depois partiu para África. Que viagem foi essa, que nunca me foi contada? Que cartas escreviam entrementes?&amp;nbsp;O tio Pedro deve ter ido buscar a tia Lilita. Que encontro foi esse? A&amp;nbsp;tia Lilita talvez viesse vestida de noiva, não sei. Que história foi essa, que nunca ma contaram? Eu também nunca pedi para ma contarem, acho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, isto não é verdade. Agora, lembro-me. Um dia a tia Lilita contou-me essa história, mas eu estava tão distraída a pensar na ideia de casar por procuração que não devo ter ouvido. A ideia de casar por procuração era fascinante. Dava para escrever uma longa carta em papel de pergaminho, talvez: «Meu mais prezado amigo», «para o meu mais que tudo», «o&amp;nbsp;meu coração é uma andorinha», gosto de imaginar frases para estas cartas. Onde estão essas cartas?&amp;nbsp;Como trocar alianças por procuração? Quem assinaria o papel&amp;nbsp;primeiro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tia Lilita morreu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora sim. Já não há ninguém para contar as histórias que ficaram por contar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tanta falta de tempo para as histórias dos outros. Sei tão pouco desse retorno, dessa vida. &lt;br /&gt;Cada um faz o seu luto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mim dá-me para escrever. &lt;br /&gt;O tio Pedro também era assim, parece-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde anda o livro do&amp;nbsp;tio Pedro? Gostava de o ler.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-3017629275989109368?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/3017629275989109368/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=3017629275989109368' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/3017629275989109368'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/3017629275989109368'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2011/12/tia-lilita.html' title='Tia Lilita'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-615279155627576221</id><published>2011-10-19T20:48:00.000+02:00</published><updated>2012-01-03T18:59:10.133+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prémios'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias de mim'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O meu joelho direito'/><title type='text'>Prémio Branquinho da Fonseca 2011</title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um dia destes fartei-me do meu joelho direito. Vinha no táxi a caminho de casa, e quando olhei para ele, achei-o horrível. Vinha inchado como um sapo e tinha vários cortes na cara. Além disso, era um verdadeiro emplastro, não servia para absolutamente&amp;nbsp;nada.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nessa altura arrependi-me de várias coisas. Na verdade, de uma só coisa. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Do karaté.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A bem dizer, se não tivesse feito karaté, talvez nunca chegasse a ser operada ao joelho.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pus-me então a imaginar vidas alternativas para o meu joelho direito, que parecia agora um sapo: natação, equitação, bodyboard, ginástica rítmica, bowling, parapente...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A viagem chegou ao fim, saí do táxi.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O taxista ralhou-me, disse-me não-sei-o-quê da tinta nova e eu pedi muitas desculpas (desolada), expliquei que não&amp;nbsp;era fácil controlar várias pernas ao mesmo tempo. Fui para casa, pé ante canadianas. A esta altura o meu joelho direito coaxava qualquer coisa ao meu ouvido e eu calei-o com um saco de gelo assim que cheguei a casa.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Liguei o computador, li os e-mails. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pouco tempo depois soube que o meu trabalho com o inacreditável título O Caderno Vermelho da Rapariga Karateca tinha conquistado o &lt;a href="http://www.gulbenkian.pt/index.php?article=3317&amp;amp;format=404"&gt;Prémio Branquinho da Fonseca 2011&lt;/a&gt; na categoria de literatura juvenil. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pausa.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Olhei para o meu joelho direito, mas não consegui olhar para ele por causa do saco de gelo. Debrucei-me sobre o meu joelho, libertei-o do gelo e dei-lhe um beijinho. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ao contrário do que se podia esperar, o meu joelho direito não se transformou num príncipe. Ficou tal como estava, muito sapudo, as bochechas vermelhas cheias de ar e cicatrizes. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pensei um pouco sobre poucos assuntos: a ficção e a realidade, o karaté, as vidas alternativas, o Branquinho da Fonseca, a literatura juvenil, O Caderno Vermelho da Rapariga Karateca.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Concluí que, se não tivesse feito karaté, nada disto teria acontecido. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não era uma conclusão brilhante, é certo, mas era uma conclusão possível.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O meu joelho direito olhava para mim todo inchado e eu já não o achei tão feio. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Depois fui fazer pipocas e estive a ver um filme do Bruce Lee.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-615279155627576221?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/615279155627576221/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=615279155627576221' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/615279155627576221'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/615279155627576221'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2011/10/premio-branquinho-da-fonseca-2011.html' title='Prémio Branquinho da Fonseca 2011'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-1253612365239778234</id><published>2011-10-05T18:40:00.002+02:00</published><updated>2011-10-05T18:43:39.936+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias de mim'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O meu joelho direito'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Diálogos'/><title type='text'>Diálogo entre canadianas</title><content type='html'>- Ó vizinha, já viste que, se esta tipa não nos tivesse, se estatelava no chão?&lt;br /&gt;- É um facto.&lt;br /&gt;- Isso não te dá um certo gozo?&lt;br /&gt;- Um certo gozo? Não, nenhum.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;A sério? A mim dá-me um gozo do caraças.&lt;br /&gt;- O quê? Saber que a tipa se estatelava no chão?!&lt;br /&gt;- Sim, mas sobretudo que precisa do nosso apoio.&lt;br /&gt;- Ah, nesse sentido! É muito gratificante, sim.&lt;br /&gt;- Gratificante?!&lt;br /&gt;- Sim, o facto de podermos dar apoio.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;Ora essa! E a nós, quem nos apoia?&lt;br /&gt;- Nós não precisamos de apoio.&lt;br /&gt;- Não?! Eu acho é que nos contentamos com pouco. Esta tipa atira-nos assim de qualquer maneira para o chão ou contra a parede... Chego a ficar horas de cabeça para baixo.&lt;br /&gt;- Certo. Mas não precisas propriamente de apoio. Nós somos o apoio.&lt;br /&gt;- Exactamente. Nós é que somos o apoio! E, no entanto, ninguém nos dá valor.&lt;br /&gt;- Claro que dá. Toda a gente nos dá valor!&lt;br /&gt;- Não dá, não. Se nos dessem o devido valor, não nos atiravam assim para o chão ou contra a parede.&lt;br /&gt;- Talvez...&lt;br /&gt;- Ouve o que eu te digo: Se andássemos por aí a pregar rasteiras aos doentes, as pessoas respeitavam-nos mais.&lt;br /&gt;- Não respeitavam, nada. Íamos era&amp;nbsp;logo presas!&lt;br /&gt;- Não íamos, não. Repara que as nossas rasteiras são tão rápidas e eficazes que ninguém ia dar por ela.&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;Claro que iam.&lt;br /&gt;- Não iam, não. As canadianas são como os mercados financeiros.&lt;br /&gt;- O que são mercados financeiros?&lt;br /&gt;- Não sei, mas parece que estão sempre a pregar rasteiras às pessoas e também ninguém se apercebe disso. Precisamente porque dão assim rasteiras muito rápidas e eficazes.&lt;br /&gt;- Mas quando forem descobertos, vão presos.&lt;br /&gt;- O quê? Os mercados financeiros?! Não vão, não.&lt;br /&gt;- Por que não?&lt;br /&gt;- Porque as pessoas têm muito respeitinho pelos mercados financeiros.&lt;br /&gt;- Que raio?! Então, mas se eles passam a vida a pregar-lhes rasteiras...&lt;br /&gt;- Pois, mas as pessoas são assim. Gostam de ser maltratadas. Já viste alguém a atirar mercados financeiros para o chão?&lt;br /&gt;- Acho que não.&lt;br /&gt;- Pois é... Mas nós passamos a vida aí largadas... Ninguém nos respeita, essa é que é essa.&lt;br /&gt;- Tens razão, vizinha, devíamos fazer qualquer coisa para inverter essa situação.&lt;br /&gt;- Olha, eu, por mim, atirava já esta tipa ao chão.&lt;br /&gt;- Então, e depois?&lt;br /&gt;- E depois, quando ela se levantar, atiramo-la outra vez. Vais ver que, num instantinho, somos nós a mandar nisto tudo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-1253612365239778234?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/1253612365239778234/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=1253612365239778234' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/1253612365239778234'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/1253612365239778234'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2011/10/dialogo-entre-canadianas.html' title='Diálogo entre canadianas'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-3595635443851168395</id><published>2011-10-04T11:14:00.005+02:00</published><updated>2011-10-05T18:41:38.987+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias de mim'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O meu joelho direito'/><title type='text'>Fisioterapia</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Vou à fisioterapia quatro vezes por semana. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Gosto de ir à fisioterapia, sempre tenho uma desculpa para sair de casa com a minha tala no joelho e as minhas canadianas nos cotovelos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O meu fisioterapeuta é muito simpático, tem uma carequinha no cocuruto e&amp;nbsp;sabe dizer umas coisas em português porque teve uma paciente portuguesa durante muito tempo. Diz-me: &lt;em&gt;Boa tarde&lt;/em&gt;,&lt;em&gt; Até quarta-feira&lt;/em&gt;,&lt;em&gt; dobra a perna&lt;/em&gt;, e depois ri-se muito, como se o conjunto de sons não fizesse sentido nenhum. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quem me liga à máquina dos choquezinhos eléctricos é a estagiária, que não se ri nem diz muitas coisas, liga-me só à máquina e dá instruções breves. Fico para ali abandonada, a esticar a perna e a levar choquezinhos eléctricos, diz que faz bem aos músculos. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O outro fisioterapeuta, que é desgrenhado, esbugalhado mas, ainda assim,&amp;nbsp;bem parecido, corrige-me ao longe, diz:&amp;nbsp;&lt;em&gt;Tenta esticar&amp;nbsp;mais,&amp;nbsp;insiste um pouco, dobra agora&amp;nbsp;devagar&lt;/em&gt;. Eu faço o que me mandam: estico, insisto, dobro.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um dos exercícios consiste em brincar com uma bola de ténis. Estou sentadinha e eles põem-me uma bola de ténis por baixo do pé. Não é muito divertido, mas dá para passar o tempo.&amp;nbsp;Ando com a bola para a frente e para trás, já dobro o joelho a 90º e&amp;nbsp;o fisioterapeuta exclama qualquer coisa com um ar muito impressionado como se faz às crianças.&amp;nbsp;Fico a ver o que os outros fazem.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;À minha frente, um tipo pedala na bicicleta. À medida que pedala também abana a cabeça ao som do rock foleiro que passa na rádio. Abanar a cabeça ao som de guitarras está tão fora de moda, que o tipo até tem piada. Ao lado, um rapaz de barba rala com ar muito&amp;nbsp;preocupado salta no trampolim. À minha direita, uma&amp;nbsp;búlgara que não fala francês&amp;nbsp;enrola um tecido plastificado à volta do pé e puxa-o com toda a força.&amp;nbsp;Foi operada ao&amp;nbsp;tornozelo em Agosto&amp;nbsp;e ainda cá anda.&amp;nbsp;Ao fundo, em frente a um&amp;nbsp;espelho de quarto de&amp;nbsp;dormir, um homem gordo&amp;nbsp;segura uma vara com as duas mãos e mantém-na paralela ao chão.&amp;nbsp;Roda o corpo para um lado e para o outro, muito sério. Do lado de cá, uma senhora está literalmente de cabeça para baixo, pendurada num engenho esquisito que lhe estica as costas.&amp;nbsp;A senhora não gosta lá muito daquela máquina, porque às vezes tem tonturas quando sai daquela posição e fica muito tempo sentada a recuperar. Acho que é italiana.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu gosto de ir à fisioterapia. Parece que mudo de planeta durante uma hora e meia e sempre&amp;nbsp;tenho um objectivo nesta fase de convalescença. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O meu objectivo é saltar no trampolim. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O&amp;nbsp;rapaz de barba rala e com&amp;nbsp;ar preocupado está quase bom. E eu já ando farta&amp;nbsp;de brincar com a bola de ténis. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não sou nenhuma gata.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-3595635443851168395?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/3595635443851168395/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=3595635443851168395' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/3595635443851168395'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/3595635443851168395'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2011/10/fisioterapia.html' title='Fisioterapia'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-1282143926306725592</id><published>2011-09-28T19:04:00.000+02:00</published><updated>2011-10-05T18:42:12.882+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias de mim'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O meu joelho direito'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Diálogos'/><title type='text'>Diálogo com Enfermeira de Branco II - Fome</title><content type='html'>- Boa tarde, dá-me licença? Queria mudar aqui o soro, pode ser?&lt;br /&gt;- Sim, obrigada. Entretanto já posso comer?&lt;br /&gt;- Ainda não comeu nada?&lt;br /&gt;- Não.&lt;br /&gt;- A que horas foi a operação?&lt;br /&gt;- Não sei.&lt;br /&gt;- Não sabe?!&lt;br /&gt;- Não. Estava&amp;nbsp;a dormir, mas deve dizer na ficha.&lt;br /&gt;- Mas não sabe mais ou menos quando foi?&lt;br /&gt;- Não. Quer dizer, foi de manhã. Lá para as 9h30, talvez 10h.&lt;br /&gt;- Mas já são 16 horas! Ainda não comeu nada hoje?&lt;br /&gt;- Não.&lt;br /&gt;- Nada de nada?&lt;br /&gt;-&amp;nbsp;Não.&lt;br /&gt;- Devem-se ter esquecido, sabe?&lt;br /&gt;- Esquecido?&lt;br /&gt;- Pois, quando serviram o almoço já estava no quarto, não estava?&lt;br /&gt;- Não sei... Posso então comer agora?&lt;br /&gt;- Pois, o problema é que&amp;nbsp;eu agora tenho o frigorífico vazio...&lt;br /&gt;- Vazio?!&lt;br /&gt;- Sim. Acha que consegue esperar até às 17h?&lt;br /&gt;- Até às 17h?&lt;br /&gt;- É quando eles trazem o lanche.&lt;br /&gt;- O lanche?&lt;br /&gt;- Sim. É mais uma horinha, está bem?&lt;br /&gt;- ... Está bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na televisão só passavam programas sobre gastronomia e culinária. O capítulo do livro que estava a ler falava sobre a matança do porco. Livro injusto.&amp;nbsp;O lanche acabou por chegar às 17h30. Duas fatias de pão, duas fatias de queijo, um café e um pudim de baunilha.&amp;nbsp;Engoli tudo de uma vez. Mais tarde, o homem ilimitado trouxe-me bolachas e eu devorei-as de madrugada. Eram boas, acho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-1282143926306725592?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/1282143926306725592/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=1282143926306725592' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/1282143926306725592'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/1282143926306725592'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2011/09/dialogo-com-enfermeira-de-branco-ii.html' title='Diálogo com Enfermeira de Branco II - Fome'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-2148638937654949884</id><published>2011-09-27T17:42:00.001+02:00</published><updated>2011-10-05T18:43:06.988+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias de mim'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O meu joelho direito'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Diálogos'/><title type='text'>Diálogo com Enfermeira de Branco I - Sede</title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Boa tarde, como se sente?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Bem, obrigada.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;-&amp;nbsp;Venho medir-lhe a tensão, está bem?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Claro... Entretanto, acha que&amp;nbsp;já posso beber água?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Está com sede?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Estou.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Mas ainda não lhe deram nada para beber?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- A sério? Deve estar com muita sede, então!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Sim, estou.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- A operação já&amp;nbsp;foi há muitas horas, não foi?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Foi.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Pois, mas agora ainda não pode beber nada, está bem?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ai não?!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ah, pensei que... &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Mais uma horinha, está bem?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A Enfermeira de Branco sai de cena. Rogo-lhe pragas dentro da cabeça.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Passado uma horinha&amp;nbsp;entra em cena novamente. Traz-me&amp;nbsp;uma garrafa de litro e meio selada e um copo. Pousa-os na mesinha ao meu lado e diz-me com o dedinho indicador apontado para o tecto: Não beba muito. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Deito-lhe a língua de fora dentro da cabeça.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sai de cena outra vez. Eu e a garrafa de litro e meio entreolhamo-nos timidamente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;De seguida apercebo-me de que não&amp;nbsp;vou conseguir&amp;nbsp;abrir a garrafa com nenhuma das mãos: uma está muito&amp;nbsp;ocupada com o soro fisiológico e a outra&amp;nbsp;anda&amp;nbsp;um bocado atrofiada&amp;nbsp;por causa das análises de sangue. Nesse momento ocorreu-me chamar a enfermeira, mas depois cresceram-me tantas coisas na boca, que agarrei a garrafa pelo pescoço e abri-a com os dentes. Matei&amp;nbsp;a sede convulsivamente com um meio-sorriso nos lábios.&amp;nbsp;E depois chamei a Enfermeira de Branco, que me apresentou à Arrastadeira.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-2148638937654949884?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/2148638937654949884/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=2148638937654949884' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/2148638937654949884'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/2148638937654949884'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2011/09/dialogo-com-enfermeira-de-branco-i-sede.html' title='Diálogo com Enfermeira de Branco I - Sede'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-8945734229464034426</id><published>2011-09-26T18:47:00.000+02:00</published><updated>2011-10-05T18:44:30.287+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias de mim'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O meu joelho direito'/><title type='text'>Pós-operatório</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Digo-vos uma coisa: Não é mau ser operado ao joelho. Eu, na verdade, até gosto. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Estou em casa há seis dias&amp;nbsp;e um dos momentos mais activos&amp;nbsp;das minhas manhãs&amp;nbsp;consiste em&amp;nbsp;levantar-me da cama, ir até à sala, sentar-me no sofá e pousar a perna direita na cadeira em frente.&amp;nbsp;De resto, as actividades variam&amp;nbsp;consoante o dia: como bolachas, vejo televisão,&amp;nbsp;leio, escrevo, como chocolates,&amp;nbsp;faço Sudoku, vejo um filme, adormeço a ler ou a ver a BBC ou a fazer Sudoku. As pessoas telefonam-me, preocupadas e disponíveis (às vezes, acordam-me). Algumas trazem-me chocolates, flores, queques, livros, sopas, revistas, séries de televisão. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O &lt;a href="http://belgavista.blogspot.com/2008/06/o-homem-ilimitado.html"&gt;homem ilimitado&lt;/a&gt; cuida muito, esforça-se. Lava a loiça e a roupa, telefona-me do supermercado para saber o que quero jantar, actualiza o computador e o iPad, não quer que me falte nada. Ando a ver várias séries da BBC e já escolhi os filmes que vou ver durante a semana.&amp;nbsp;Na sexta&amp;nbsp;acabei de ler os contos do Kazuo Ishiguro e já vou a meio do Lord of the Flies, a vida avança. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Além disso, apesar de as canadianas&amp;nbsp;serem mal-jeitosas e não condizerem com as minhas saias, até gosto de as passear pela rua, porque as pessoas olham para mim com interesse e compaixão. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Bom,&amp;nbsp;é evidente que nem tudo são rosas: demoro, por exemplo, 15 minutos a ir à casa de banho e só consigo levar uma coisa de cada vez para a mesa-de-jantar, o que é desagradável quando a pessoa tem fome&amp;nbsp;(primeiro&amp;nbsp;o prato de&amp;nbsp;sopa, depois o pão, depois o queijo,&amp;nbsp;depois os talheres), mas também não tenho propriamente pressa de despachar as poucas tarefas que realizo durante o dia. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Admito que também me dói o joelho&amp;nbsp;mas, fora isso, a vida não é nada injusta e eu&amp;nbsp;aturo muito bem esta maleita, porque gosto muito&amp;nbsp;de mimos e, sinceramente, não me apetece nada trabalhar.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-8945734229464034426?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/8945734229464034426/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=8945734229464034426' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/8945734229464034426'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/8945734229464034426'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2011/09/pos-operatorio.html' title='Pós-operatório'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-7075042981543889613</id><published>2011-09-23T12:17:00.000+02:00</published><updated>2011-10-05T18:45:17.876+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias de mim'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O meu joelho direito'/><title type='text'>O meu joelho direito</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O meu joelho direito passa a vida a queixar-se. Nunca está contente com o tempo nem com as pessoas, resmunga muito por isto e por aquilo, parece um daqueles homens muito velhos e doentes que estão sempre a lembrar os mais novos que também eles um dia serão muito velhos e doentes. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu nunca liguei muito às queixas do meu joelho direito, mas ouvia-as com um dos meus ouvidos e sabia bem do seu mal. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Certo dia (na passada terça-feira, 20 de Setembro), passei o dia e a noite num hospital com tectos baixos e pessoas espadaúdas que vestiam toucas ridículas. Depois de uma breve história que envolveu personagens como a &lt;a href="http://belgavista.blogspot.com/2011/09/dialogo-com-enfermeira-de-branco-i-sede.html"&gt;Enfermeira de Branco&lt;/a&gt;, o Médico, a Anestesia Geral, o Soro Fisiológico e a Arrastadeira, o meu joelho direito é agora outro: tem três furos no rosto e o dobro do tamanho. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O Médico diz que o meu joelho direito nasceu muito torto e que&amp;nbsp;agora se pôs direito, como um homem bom. (Uma espécie de final feliz.) &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Vim para a casa com um joelho direito desconhecido, escondido atrás de um curativo e de um saco de gelo. Já não lhe ouço as queixas de homem velho e doente, porque o meu joelho direito deixou de falar, calou-se para sempre; está para aqui deitado, túrgido e arroxeado como um recém-nascido. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não gosto muito dos três furinhos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E sinto-me só. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Saudades do meu homem muito velho e doente.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-7075042981543889613?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/7075042981543889613/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=7075042981543889613' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/7075042981543889613'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/7075042981543889613'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2011/09/o-meu-joelho-direito.html' title='O meu joelho direito'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-5977904325245341320</id><published>2011-06-09T18:04:00.008+02:00</published><updated>2011-06-09T18:39:34.681+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Das pessoas de verdade'/><title type='text'>A Avó</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;Sétimo dia.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;A Avó morreu no dia da Ascensão de Cristo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava na Eslovénia, um país de florestas imaginadas, e a notícia passou por mim como um unicórnio branco, um ser desconhecido, irreal, e na minha cabeça morava agora o silêncio estranho de uma casa vazia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Avó não morreria nunca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava convencida de que a Avó não morreria nunca, de que o seu coração era mais forte do que os outros, porque o coração da Avó era, de facto, mais forte do que os outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeira verdade: A Avó não foi uma avó para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, foi uma avó para mim, é evidente que foi uma avó para mim. Mas não uma avó como as outras. Não uma avó que me levasse à praia, que me ajeitasse o vestido nos dias de festa, que me desse rebuçados por baixo da mesa, que me ensinasse a tabuada. Não essa avó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma outra avó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu digo Avó e não a &lt;em&gt;minha&lt;/em&gt; Avó. Foi a Avó que me ensinou a falar assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizia-me: Não precisas de dizer o &lt;em&gt;meu&lt;/em&gt; pai ou a &lt;em&gt;minha&lt;/em&gt; mãe. Toda a gente sabe que o pai e a mãe são o &lt;em&gt;teu&lt;/em&gt; pai e a &lt;em&gt;tua&lt;/em&gt; mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma avó que gostava de falar sobre literatura, sobre língua portuguesa, sobre história e geografia, sobre viagens. Que me oferecia enciclopédias e colecções de contos tradicionais, edições especiais da Peregrinação, d'Os Lusíadas. Apertava o cabelo num carrapito, bebia espumante ao almoço, falava como quem escreve: a sintaxe correcta, um adjectivo inesperado, um advérbio de modo. Frases que eram o essencial. Por vezes até meia frase, meia palavra, meia sílaba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para bom entendedor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste 7.º dia, lembro-me de certos dias, de certos episódios, de certas frases.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De uma frase:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, ainda este ano, acompanhou-me até à porta de sua casa e despediu-se de mim com uma frase. A sua frase não foi: "Boa viagem.", não foi: "Volta sempre.".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A avó não dizia o que os outros dizem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sua frase foi: "Continua assim: uma mulher vertical."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um adjectivo inesperado, meia frase, para bom entendedor. Corria então o mês de Fevereiro e a avó não morreria nunca, porque o seu coração era mais forte do que os outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parti para outra terra com aquele adjectivo inesperado ao colo, não sou grande entendedora. Além de ser torta e não vertical, nesse dia tinha pintado as unhas de cor‑de‑rosa choque, uma cor absurda para uma mulher vertical. Tenho a certeza de que a avó não gostava de cor-de-rosa choque, especialmente nas unhas, ainda que nunca mo tenha dito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Avó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não era uma avó como as outras. Não era uma pessoa como as outras. Não era um coração como os outros. Dizia uma frase, meia frase, e eu ficava a pensar em adjectivos inesperados, em escritores portugueses, em contos tradicionais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morreu no dia da Ascensão de Cristo.&lt;br /&gt;Uma espécie de milagre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segunda verdade:&lt;br /&gt;Eu não acredito em Deus. Eu acho que não acredito em Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Avó sabia disto, ainda que eu nunca lho tenha dito, e celebrou o meu casamento como se eu tivesse casado pela igreja, com toda a fé, toda a comunhão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma outra avó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que dizia o essencial. Que nem sempre foi entendida, que nem sempre soube entender. Que via um pouco mais além do que os outros, para lá do cor-de-rosa choque da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que sabia ser e estar como outros não sabem ser nem estar, como eu não sei ser nem estar, como ninguém sabe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrevi-lhe um postal que nunca chegou a ler. Um postal que dizia pouco para não cansar a vista nem o coração. Um postal na casa vazia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não vou à missa do sétimo dia, mas é como se fosse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Avó morreu no dia da Ascensão de Cristo.&lt;br /&gt;E eu tenho a certeza absoluta de que encontrou o &lt;a href="http://belgavista.blogspot.com/2009/11/o-meu-avo-e-eu.html"&gt;Avô&lt;/a&gt; no Céu.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-5977904325245341320?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/5977904325245341320/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=5977904325245341320' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/5977904325245341320'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/5977904325245341320'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2011/06/avo.html' title='A Avó'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-496892797780283198</id><published>2011-02-16T18:09:00.007+01:00</published><updated>2011-02-16T18:31:47.261+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias de mim'/><title type='text'>Dentista</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Ontem fui ao dentista. Não me importo de ir ao dentista; tenho dentes fortes. Além disso, o gabinete do meu dentista é espaçoso, tem uma janela ampla com vista para umas árvores grandes. Não sei o nome dessas árvores (não percebo nada de árvores), mas gosto de olhar para elas.&lt;br /&gt;(As pessoas que escrevem deviam perceber de árvores.)&lt;br /&gt;As árvores que vejo do gabinete andam agora de ramos descalços, sem som nem movimento, por causa do Inverno e da crise. Ainda assim, são bonitas. (Há gente que continua bonita apesar do Inverno e da crise. O meu dentista, por exemplo.) &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sento-me na cadeira, olho para as árvores. O dentista conta-me qualquer coisa e entra agora na minha boca escancarada, caminha pelos meus dentes com os seus dedinhos e uns instrumentos de plástico e metal. Fala-me dos malefícios do tártaro, uma história com moral. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Há claramente um outro mundo dentro da minha boca. A propósito disso apercebo-me de que não conheço o céu da minha própria boca. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;As árvores descalças devolvem-me uma tristeza boa.&lt;br /&gt;(Não é mau sofrer.)&lt;br /&gt;O dentista diz-me que os meus dentes são fortes, que as minhas gengivas são sensíveis. Que não é saudável ter gengivas sensíveis. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um dia como os outros, porque o tempo passa e os meus olhos andam pelas árvores como passarinhos. No entanto, subitamente, algo acontece.&lt;br /&gt;Uma mudança resoluta, definitiva, e o dia já não é o mesmo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sinto essa mudança na pele, na cabeça. E o dentista também. Desliga imediatamente os seus instrumentos de plástico e metal. Pergunta-me: "É uma canção portuguesa?" e os &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=SzHHsbJ_LyM"&gt;Madredeus&lt;/a&gt; entram-me pelos ouvidos, pelo céu da boca. Não respondo; tenho a boca escancarada assim como os ouvidos, e eu nem gosto dos Madredeus.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;As mesmas árvores descalças na rua, o mesmo Inverno, a mesma crise, e o céu é de repente um outro céu, o mundo é um outro mundo, e eu já não quero estar ali, no gabinete do dentista, a ver as árvores descalças. Tenho agora pressa de chegar a casa e saio a correr do gabinete, o casaco por vestir num dia de chuva, onde está o guarda-chuva? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Estou na rua das árvores descalças, mas já não olho para elas, ando num outro lugar como um passarinho, num outro mundo dentro de mim, no céu da minha boca, onde o tempo não passa.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tenho gengivas sensíveis. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Eis o meu ponto fraco.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-496892797780283198?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/496892797780283198/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=496892797780283198' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/496892797780283198'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/496892797780283198'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2011/02/dentista.html' title='Dentista'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-4629950069925360650</id><published>2011-02-09T17:06:00.014+01:00</published><updated>2011-02-09T18:12:34.041+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Da escrita'/><title type='text'>Papel, canetas e escrita</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Há várias coisas que me irritam. Uma é passarem-me à frente na fila; outra é ter vontade de escrever (o que implica tempo, espaço e energia) e não ter à mão um pedaço de papel ou uma caneta.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Esta situação irrita-me de tal maneira que se me rebentam na cabeça palavras zombeteiras como bombinhas de Carnaval e eu cerro os olhos e os punhos com muita força, ranjo os dentes. Fico assim durante horas. Nas semanas seguintes, esta irritação de pele fica a morar nos meus dias e nos meus sonhos, é insuportável. Não quero que esta situação se repita, acordo encharcada em suor durante a noite, faço tudo ao meu alcance para que nunca me falte papel nem canetas nem escrita. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;(Nada me parece mais importante do que papel, canetas e escrita. É ridículo.)&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Durante esse período de prevenção, compro, por exemplo, um caderno de argolas e folhas pautadas ou uma caneta azul Stabilo 0.4, uma esferográfica preta Staedler triplus ball M, uma caneta mais clássica, mais cara, talvez uma Sheaffer maneirinha, um diário de capa dura e folhas lisas, um caderno ainda mais pequeno, muito engraçado, com um elástico à volta para andar na bolsinha mais pequena da mala, uma caneta minúscula para trazer dentro da agenda, uma agenda com páginas em branco no fim, &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=KUBBSOR3tWQ"&gt;um exemplar amarelo de uma edição especial da Moleskine com o Pac Man&lt;/a&gt;, coisas assim. Além disso, colecciono folhas de rascunho no escritório, folhas de rascunho em casa, faço cadernos pequeninos com folhas velhas, compro cadernos reciclados porque são reciclados, uma caneta bonita porque é bonita, uma caneta simples porque é simples, uma lapiseira porque é uma lapiseira. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Por vezes, quando mudo de mala reparo que andava a passear cinco canetas e três cadernos. Reparo também que, durante um período de tempo desconhecido, não utilizei nenhuma das canetas nem nenhum dos cadernos para o efeito devido. Começo, por isso, a desistir das canetas e dos cadernos um a um: este caderno foi ao mercado, esta caneta ficou em casa, esta lapiseira comeu rosbife, e assim por diante.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;É evidente que, quando chega a vontade de escrever (o que implica tempo, espaço e energia), não tenho um pedaço de papel na mala nem uma caneta. Volto, pois, a cerrar os olhos e os punhos e a ranger os dentes, ouço as tais bombinhas de Carnaval nos ouvidos, talvez solte um gemido ou um guincho; provavelmente um rugido. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nos dias piores, tenho papel, mas não caneta. Não há nada mais frustrante do que ter papel e não ter caneta. É como ter um cigarro, mas não um isqueiro nem um fósforo nem um pedaço de madeira seco nem coisa que o valha. Escarafuncho a mala à procura de uma resposta, igual aos maluquinhos que vasculham os caixotes do lixo. A eterna esperança no movimento dos braços, risível como uma bombinha de Carnaval, como uma palavra zombeteira. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A título de exemplo, hoje trago um caderno de folhas lisas na mala e uma caneta, mas não me apetece nada escrever.&lt;br /&gt;A propósito de tudo isto, lembro-me do seguinte: O caderno amarelo com o Pac Man continua à minha espera, deitado na prateleira de baixo da &lt;a href="http://belgavista.blogspot.com/search/label/A%20casinha%20dos%20livros"&gt;casinha dos livros&lt;/a&gt;. No entanto, quando o comprei, há cerca de dois meses, parecia não haver no mundo coisa mais urgente do que comprar um exemplar amarelo da edição especial da Moleskine com o Pac Man. (Não fosse a edição esgotar-se e a oportunidade perder-se para sempre.)&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Esta recordação do caderno amarelo irrita-me ainda mais do que não ter papel ou caneta. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;É como ter mais olhos que barriga. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mais fama que proveito. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mais buracos que um queijo suíço.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-4629950069925360650?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/4629950069925360650/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=4629950069925360650' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/4629950069925360650'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/4629950069925360650'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2011/02/papel-canetas-e-escrita.html' title='Papel, canetas e escrita'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-3127477786715957929</id><published>2011-02-03T17:37:00.004+01:00</published><updated>2011-02-03T17:58:44.493+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Das personagens de verdade'/><title type='text'>Rapariga com saquinho de pano</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O narrador deste texto anda interessado em raparigas muito magras que não sorriem e têm dentro da mala um saquinho de pano que utilizam para ir às compras. Há muitas raparigas assim nesta cidade, por isso o narrador coloca-se estrategicamente na porta de saída do supermercado para as ver passar. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não precisa de esperar muito tempo, porque já ali vem uma a dobrar a esquina. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Descreve-a no seu bloco de notas: uma certa falta de cadência nas ancas, um rosto desinteressante como um sinal de trânsito. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A rapariga passa pelo narrador e não deixa nenhum rastro, nenhuma pegada, nenhum perfume. Entra agora no supermercado com o mesmo que ar com que entraria numa repartição de finanças, sem especial interesse. Deambula pelos corredores sem olhar para as prateleiras, sabe exactamente o que quer. Tira cinco coisas para o cestinho, não mais, e encaminha-se agora para as caixas. Respeita a fila educadamente, o rosto igual a um sinal de trânsito, o corpo muito magro, exibindo ossos. A alma escondida atrás de tudo isto a fazer não se sabe o quê. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tira cinco coisas do cesto: um pacote de quatro iogurtes magros, uma alface, um saco transparente com cinco cenouras lá dentro, uma caixinha com três fatias de queijo e uma pasta de dentes. Não fica muito tempo à procura do seu saquinho de compras, sabe exactamente onde está. As cinco coisas cabem perfeitamente no saquinho de pano que traz dentro da mala. Os seus dedinhos mexem-se com sonolência, sem apetite. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sai do supermercado, ainda o mesmo ar de repartição de finanças. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O narrador deste texto continua a tirar notas, mas está tão interessado nesta rapariga muito magra que acaba de ter uma erecção ao vê-la passar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Este fenómeno é único, porque nenhum outro homem tem erecções quando vê esta rapariga passar. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ora, o narrador deste texto é, claramente, muito mais interessante do que a rapariga com saquinho de pano.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-3127477786715957929?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/3127477786715957929/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=3127477786715957929' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/3127477786715957929'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/3127477786715957929'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2011/02/rapariga-com-saquinho-de-pano.html' title='Rapariga com saquinho de pano'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-4393769828813490287</id><published>2011-02-02T18:38:00.003+01:00</published><updated>2011-02-02T18:42:23.821+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Diálogos'/><title type='text'>Este blogue passa a vida a mudar de look.</title><content type='html'>1.º leitor – Este blogue passa a vida a mudar de look.&lt;br /&gt;2.º leitor – Pois. É escrito por uma mulher...&lt;br /&gt;1.º leitor – Como é que sabes?&lt;br /&gt;2.º leitor – As mulheres passam a vida a mudar de look!&lt;br /&gt;1.º leitor – Os homens não mudam de look?!&lt;br /&gt;2.º leitor – Mudam, claro. Mas é diferente.&lt;br /&gt;1.º leitor – É diferente?&lt;br /&gt;2.º leitor – Sim. Os homens mudam de look com o tempo. Porque ficam carecas e gordos.&lt;br /&gt;1.º leitor – E as mulheres não mudam de look com o tempo?&lt;br /&gt;2.º leitor – Mudam, claro. Mas, além disso, também mudam de look quando lhes apetece. Dá-lhes pr'aí!&lt;br /&gt;1.º leitor – As mulheres mudam quando lhes apetece?&lt;br /&gt;2.º leitor – Sim.&lt;br /&gt;1.º leitor – Mas isso é fantástico! As mulheres têm super poderes?&lt;br /&gt;2.º leitor – Não. As mulheres têm problemas de identidade.&lt;br /&gt;1.º leitor – As mulheres mudam de look porque têm problemas de identidade?&lt;br /&gt;2.º leitor – Sim.&lt;br /&gt;1.º leitor – E os homens? Não têm problemas de identidade?&lt;br /&gt;2.º leitor – Têm, claro, mas disfarçam mais. Daí não mudarem de look só porque lhes apetece!&lt;br /&gt;1.º leitor – As mulheres mudam de look para exibir os seus problemas de identidade?&lt;br /&gt;2.º leitor – Sim.&lt;br /&gt;1.º leitor – As mulheres gostam de exibir os seus problemas de identidade?&lt;br /&gt;2.º leitor – Sim. Para atraírem os homens!&lt;br /&gt;1.º leitor – Os homens sentem-se atraídos por problemas de identidade?&lt;br /&gt;2.º leitor – Não.&lt;br /&gt;1.º leitor – Então qual é a lógica?&lt;br /&gt;2.º leitor – Nenhuma…&lt;br /&gt;1.º leitor – Isso parece-me tudo muito complicado.&lt;br /&gt;2.º leitor – As mulheres são muito complicadas.&lt;br /&gt;1.º leitor – Porquê?&lt;br /&gt;2. º leitor – Porque têm problemas de identidade.&lt;br /&gt;1.º leitor – Bolas, coitados dos homens…&lt;br /&gt;2.º leitor – Podes crer.&lt;br /&gt;1.º leitor – Este blogue tem problemas de identidade?&lt;br /&gt;2.º leitor – Claro. É escrito por uma mulher...&lt;br /&gt;1.º leitor – Coitadinho do blogue!&lt;br /&gt;2.º leitor – Coitadinhos mas é de nós!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-4393769828813490287?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/4393769828813490287/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=4393769828813490287' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/4393769828813490287'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/4393769828813490287'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2011/02/este-blogue-passa-vida-mudar-de-look.html' title='Este blogue passa a vida a mudar de look.'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-8307666561931639650</id><published>2010-12-20T18:36:00.004+01:00</published><updated>2010-12-20T18:56:42.194+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prémios'/><title type='text'>Sea of Words 2010</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://www.iemed.org/seaofwords/2010/a_guanyadors.php"&gt;Fui a Barcelona e a Granada com mais dezanove pessoas.&lt;/a&gt; Tenho esta sina de fazer viagens a lugares estranhos com gente estranha, nada de grave. Ganhei um iPod shuffle que será uma óptima prenda de Natal para um dos meus primos e também um Notebook chamado Aspire que tem um teclado espanhol e que ainda nem sequer liguei. Conversei pela primeira vez com uma rapariga de Israel e com uma outra da Palestina. Não falei com elas sobre o conflito porque eu não sabia o que dizer sobre o conflito. Optei por falar sobre homens com a primeira e sobre fotografia com a segunda, assuntos enfadonhos em qualquer parte do mundo. O egípcio escreveu a história dele à beira-mar, disse-me isto umas três vezes. A marroquina não podia beber álcool, tive imensa pena dela. Morava na Holanda. Não conseguia usar muito bem o auricular para ouvir a interpretação do espanhol para inglês, porque tinha os ouvidos tapados com lenços lindíssimos. O turco não podia comer porco, pelo que não pôde saborear a fatia de bacon estaladiço que vinha sentada em cima do salmão. Um desperdício. A lituana era vegetariana por opção, bem como a finlandesa e uma das eslovenas e outras pessoas ainda. O vegetarianismo está na moda. A eslovena vegetariana vestia-se de roxo e tinha uns óculos enormes, estudou dramaturgia. Tinha pinta de dramaturga. O tipo do Montenegro media, à vontade, dois metros. Acho sempre que as pessoas que medem dois metros passam o dia inteiro a jogar basquetebol, por isso estranhei que um tipo de dois metros gostasse de escrever. Não falei muito com o tipo do Montenegro, porque passava o tempo aos segredinhos com uma das polacas. Acabo sempre por me dar bem com eslovenos, não sei porquê. Não temos nada a ver com os eslovenos, mas eu gosto deles e eles também gostam de mim. Vou à Eslovénia no próximo Verão. Já estava decidido antes desta viagem. O espanhol e o italiano diziam piadas que só eles percebiam. Só os latinos percebem os latinos. Não cheguei a trocar uma única palavra com a tipa da Albânia, parece-me. Não houve oportunidade e a tipa da Albânia não gostava lá muito de falar. Não me choca. Uma das polacas falava melhor francês do que inglês, porque vivia em Paris. A outra polaca morava na Finlândia, porque tinha casado com um finlandês. Ossos do ofício. O croata também era casado, mas não tinha filhos, acho. Uma das eslovenas não era casada, mas já tinha um filho. Tinha imensas saudades do filho. Quanto mais próximos estávamos do fim da viagem, mais feliz ela estava. No último dia, andava aos pulinhos. A finlandesa era bissexual. Falámos muito sobre sexo com a finlandesa, como é óbvio. Outro assunto enfadonho. A lituana só tinha 18 anos, falava pouco. O letão usava um chapéu à cowboy, também falava pouco. Fizemos muitas coisas em grupo. Saímos juntos, bebemos juntos, rimo-nos juntos, dançámos juntos. Mas a certa altura não podia ver nenhuma destas pessoas à frente. Queria estar sozinha em casa, a comer pizza, vestida com o meu pijama e o meu roupão, a ver uma série fora de moda como o 24 horas. No entanto, aturei-os até ao fim e quando me vi sozinha no aeroporto de Barcelona, tive pena de não me ter despedido de todos. Com um abraço ou algo do género. Não sei porquê. O palácio da Alhambra é das coisas mais bonitas que vi na vida. Vagueávamos pelos jardins da Alhambra e eu pensava na minha mãe, na sua tez tão escura, no seu nariz árabe. Os árabes estiveram sete séculos na Andaluzia. Isto impressionou-me. Também me impressionou o facto de eu não saber isto. Sou uma pessoa tão inculta, que vergonha de mim própria. Os árabes desapareceram da Península Ibérica. O Hitler não conseguiu tanto. Isto foi dito por uma israelita, não por mim. Granada é uma cidade lindíssima, mas não tivemos tempo para perceber se Granada era, de facto, lindíssima. Gosto de Barcelona. Gosto mais de estar sozinha do que em grupo. Decidi ler As Cruzadas Vistas pelos Árabes. Na tradução inglesa, talvez. Apenas 3% do mercado livreiro de língua inglesa é dedicado a literatura traduzida. Também não sabia isto. O meu texto foi traduzido para francês, é uma sensação estranha ler um texto meu em francês. O Amin Maalouf esteve recentemente em Bruxelas. Não o fui ver, tinha outras coisas para fazer. Há tantas coisas para fazer. Hoje vou jantar pizza. Já estava decidido antes da viagem.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-8307666561931639650?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/8307666561931639650/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=8307666561931639650' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/8307666561931639650'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/8307666561931639650'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2010/12/sea-of-words-2010.html' title='Sea of Words 2010'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-3774722417660341014</id><published>2010-11-30T18:10:00.009+01:00</published><updated>2010-12-03T18:15:50.183+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prémios'/><title type='text'>Jovens Criadores '10</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;No outro dia fui tirar sangue. Coisas da medicina do trabalho. Não penso muito sobre isso, faço o que mandam. Urinei logo de manhã para uma caixinha redonda muito engraçada que daria imenso jeito para guardar clipes e vim para o trabalho em jejum. A única diferença entre esse dia e os outros dias foi ter feito xixi para a tal caixinha e não para a sanita. De resto, vou sempre em jejum para o trabalho ou quase sempre. Cheguei ao 9.º andar e entrei na salinha de espera. A salinha de espera é tão pequenina que faz lembrar a caixinha do xixi, mas não é redonda portanto não é nada parecida com a caixinha do xixi. Na sala de espera há lugar para umas cinco pessoas e parece-me que, se todas forem espadaúdas como, aliás, o são as pessoas desta terra, haveriam de roçar os joelhos umas nas outras. Felizmente só cá está uma pessoa e eu sento-me ao seu lado, discreta e caladinha como nos meus melhores dias. Nessa altura, olho para o lado e qual não é o meu espanto quando vejo encostadinho a mim aquele &lt;a href="http://belgavista.blogspot.com/2010/10/tipo-da-unidade-de-traducao-inglesa.html"&gt;tipo da unidade de tradução inglesa&lt;/a&gt;, parecido com o valter hugo mãe. A coincidência desceu sobre mim como uma revelação de Nossa Senhora e eu fiquei muito quietinha a observar o valter hugo mãe: está a ler um livro velho com um ar zangado. É estranho que esteja a ler com um ar zangado. As pessoas não costumam ler com um ar zangado. O valter hugo mãe é especial. Está tão metido consigo que dá vontade de lhe dar uma festinha na cara ou de lhe fazer coceguinhas no queixo. Acorda, palerminha.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A enfermeira interrompe-nos e o valter hugo mãe desaparece para sempre. Observo a caixinha onde me encontro: há cartazes nas paredes anunciando eventos antigos a que eu não fui por falta de paciência para a União Europeia fora do horário de expediente, Deus me perdoe. Aposto que o tipo da unidade de tradução inglesa também não foi a nenhum destes eventos, tem o ar mais desinteressado do mundo e, ainda por cima, lê livros com ar zangado, aposto que não liga nenhuma à União Europeia. Gosto dele, mas não por isso. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A enfermeira chama-me. Deito-me na marquesa bem-disposta e a enfermeira vai sugando o meu sangue enquanto eu conto piadinhas sobre as pessoas que correm à chuva com fatinhos de licra. Rimo-nos as duas das pessoas que correm à chuva com fatinhos de licra, já não sei onde começou esta conversa. No final, a enfermeira oferece-me uma maçã e eu mordo-a. Vou trabalhar muito contente por causa do tipo da unidade de tradução inglesa que é parecido com o valter hugo mãe, uma parvoíce. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ora, nesse mesmo dia tomei conhecimento de que ganhei os &lt;a href="http://issuu.com/cpai/docs/nnewsletters-novembrodezembro"&gt;jovens criadores&lt;/a&gt;. Não é primeira vez que concorro e nunca levo nenhuma bicicleta. Desta vez não foi assim. Fiquei ainda mais contente. Leio a comunicação até ao fim e fico ainda mais contente, porque o valter hugo mãe fazia parte do júri. O valter hugo mãe de verdade, não este clone foleiro, com ar de pessoa importante que não faz xixi de manhã. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Estas coisas deixam-me assim, sem pinga de sangue. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sou tão mimalha às vezes.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-3774722417660341014?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/3774722417660341014/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=3774722417660341014' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/3774722417660341014'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/3774722417660341014'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2010/11/jovens-criadores-10.html' title='Jovens Criadores &apos;10'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-8341481619730145744</id><published>2010-11-22T18:24:00.022+01:00</published><updated>2010-11-22T18:57:52.419+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Exercícios de escrita criativa'/><title type='text'>Sete pés</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Fujo a sete pés, literalmente a sete pés, porque vejo os meus pés e também outros pés correndo, os meus pés e outros cinco pés, olho para mim, sete olhos, e não reconheço o corpo, o meu próprio corpo que é o meu próprio corpo correndo à minha frente, vários corpos à minha frente, toda eu duplicada, toda eu triplicada, toda eu sete vezes, sete pés mas não sete cabeças, o casaco pela mão, só um casaco pela mão, e tenho apenas duas mãos, só duas mãos, apesar de ter sete pés e talvez sete corpos, apesar de a tarde estar fria e de ser só uma tarde, uma só tarde, um só casaco, só um casaco, o coração contando segundos, os segundos ao contrário, 10, 9, 8, o meu corpo ao contrário, o coração que é só um, contando os segundos, sete pés, sete vidas, sete mares, sete colinas, até ao fim do mundo, o meu coração como uma granada ou como a passagem de ano, 3, 2, 1 e eu oiço uma bomba ou uma rolha saltando, qualquer coisa que explode como nos dias de festa ou nos dias de guerra e eu corro ainda mais, por causa dos pés, por causa dos outros, os pés dos outros, que não são meus, que nunca foram meus, os pés dos outros, que me seguem, e não olho para trás, nunca olho para trás, atiro o casaco e corro ainda mais, porque balanço os braços, e toda eu sou velocidade, fujo do destino, para o destino, contra o destino, o casaco azul às pintinhas, o melhor casaco de todos, qual destino, sem destino, e eu fujo a sete pés e não sou um corpo, sou tantos corpos, tenho sete vidas, para quê as vidas, morrer sete vezes e sempre a mesma morte, atirar-me sete vezes, esborrachar-me sete vezes, sempre este terror, sempre este coração, nunca o destino, sempre o destino, que é uma granada e conta os segundos, o mundo ao contrário, até ao fim do mundo, sete colinas, sete mares, sete mortes sempre iguais.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-8341481619730145744?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/8341481619730145744/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=8341481619730145744' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/8341481619730145744'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/8341481619730145744'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2010/11/sete-pes.html' title='Sete pés'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-4380078573013102126</id><published>2010-11-19T14:27:00.016+01:00</published><updated>2010-11-19T15:50:32.950+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Diálogos'/><title type='text'>Diálogo com colega insatisfeito</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;- &lt;em&gt;Bonjour&lt;/em&gt;! Estou a ligar a propósito do documento X.&lt;br /&gt;- Diga.&lt;br /&gt;- Tem aí o documento consigo?&lt;br /&gt;- Como?!&lt;br /&gt;- Se tem o documento consigo…&lt;br /&gt;-&lt;em&gt; [hesitante]&lt;/em&gt; Não estou a perceber…&lt;br /&gt;- … Pergunto-lhe se tem o documento consigo, porque tenho aqui uma pergunta específica sobre…&lt;br /&gt;- Se tenho o documento comigo?!&lt;br /&gt;- Sim…&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;[riso sarcástico]&lt;/em&gt; Desculpe, você está a perguntar-me se eu tenho o documento à minha frente?!&lt;br /&gt;- Sim…&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;[riso sarcástico]&lt;/em&gt; É evidente que não, minha senhora! Eu tenho outras coisas para fazer, sabe?&lt;br /&gt;- Claro, compreendo… Pode então abrir o documento, por favor?&lt;br /&gt;- Um momento. &lt;em&gt;[quinze segundos depois] &lt;/em&gt;Diga.&lt;br /&gt;- Ora bem, este documento tem uma versão anterior e…&lt;br /&gt;- Mas está a falar de quê?&lt;br /&gt;- Deste documento que...&lt;br /&gt;- Qual parte do documento?!&lt;br /&gt;- Na página 5, no ponto 2...&lt;br /&gt;- Sim e então?&lt;br /&gt;- A parte Y foi eliminada numa versão anterior...&lt;br /&gt;- Não estou a ver erro nenhum!&lt;br /&gt;- Sim, mas a parte Y foi eliminada numa versão anterior e…&lt;br /&gt;- Qual versão anterior?&lt;br /&gt;- No documento Z, a versão anterior…&lt;br /&gt;- E então?&lt;br /&gt;- Ora bem, esta parte foi eliminada e agora...&lt;br /&gt;- Não estou a perceber nada do que está a dizer.&lt;br /&gt;- Esta parte aparece novamente e eu só queria mesmo saber se se trata de…&lt;br /&gt;- Bem, não sei. Tenho de comparar as versões. Depois telefono.&lt;em&gt; Au revoir&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;[É por estas e por outras que as lambadas devem ser dadas em devida altura. Este senhor, se fosse pequenino, levava duas lambadas e piava fininho. Infelizmente já é demasiado crescido para isso e agora, para ir ao sítio, vai ter de levar um murro nos tomates todos os dias antes de sair de casa. Coitado do senhor. É desagradável.]&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-4380078573013102126?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/4380078573013102126/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=4380078573013102126' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/4380078573013102126'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/4380078573013102126'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2010/11/dialogo-com-colega-insatisfeito.html' title='Diálogo com colega insatisfeito'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-723569353635836330</id><published>2010-11-18T19:08:00.005+01:00</published><updated>2010-11-18T19:20:24.100+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Exercícios de escrita criativa'/><title type='text'>Uma praia feia</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;De repente lembrei-me daquele lugar onde ninguém estava além de nós. Daquela praia deserta num dia de Inverno. Uma praia feia, aliás, cercada de prédios pardacentos, a ponta de uma cidade, o fim de qualquer coisa. Nem as gaivotas pousavam ali, só os nossos pés. Era uma praia tão triste. Lembras-te? Tanto frio, tanto vento, nem tinha trazido um gorro, doíam-me os ouvidos. Todas as razões para não estarmos ali e, no entanto, estávamos ali. Enrolei o cachecol à volta da cabeça, lembras-te? Não te ouvia, não te falava, não te beijava e, ainda assim, não queria estar noutro lugar. O sol ia tão alto: perfurava as nuvens como um milagre e só nós assistíamos àquilo, uma ilusão pateta de que talvez fossemos especiais. Tão parvinhos. As nossas pegadas na areia, só as nossas pegadas na areia, apesar de não estarmos em nenhum deserto, de nunca termos estado num deserto, de estarmos numa cidade feiíssima cheia de gente e de gaivotas que se escondiam noutro lugar qualquer que não aquele. Conheço tão bem as tuas pegadas. Conheço-as muito melhor do que as minhas. Porque sigo os teus passos e não os meus, claro. Conheço bem os teus ombros, o teu cabelo, as tuas costas, sigo-te. Quanto tempo terão ficado ali as nossas pegadas, já viste? Se calhar tempo nenhum, repara, porque as nuvens escureciam como os dias e é provável que tenha chovido nesse dia, não me lembro. O vento a correr como uma má notícia, o meu cabelo tão desgrenhado, cheio de areia e de sal, e eu feliz com qualquer coisa, distraída com qualquer coisa. Tão arrependida por não ter trazido o gorro. A seguir as tuas pegadas na praia feiíssima, os teus pés muito maiores do que os meus. E era o final da cidade, o final dos dias, onde ninguém estava além de nós. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não sei por que razão me lembrei disto agora.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-723569353635836330?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/723569353635836330/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=723569353635836330' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/723569353635836330'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/723569353635836330'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2010/11/uma-praia-feia.html' title='Uma praia feia'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-9029637404954255567</id><published>2010-11-16T11:10:00.004+01:00</published><updated>2010-11-16T11:41:41.204+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Rodrigo'/><title type='text'>Amor correspondido</title><content type='html'>- Ana?&lt;br /&gt;- Estás a chamar pela Ana, Rodrigo?&lt;br /&gt;- Ana?&lt;br /&gt;- A Ana não está, fofinho!&lt;br /&gt;- Ana?&lt;br /&gt;- A Ana foi-se embora, não foi?&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Abião&lt;/em&gt;?&lt;br /&gt;- Pois, foi-se embora de avião.&lt;br /&gt;- Ana?&lt;br /&gt;- Se quiseres, podemos ver fotografias da Ana. Queres ver fotografias da Ana?&lt;br /&gt;- Xim.&lt;br /&gt;- Olha aqui esta fotografia da Ana.&lt;br /&gt;- Mais!&lt;br /&gt;- E olha esta aqui.&lt;br /&gt;- Mais!&lt;br /&gt;- Olha outra aqui também.&lt;br /&gt;- Mais!&lt;br /&gt;- Pronto, agora aqui não tenho mais fotografias da Ana.&lt;br /&gt;- Mais!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-9029637404954255567?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/9029637404954255567/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=9029637404954255567' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/9029637404954255567'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/9029637404954255567'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2010/11/amor-correspondido.html' title='Amor correspondido'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-2468306380643187436</id><published>2010-11-09T16:55:00.004+01:00</published><updated>2010-11-30T18:24:51.067+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Prémios'/><title type='text'>Aveiro Jovem Criador 2010</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;No sábado passado algo de absolutamente extraordinário se passou em Aveiro: a ria rumorejou a história de todos os amores e os moliceiros soergueram-se na ria, entraram pela praça do Rossio, atravessaram o mercado do peixe e já não eram moliceiros, vejam bem!, eram mulheres empinando os narizes, os lábios coloridos de escarlate, velas cobrindo o cabelo, sirgas penduradas ao pescoço. Infelizmente ninguém deu por isso, o que foi ainda mais extraordinário. Àquela hora todos se distraíam da cidade, imergidos que estavam nas suas vidas ou nas lojas do Fórum. Outros houve que se encontravam no Museu de Aveiro, assistindo à &lt;a href="http://www.cm-aveiro.pt/www/Templates/GenericDetails.aspx?id_object=34212"&gt;entrega dos prémios aos jovens criadores&lt;/a&gt;, que eram jovens e criadores e tinham, por isso, esperança na vida, no amor, na arte e noutros substantivos abstractos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Oh, grande perda aquela! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Os moliceiros passeando-se na cidade, sabedores de todos os segredos, e os jovens criadores comendo ovos-moles, distraídos, perplexos, regozijados. Tão jovens, tão criativos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Coitados!&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-2468306380643187436?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/2468306380643187436/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=2468306380643187436' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/2468306380643187436'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/2468306380643187436'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2010/11/aveiro-jovem-criador-2010.html' title='Aveiro Jovem Criador 2010'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-2443364337127576640</id><published>2010-10-29T15:04:00.004+02:00</published><updated>2010-10-29T15:28:17.518+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Das personagens de verdade'/><title type='text'>Um homem corre para o metro.</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Um homem corre para o metro. O cabelo grisalho e uma calva redonda no cocuruto. Não tem idade para correr nem muito jeito para isso, mas corre na mesma: está com pressa. Pela mão traz uma mala de pele ou a imitar pele, ligeiramente puída, talvez professor de matemática ou vendedor de livros por catálogo. O metro está parado há coisa de cinco segundos, mas o homem ainda não chegou à plataforma. Por isso, corre. Galga agora os degraus da escada rolante, dá um pequeno encontrão numa senhora muito gorda, pede desculpa verdadeiramente arrependido, a senhora parece perdoá-lo. As portas do metro já assobiam, começam agora mesmo a fechar-se e o homem, que tem pernas e braços compridos, tira partido das pernas e dos braços compridos e lança a mão vazia para uma das portas, na esperança de parar o movimento ou o tempo ou coisa que o valha. Infelizmente as portas continuam a fechar-se até que se fecham mesmo. A mão do homem fica exactamente a meio: os cinco dedos dentro do metro e o resto da mão do lado de fora. As portas não voltam a abrir, a enorme carruagem não anda para a frente nem para trás. O homem ali fica especado, a mão entre uma coisa e outra. O condutor do metro não presta atenção a nada disto. De outro modo, abriria as portas agora mesmo. Os passageiros olham atónitos para os dedos pendurados na porta. Do lado de fora, as pessoas mexem-se alvoraçadas como pombos. Por fim, e para horror dos que assistem, o metro parte. Os passageiros amotinam-se, começam a esbracejar e a gritar. O homem de cabelo grisalho não tem outro remédio: corre pela plataforma com o metro que avança, levado pela própria mão. Alguns passageiros correm atrás dele. O homem de cabelo grisalho e calva redonda no cocoruto não tem idade para correr nem muito jeito para isso, mas corre na mesma. Felizmente, a senhora muito gorda está de costas para o homem que corre na sua direcção. Além de muito gorda, é completamente surda, não sabe o que se passa.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A colisão brutal entre os dois corpos foi o que bastou para salvar o homem e a sua mão. Homem e mulher caem no chão como dois amantes. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um tratamento de choque.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Para onde iria o homem com tanta pressa? Jamais saberemos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-2443364337127576640?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/2443364337127576640/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=2443364337127576640' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/2443364337127576640'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/2443364337127576640'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2010/10/um-homem-corre-para-o-metro.html' title='Um homem corre para o metro.'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-3716830053001927071</id><published>2010-10-19T17:50:00.002+02:00</published><updated>2010-10-19T17:57:14.830+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias do real'/><title type='text'>Imigrantes, intocáveis e imortais</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Quando como lasanha fico com o estômago a levedar durante a tarde inteira. É um facto. O mesmo acontece quando falo sobre multiculturalismo. Fico tão enfastiada que tenho de beber um chá verde para digerir. Mesmo assim, como lasanha porque gosto de comer e falo sobre multiculturalismo porque vivo em Bruxelas, onde o multiculturalismo está sempre na ordem do dia. Trata-se de um tema extremamente cosmopolita e moderno. Ora, num discurso proferido este domingo, a Angela Merkel disse qualquer coisa como &lt;a href="http://www.bbc.co.uk/news/world-europe-11559451"&gt;"o multiculturalismo falhou redondamente"&lt;/a&gt;. Como se não bastasse, disse isto em alemão, uma língua medonha e nada cândida, ao contrário do português.&lt;br /&gt;É óbvio que Angela Merkel já sabia que todos lhe cairiam em cima. Há que apreciar Angela Merkel, nem que seja, por isso. Há pouca gente temerária à frente da Europa, são todos demasiado cosmopolitas, demasiado modernos. É certo que, antes de dizer isto, a chanceler também disse outras coisas. Por exemplo, que os alemães aceitaram os &lt;em&gt;Gastarbeiter&lt;/em&gt; nos anos 60 na expectativa de que eles se fossem embora passado pouco tempo. Que, constatando o contrário, os alemães resolveram acolher os imigrantes e adoptaram uma perspectiva &lt;em&gt;multikulti&lt;/em&gt;, num espírito leviano e contente de coexistência.&lt;br /&gt;Não percebo muito do assunto, porque não sou pessoa para perceber muito dos assuntos mas, como muita gente da minha geração, sou um bocadinho cosmopolita e também um bocadinho modernaça, de maneira que me apetece dizer algo sobre isto.&lt;br /&gt;Só ouvi o discurso de Angela Merkel hoje e devo dizer que as suas palavras não me chocam absolutamente nada. Parece-me, aliás, que a chanceler disse o que outros já disseram ou, pelo menos, queriam ter dito. O multiculturalismo é, na Europa, uma tendência imperiosa como as calças de ganga. Qualquer europeu que se preze tem vários pares de calças de ganga e é multicultural, ou seja, vai ao cinema ver filmes turcos, vai jantar ao indiano e ao vietnamita, tira cursos de cozinha marroquina e fala várias línguas.&lt;br /&gt;A meu favor, digo o seguinte: como kebabs com frequência, dividi o apartamento com uma turca e com uma alemã durante um ano, estou a aprender a quarta língua estrangeira, trabalhei em quatro países europeus, vou de fim-de-semana com amigas búlgaras e eslovenas, jogo vólei numa equipa flamenga e casei com um português porque cheguei à conclusão evidente de que essa era a melhor nacionalidade do mundo. Estou, portanto, integradíssima neste meio multicultural, não tenho nada contra o diálogo intercultural. Adoro multiculturalismo e calças de ganga, desde que não me roubem a identidade.&lt;br /&gt;Admito, no entanto, o seguinte: o multiculturalismo é, como tudo o que é moda, uma verdadeira fachada. Há muito que a Europa enfrenta problemas relacionados com a imigração. Isto é tão verdade que até soa a lugar-comum, desculpem lá. A perspectiva &lt;em&gt;multikulti&lt;/em&gt; de tudo-ao-molho-e-fé-em-Deus-desde-que-não-seja-assim-muita-muita-fé não resulta. A Europa foi demasiado branda com os que cá chegaram. Aceitou-os, mas não exigiu ser aceite. Era demasiado cosmopolita e moderna para isso. Chegou a hora de repensar o multiculturalismo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E quem se choca quando a Angela Merkel diz que os alemães se sentem ligados aos valores cristãos, recomponha-se. Não acredito em Deus, mas acredito na História e é isto que ela nos diz.&lt;br /&gt;Não concordo com as medidas de Sarkozy, não me parece que resolvam o problema. Mas também me parece que não podemos olhar para os imigrantes como se fossem intocáveis. É preciso mexer nos imigrantes, integrá-los nos países que os acolhem. Sobre isto, uma palavra: educação. Já se disse demasiado sobre isso, não vou repetir o que foi dito.&lt;br /&gt;Claro que Angela Merkel não tem a vida facilitada na Europa. Não só por ser mulher, mas sobretudo por ser alemã e discursar em alemão. Já se sabe que o mundo inteiro morre de medo quando alguém diz o que quer que seja em alemão. Esta é, quanto a mim, uma reacção normal. Não quero falar de judeus. Por uma vez, que não se fale em judeus, mas o trauma da Segunda Guerra Mundial está para ficar. Os judeus que morreram são imortais. Mas eu não quero falar nos 6 milhões de judeus que morreram na Segunda Guerra Mundial, porque senão também teria de falar nos 10 milhões de chineses e nos 24 milhões de soviéticos e, mesmo assim, só estaríamos a falar de metade das &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/World_War_II_casualties#cite_note-11"&gt;pessoas que perderam a vida nessa guerra&lt;/a&gt;. Não quero falar sobre isso. Prefiro falar sobre o multiculturalismo. Ainda que fique um pouco enfastiada depois. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nada como um chá verde para ajudar.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-3716830053001927071?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/3716830053001927071/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=3716830053001927071' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/3716830053001927071'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/3716830053001927071'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2010/10/imigrantes-intocaveis-e-imortais.html' title='Imigrantes, intocáveis e imortais'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-1296030583024564300</id><published>2010-10-14T17:05:00.014+02:00</published><updated>2010-10-14T17:47:18.011+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Exercícios de escrita criativa'/><title type='text'>Pastilhas elásticas</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Acabaram-se-me as pastilhas elásticas. Detesto quando isto acontece, sinto-me carente. Como se me faltasse o mimo ou o ânimo ou água ou coisa que o valha. Adoro pastilhas elásticas: entretêm-me a boca e ajudam-me a marcar o compasso das horas. Na falta de pastilhas elásticas, ponho-me a chuchar no dedo ou a tirar macaquinhos do nariz ou a roer as unhas, o que é extremamente deselegante. Há quem considere mais deselegante mascar pastilhas elásticas, principalmente quando a pessoa em causa faz barulho ou gira a boca como um animal ruminante. Não sei se faço barulho ou se giro a boca como um animal ruminante, nunca reparei. Gosto de fazer balões e de espalmar as pastilhas no céu-da-boca como se fossem massa ou plasticina. Costumo ter uns dois ou três pacotes de pastilhas no gabinete. Para variar de sabor. Na verdade, não são bem pacotes, mas sim caixotes de pastilhas. Este último caixote da Mentos, por exemplo, tinha quarenta e cinco "soft cubes". O caixote tinha a forma de um cubo e as pastilhas também. Gosto das pastilhas Mentos. Um caixotinho de pastilhas dá-me para imenso tempo, porque vou debicando de vários. No entanto, nestas últimas semanas distraí-me e agora acabaram-se-me as pastilhas de repente. Costumo comer entre uma e três pastilhas por dia. Felizmente tenho bons dentes. Pelo menos é o que diz o meu dentista, que tem ar de menino bom por causa da tez muito fina e do sorriso ebúrneo. O meu dentista seria incapaz de mentir. Até há bem pouco tempo só comia pastilhas de mentol. Não gostava do sabor das outras, tudo me parecia artificial e nenhuma pastilha me deixava na boca a mesma sensação de frescura. Gosto da sensação de frescura. Ao contrário do que possam estar a pensar, não masco pastilhas para lavar os dentes. Tenho o hábito de lavar os dentes várias vezes por dia, porque também gosto da sensação de frescura das pastas de dentes. Hoje em dia, como tudo o que é pastilha, gosto de variar. Alcancei uma certa maturidade no que diz respeito a pastilhas elásticas. Quando era miúda as minhas pastilhas preferidas eram as Gorila. Gostava do formato do paralelepípedo, do invólucro de papel, do som do papel a rasgar, da textura macia dos desenhos que vinham por dentro. Ficava com dores nos maxilares porque as pastilhas Gorila eram grandes e duras de roer. Mas não havia nada na vida como as pastilhas Gorila. Era um prazer ficar com dores nos maxilares. Depois vieram as pastilhas do gelado Epá. Era difícil dominar aquelas bolas enormes. Como todos os outros miúdos, comia o gelado Epá por causa da pastilha e não por causa do gelado. Tudo isto se passou depois da pré-primária. Lembro-me muitas vezes da pré-primária. Tinha quatro ou cinco anos, não mais. A minha melhor amiga chamava-se Diana, eu gostava muito da Diana. Andávamos de bata azul e de chapéu vermelho, lembro-me disso. Ríamo-nos muito, ainda me lembro das gargalhadas efusivas da Diana. A Diana tinha os dentes podres e muito tortos por causa da chucha, segundo consta. Certa vez enquanto esperávamos que as nossas mães nos viessem buscar à escola, pintámos os lábios com um batom vermelho e demos um beijo na boca. Éramos crianças como as outras, acho, e, como todas as outras crianças, não podíamos comer pastilhas elásticas. Eu e a Diana tínhamos uma frustração enorme por não podermos comer pastilhas elásticas. Falávamos disso, de como era injusto não podermos comer pastilhas elásticas. Até que uma de nós teve uma ideia fantástica, que era tão legítima como a de pintar os lábios de vermelho e dar um beijo na boca. Essa ideia consistia no seguinte: Por que não comer as pastilhas que os outros deitavam para o chão? Era uma ideia tão simples e, no entanto, genial. Ficámos tão entusiasmadas com a nossa descoberta que passávamos, provavelmente, horas à procura de pastilhas. Recuperávamos as pastilhas abandonadas no asfalto ou esmagadas nos bancos da escola, nas portas da casa de banho, nos ferros dos baloiços, nas balizas do campo de futebol, nas mesas do refeitório. Havia pastilhas elásticas por todo o lado, era uma excitação. Guardávamos as pastilhas nos bolsos das batas, não contávamos a ninguém. Como éramos extremamente limpas, lavávamos as pastilhas antes de as metermos à boca. Algumas dessas pastilhas vinham em forma de bola, outras vinham muito prensadas. Umas eram duras, outras rugosas por trazerem pedrinhas ou areia dentro. Havia pastilhas amarelas, verdes, cor-de-rosa, brancas, azúis. Mascávamos as pastilhas pacientemente. Trocávamos sorrisos misteriosos enquanto o fazíamos, não dizíamos nada. Depois, quando a massa ficava mole, engolíamos as pastilhas recuperadas. Tínhamos quatro ou cinco anos, não mais. Nessa altura já sabíamos que aquelas pastilhas elásticas vinham de outras bocas, mas isso não nos chocava. Lembro-me tantas vezes disto. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não sei o que é feito da Diana.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-1296030583024564300?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/1296030583024564300/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=1296030583024564300' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/1296030583024564300'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/1296030583024564300'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2010/10/pastilhas-elasticas.html' title='Pastilhas elásticas'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-1448909213237619710</id><published>2010-10-12T17:29:00.014+02:00</published><updated>2010-10-12T18:32:52.793+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Dos livros'/><title type='text'>Comer, orar, amar</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Vejamos: Não ando propriamente a correr atrás de bestsellers, mas não tenho nada contra eles. Li &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/O_C%C3%B3digo_Da_Vinci"&gt;O Código Da Vinci&lt;/a&gt; com enorme interesse e gostei muito d'&lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Sombra_do_Vento"&gt;A Sombra do Vento&lt;/a&gt;. Ando a ler &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/The_Girl_with_the_Dragon_Tattoo"&gt;The Girl with the Dragon Tattoo&lt;/a&gt; e no ano passado cheguei ao cúmulo de ler os dois primeiros livros vampirescos da &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Stephenie_Meyer"&gt;Stephanie Meyer&lt;/a&gt;, portanto é como digo: Não tenho nada contra bestsellers.&lt;br /&gt;Confesso, no entanto, que livros com tipos de letra frufru e subtítulos do género "A divertida aventura de uma mulher à descoberta de si mesma" provocam em mim uma alergia gravíssima. É de uma rareza estapafúrdia, bem sei, mas quando vejo um livro assim fico logo cheia de borbulhas e incha-se-me a garganta de tal maneira que nem consigo respirar.&lt;br /&gt;Até há coisa de meia hora, o livro &lt;a href="http://www.fnac.pt/Comer-Orar-Amar-Elizabeth-Gilbert/a156872?PID=17334&amp;amp;bl=HGLIpdg1"&gt;Comer, orar, amar&lt;/a&gt; inscrevia-se nesse género de livros perigosos e a evitar. A história de uma mulher que se casa aos 25 anos, se divorcia uns anos mais tarde, manda tudo às urtigas e vai viajar pelo mundo durante um ano só não me dá sono por causa da comichão que provoca em mim e eu não consigo parar de me coçar quando tenho comichão. Isto vindo de alguém que se casou aos 25 anos e só ainda não se divorciou porque ainda não ingressou, claramente, numa divertida aventura à procura de si mesma.&lt;br /&gt;Ando pelos cabelos com a mulher moderna e com a sua revelia histérica de emancipação depois da emancipação. A mulher moderna não serve para nada: não quer casamento nem estabilidade nem filhos, anda por aí à procura de si mesma, comendo, orando, amando, não há paciência. A mulher moderna não interessa ao Menino Jesus. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Há coisa de meia hora, o livro &lt;em&gt;Comer, orar, amar&lt;/em&gt; simbolizava para mim todos esses lugares-comuns de mulheres que se descobrem na Índia e fazem ioga para se sentirem íntegras. Mesmo assim, até não me importaria de ver &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=39JinfEVKMc"&gt;o filme&lt;/a&gt; por causa do &lt;a href="http://www.imdb.com/name/nm0000849/"&gt;Javier Bardem&lt;/a&gt; e da &lt;a href="http://www.imdb.com/name/nm0000210/"&gt;Julia Roberts&lt;/a&gt;, mas mais por causa do Javier Bardem do que da Julia Roberts (mais depressa me descobria no Javier Bardem do que na Índia).&lt;br /&gt;Ora, há coisa de meia hora, estava muito bem a ler o jornal, quando me deparei com uma fotografia de &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Elizabeth_Gilbert"&gt;Elizabeth Gilbert&lt;/a&gt;, a autora do livro. Era (achava eu) a primeira vez que pousava os olhos no rosto de Elizabeth Gilbert, porque, por mais que tenha ouvido falar do bestseller e da senhora, nunca tinha tido a curiosidade (pelas razões acima expostas) de ver o rosto de Elizabeth Gilbert. No entanto, assim que os seus olhos aguados entraram pelos meus olhos dentro, reconheci-a imediatamente. Bastou-me uma pesquisa de cinco segundos para reencontrar &lt;a href="http://www.ted.com/talks/elizabeth_gilbert_on_genius.html"&gt;este seu discurso de dezanove minutos sobre criatividade&lt;/a&gt; (legendas disponíveis).&lt;br /&gt;Foi a &lt;a href="http://nocastravels.blogspot.com/"&gt;Nocas&lt;/a&gt; que me enviou este filme no ano passado e eu nunca mais me esqueci deste discurso nem da mulher atrás do discurso: uma mulher que não quer ser mais nada senão uma mulher de quarenta anos com os seus medos, frustrações, ambições e expectativas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quando me apercebi de que esta mulher do discurso e a senhora do livro com tipos de letra frufru e subtítulos do género "A divertida aventura de uma mulher à descoberta de si mesma" eram uma só, disse em alto e bom som: "Alto lá."&lt;br /&gt;Andei na Internet a ler entrevistas a Elizabeth Gilbert e descobri que tenho mais a ver com esta americana loira que escreve sobre mulheres à procura de si mesmas do que com muito boa gente com quem saio à noite.&lt;br /&gt;Decidi imediatamente ler o livro. Não que o vá ler já de seguida, porque também não tenho pressa, mas vou ler, sim. Para descobrir a autora e a mulher que há em Elizabeth Gilbert.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Passou-me a alergia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Acho.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-1448909213237619710?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/1448909213237619710/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=1448909213237619710' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/1448909213237619710'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/1448909213237619710'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2010/10/comer-orar-amar.html' title='Comer, orar, amar'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-1437701561144790437</id><published>2010-10-08T16:42:00.009+02:00</published><updated>2010-10-09T00:17:37.175+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Dos livros'/><title type='text'>Mario Vargas Llosa</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;É a primeira vez que conheço o autor que recebe o Prémio Nobel da Literatura.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Li a &lt;a href="http://ipsilon.publico.pt/livros/texto.aspx?id=266831"&gt;notícia&lt;/a&gt; e fiquei surpreendida por conhecer o nome, os títulos, as personagens. Nunca me tinha acontecido antes. Sinto-me sempre uma ignorante quando leio o nome dos laureados. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;No ano passado, quando vi as trombas da Herta Müller, assustei-me. Nunca tinha visto tal ave rara: lábios demasiado rubros, um cabelo que acabava logo depois das orelhas, uns olhos de bruxa má, uma miscelânea esquisita, entre o romeno e o alemão. Tive medo de Herta Müller. Mesmo assim, fui a correr à Fnac comprar o &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Everything_I_Possess_I_Carry_With_Me"&gt;Atemschaukel&lt;/a&gt; para fingir que leio em alemão e também porque senti uma obrigação de ler o raio do livro, uma vez que estudei literatura alemã e vivi na Alemanha dois anos. Depois de ler o livro, continuei cheia de medo de Herta Müller e não me parece que vá ler mais livros desta senhora. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Em 1998, quando José Saramago recebeu os milhares de coroas suecas, só lhe conheci o nome por partilharmos a nacionalidade e não propriamente por ter lido A Jangada de Pedra ou a História do Cerco de Lisboa. Era então uma adolescente e interessavam-me títulos mais provincianos como Vai aonde te leva o Coração e Como Água para Chocolate. Antes disso, então, nem sequer era gente quando foi a vez de Gabriel García Márquez e li O Estrangeiro uns sessenta anos depois de o Albert Camus o ter escrito.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Descobri &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Mario_Vargas_Llosa"&gt;Mario Vargas Llosa&lt;/a&gt; quase sem querer. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;No final de 2009, eu e &lt;a href="http://belgavista.blogspot.com/2008/06/o-homem-ilimitado.html"&gt;o homem ilimitado&lt;/a&gt; decidimos ir ao Peru, mas acabámos por não ir ao Peru porque em Janeiro deste ano encerraram o Machu Picchu por causa das cheias. Na altura disse um palavrão, vários palavrões e, para me vingar da Natureza Mãe, decidi ir na mesma ao Peru, mas através da literatura. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Escolhi Mario Vargas Llosa, porque, a bem dizer, não conhecia outro autor peruano e até me dava jeito ler Mario Vargas Llosa, dado que a mãe tinha oferecido ao homem ilimitado &lt;a href="http://www.portaldeliteratura.com/livros.php?livro=4696"&gt;A Conversa n'a Catedral&lt;/a&gt; e a Tia Carmito me tinha emprestado as &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Travessuras_da_Menina_M%C3%A1"&gt;Travessuras da Menina Má&lt;/a&gt;. Li os dois livros de enfiada e logo a seguir comprei A Casa Verde. Ainda não li A Casa Verde, mas vou ler.&lt;br /&gt;De maneira que, quando li o nome Mario Vargas Llosa, reconheci um bocadinho do homem, do autor, da sua obra. Fiquei contente por Mario Vargas Llosa ter recebido o Nobel. Gosto dele, das suas personangens, da sua escrita desenvolta. Gosto, especialmente, da sua pinta de mulherengo latino-americano, da sua rebeldia contra os outros e contra si próprio. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Confesso que simpatizo com Mario Vargas Llosa também pelo facto de ele ter dado &lt;a href="http://www.timesonline.co.uk/tol/news/world/us_and_americas/article1505968.ece"&gt;uma pêra valente no Gabriel García Márquez&lt;/a&gt;. Não é qualquer um que dá uma pêra valente no Gabriel García Márquez. É preciso ter sangue na guelra para dar uma pêra no Gabriel García Márquez. Gosto de homens com sangue na guelra. Principalmente se, além de mulherengos, forem escritores. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-1437701561144790437?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/1437701561144790437/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=1437701561144790437' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/1437701561144790437'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/1437701561144790437'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2010/10/mario-vargas-llosa.html' title='Mario Vargas Llosa'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-2003091320610975175</id><published>2010-10-07T17:44:00.005+02:00</published><updated>2010-10-09T00:17:53.230+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Dos livros'/><title type='text'>Tipo da unidade de tradução inglesa</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Há aqui um tipo na unidade de tradução inglesa que é parecido com o valter hugo mãe. Não, não é parecido com o valter hugo mãe, mas tem o mesmo ar direitinho, uma calvície precoce como o Outono em Bruxelas, uns óculos de massa em cima de sobrancelhas espessas, que são duas centopeias à espera de larvas, uma testa enorme, de alguém que pensa sobre o sentido da vida e lê livros complicadíssimos. Nunca falei com o tipo da unidade de tradução inglesa, mas encontro-o muitas vezes nos corredores e na cafetaria. Nunca lhe digo bom dia nem boa tarde, não sei bem porquê. O tipo da unidade de tradução inglesa não é propriamente simpático, também não diz bom dia nem boa tarde. Ri-se pouco. Ora, hoje encontrei o tipo da unidade de tradução inglesa no elevador. Vinha com um cachecol pendurado no braço e com uns auscultadores nos ouvidos. Nenhum de nós disse nada durante a viagem. No entanto, tive vontade de dizer qualquer coisa, de fazer uma pergunta. Gostaria de saber, por exemplo, que música ouve o tipo da unidade de tradução inglesa. De que quadros gosta. Que livros lê. Gostaria também de dizer ao tipo da unidade de tradução inglesa que li &lt;a href="http://www.objectiva.pt/downloads/media/LivroDocs/objectiva-valter-hugo-mae_a_maquina_de_fazer_espanhois-1ocapitulo.pdf"&gt;a máquina de fazer espanhóis&lt;/a&gt; em três tempos e que eu não costumo ler livros em três tempos, que sou uma leitora muito vagarosa. Gostaria de dizer ao tipo da unidade de tradução inglesa que o valter hugo mãe não é um homem velho mas que podia muito bem ser um homem velho. Por causa da calvície precoce. E da sua escrita de gente velha. Como é possível um homem novo ser um homem tão velho? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Agrada-me a ideia de que há alguém parecido com o valter hugo mãe no meu local de trabalho. Gosto imenso de trabalhar num edifício, onde vejo de vez em quando uma pessoa parecida com o valter hugo mãe. O dia parece-me logo outro. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;De resto, estou-me verdadeiramente nas tintas para o tipo da unidade de tradução inglesa.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-2003091320610975175?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/2003091320610975175/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=2003091320610975175' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/2003091320610975175'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/2003091320610975175'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2010/10/tipo-da-unidade-de-traducao-inglesa.html' title='Tipo da unidade de tradução inglesa'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-3839366462386732250</id><published>2010-10-06T16:32:00.001+02:00</published><updated>2010-10-06T16:47:44.509+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Exercícios de escrita criativa'/><title type='text'>As coisas crescem sem fazer barulho.</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Deitou-se agora mesmo no sofá. Desdobrou a mantinha preta que estava muito bem dobrada no outro lado do sofá. E cobre-se. Não conseguimos ver a sala inteira daqui, só um pedaço de sala. Primeiro a janela. Depois as plantas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Dois caules de orquídeas sem orquídeas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Vasos de várias cores. Molduras ao contrário. Não sabemos o que mostram. Uma escrivaninha do lado esquerdo da sala, um ecrã de computador que parece outra janela por ser tão grande. O sofá à direita. A rapariga está deitada, mas não dorme. Uma mesinha quadrada e branca, talvez do IKEA, provavelmente do IKEA. Envelopes, revistas, cartas, postais, comandos, jornais, canetas, tantas coisas em cima da mesinha quadrada e branca. A rapariga tem um livro na mão, não tínhamos dado por isso. Está a ler. Estica neste preciso momento os braços para cima, não parece estar uma posição confortável. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O livro pesa sobre ela como uma rocha. É um livro robusto. A rapariga está a meio do livro. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Atrás do sofá, uma mesa de jantar sem centro de mesa, quatro cadeiras arrumadíssimas, um candeeiro por cima, quadros coloridos nas paredes. Um desenho abstracto com formas geométricas, uma menina com os pés muitos juntos e as mãos muito juntas, outros quadros imperceptíveis. É o que vemos através da janela. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A trepadeira do parapeito está cada vez maior. Há poucas semanas tinha só uma perninha, agora já tem várias. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;As coisas crescem sem fazer barulho. É o que se pode concluir. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Estamos neste silêncio e as plantas crescem, o dia cresce, a rapariga cresce e o livro é cada vez mais pesado, cada vez maior. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Dois caules de orquídeas sem orquídeas. Há tanto tempo sem orquídeas. Um projecto de orquídeas dentro do vaso à janela. E, no entanto, este silêncio. Talvez um relógio de parede a contar os segundos, talvez o computador cogitando, mas nada mais. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tantas cores na sala. Cortinas amarelas. Almofadas com flores, almofadas com riscas, um tapete vermelho. Porquê uma manta preta? Por que se cobre a rapariga com uma manta preta? Uma rapariga sempre tão calada, crescendo em silêncio, cada vez maior. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O livro enorme, cada vez pesado, igual a uma rocha.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-3839366462386732250?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/3839366462386732250/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=3839366462386732250' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/3839366462386732250'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/3839366462386732250'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2010/10/as-coisas-crescem-sem-fazer-barulho.html' title='As coisas crescem sem fazer barulho.'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-8153223054881381683</id><published>2010-08-09T17:55:00.011+02:00</published><updated>2010-10-06T16:49:27.114+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Das pessoas de verdade'/><title type='text'>Victor</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Para a Tanya, o Vladi e o Victor.&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ainda não conhecemos o Victor, mas imaginamo-lo moreno e brando como certas tardes de Outono, os dentes alinhados num sorriso bom. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ainda não conhecemos o Victor, porque o Victor ainda não nasceu. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O Victor vai nascer daqui a pouco, hoje mesmo, pelas 18 horas, mais coisa menos coisa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;(No final do texto, é provável que já tenha nascido.) &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ninguém conhece o rosto do Victor, nem mesmo os pais, porque o Victor esteve sempre escondido no ventre da mãe, a olhar para as suas mãos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Gostaríamos que o Victor tivesse nascido ontem, não por ter sido domingo, mas por ter sido o nosso dia de anos. Seria uma coincidência feliz e teríamos algo em comum com o Victor. No entanto, o Victor não quis nascer no domingo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O Victor não mostra o rosto a ninguém. O Victor não deu a cambalhota quando devia. Quando a mãe come doces, o Victor dá pontapés. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O Victor quis nascer na segunda-feira, embora não possamos dizer com toda a certeza que o Victor tenha nascido na segunda-feira, porque o Victor ainda não nasceu. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A mãe do Victor, que é morena e branda como certas tardes de Outono, não gostava de chocolate antes de o Victor existir. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O Victor mudou o mundo antes mesmo de nascer. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Imaginamo-lo moreno e brando como certas tardes de Outono, os dentes alinhados num sorriso bom, as mãos nos bolsos, encostado ao muro da escola a fazer promessas de amor em búlgaro, uma língua de sons secretos, de alfabeto secreto, inatingível. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O Victor ainda não nasceu, mas já existe há muito tempo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Simpatizamos com o Victor. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Porque gosta de chocolate. Porque não deu a cambalhota quando devia. Porque mudou o mundo antes de nascer. Porque decidiu nascer no dia 9 do 8 do 10. O Victor deve ter jeito para números.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O Victor tem uma personalidade forte. Gostamos de pessoas assim.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-8153223054881381683?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/8153223054881381683/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=8153223054881381683' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/8153223054881381683'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/8153223054881381683'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2010/08/viktor.html' title='Victor'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-1274100538377405900</id><published>2010-08-04T18:30:00.009+02:00</published><updated>2010-08-04T18:53:21.753+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Funções alternativas para objectos que cumprem uma só função'/><title type='text'>Funções alternativas para objectos que cumprem uma só função: A borracha Pelikan</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Para se distrair, o senhor Barata pensava em funções alternativas para objectos que cumprissem uma só função. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Hoje, por exemplo, escolheu para objecto da sua reflexão a borracha Pelikan que estava mesmo à sua esquerda, em cima da escrivaninha. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A borracha Pelikan cumpria a única função de apagar traços de lápis. (Algumas borrachas também apagavam traços de caneta, mas este não era o caso daquela borracha Pelikan.) Para se distrair, o senhor Barata pegou no paralelepípedo branco e magicou funções alternativas para ele.&lt;br /&gt;A primeira função alternativa que o senhor Barata arranjou para a sua borracha Pelikan foi a de &lt;em&gt;amuleto&lt;/em&gt;. Com efeito, era muito melhor apertar uma borracha na mão do que amuletos de madeira ou de porcelana ou de osso, porque a borracha Pelikan tinha uma consistência elástica que era agradável ao toque. O senhor Barata olhou para o seu paralelepípedo branco e acreditou, de imediato, que ele o protegeria do mal e o ajudaria nos momentos decisivos. O facto de a função real da borracha Pelikan ser apagar traços conferia a este amuleto de látex uma conotação figurativa que os outros amuletos não tinham.&lt;br /&gt;A segunda função alternativa que o senhor Barata arranjou para a sua borracha Pelikan foi a de &lt;em&gt;pedra&lt;/em&gt;. Era, efectivamente, muito mais amigável atirar uma borracha a um colega do que uma pedra, além de que a probabilidade de o colega sair lesado era mínima. Se as pessoas fossem apedrejadas na praça pública com borrachas e não com pedras, aprenderiam, certamente, a lição e não teriam de morrer. O senhor Barata decidiu que, se alguma vez precisasse de atirar uma pedra, atiraria a sua borracha Pelikan.&lt;br /&gt;A terceira função alternativa que o senhor Barata arranjou para a sua borracha Pelikan foi a de &lt;em&gt;vítima de maus-tratos&lt;/em&gt;. Era muito mais sensato descarregar as energias negativas na borracha Pelikan do que nos estagiários ou na mulher. Além disso, o senhor Barata podia maltratar a borracha Pelikan de maneiras extremamente mórbidas, a que jamais poderia recorrer quando maltratava os estagiários ou a mulher, com o acréscimo de que essas práticas não eram puníveis. A borracha Pelikan podia ser, por exemplo, esventrada com a ponta de um clipe ou esquartejada com o x-acto ou simplesmente dilacerada com os dentes.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O senhor Barata riu-se. Tinha agora mais confiança na humanidade em geral e na sua vida em particular. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Graças à borracha Pelikan. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-1274100538377405900?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/1274100538377405900/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=1274100538377405900' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/1274100538377405900'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/1274100538377405900'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2010/08/funcoes-alternativas-para-objectos-que.html' title='Funções alternativas para objectos que cumprem uma só função: A borracha Pelikan'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-660094383216633903</id><published>2010-08-03T18:50:00.006+02:00</published><updated>2010-08-03T19:16:51.765+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias de mim'/><title type='text'>A vingança da mulher na casa dos vinte</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Uma mulher na casa dos vinte chegou à conclusão de que o mundo se virou contra ela pelo simples facto de as nuvens, que ainda há pouco eram impossivelmente brancas como nos quadros de Magritte, serem agora cinzentas como os velhos. O facto de as nuvens serem agora cinzentas como os velhos estragava o dia à mulher na casa dos vinte. E isto por diversas razões:&lt;br /&gt;Primeira razão: a mulher na casa dos vinte estava de bicicleta.&lt;br /&gt;Segunda razão: a mulher na casa dos vinte estava a caminho de uma sessão de ginástica ao ar livre.&lt;br /&gt;Terceira razão: a mulher na casa dos vinte não tinha trazido um casaco.&lt;br /&gt;Ora, na cabeça da mulher na casa dos vinte, a qual trazia um capacete redondo como o mundo injusto, o mundo só podia ter-se virado contra ela. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Na cabeça das mulheres na casa dos vinte, o mundo é, tal como elas, uma mulher na casa dos vinte e vira-se, tal como elas, contra as outras mulheres. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;(As mulheres na casa dos vinte passam o tempo a ver o seu reflexo nas coisas e nos outros: o mundo inteiro é uma reprodução do seu corpo e da sua cabeça redonda como o mundo injusto.)&lt;br /&gt;A mulher na casa dos vinte decidiu que, para se vingar do mundo injusto e redondo como o seu capacete, ia sentar-se em frente à televisão e ver, de seguida, todos os episódios da quarta temporada das &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Desperate_Housewives"&gt;Donas de Casa Desesperadas&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;(As Donas de Casa Desesperadas são uma série interessantíssima, precisamente porque as protagonistas são mulheres na casa dos quarenta e não mulheres na casa dos vinte.)&lt;br /&gt;A mulher na casa dos vinte pensava em tudo isto (no mundo que se virou contra ela, nas nuvens cinzentas como os velhos, nas Donas de Casa Desesperadas, nas mulheres na casa dos quarenta, no seu casaco e na sessão de ginástica ao ar livre) enquanto pedalava a caminho da sua televisão, a cabeça enfiada dentro do capacete redondo como o mundo injusto.&lt;br /&gt;De repente, sentia-se francamente mais animada. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não com a perspectiva de ver, ainda hoje, todos os episódios da quarta temporada das Donas de Casa Desesperadas. Mas com a perspectiva de se tornar uma pessoa mais interessante com a idade. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;As mulheres na casa dos vinte são impossíveis como os quadros de Magritte. E ainda mais enfadonhas do que as nuvens desta cidade, as quais são cinzentas (como os velhos) e injustas (como o mundo).&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-660094383216633903?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/660094383216633903/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=660094383216633903' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/660094383216633903'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/660094383216633903'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2010/08/vinganca-da-mulher-na-casa-dos-vinte.html' title='A vingança da mulher na casa dos vinte'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-8740923184191890530</id><published>2010-08-02T15:07:00.004+02:00</published><updated>2010-08-02T18:52:55.873+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos linguísticos'/><title type='text'>Da Sinonímia</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A Sinonímia era uma menina alegre, o que não quer dizer que fosse feliz ou afortunada. Na verdade, tivera uma infância triste, e não propriamente uma infância dura ou fúnebre. A Sinonímia sorria muito porque era nervosa, o que não quer dizer que fosse agitada ou enérgica. Por causa disso ou apesar disso, a Sinonímia comia muito, o que não queria dizer que dilacerasse a comida ou desfrutasse dela. A Sinonímia era feia, o que não quer dizer que fosse repugnante, era só feia. Usava um par de óculos monumental e não sumptuoso ou magnífico. A Sinonímia não era boa aluna, o que não quer dizer que fosse má. Era uma menina muito preguiçosa, o que não significa que fosse lenta ou frouxa, pelo contrário: era veloz e activa. A Sinonímia aprendeu a tocar piano, o que não quer dizer que compreendesse alguma coisa de música. A Sinonímia não fazia propriamente amigos, o que não quer dizer que a Sinonímia não fosse uma pessoa amigável. No entanto, era uma pessoa apoucada, o que não significa que fosse estúpida. Falava muito, o que não quer dizer que conversasse. Tendia a ser uma pessoa compreensiva, o que não quer dizer que fosse inteligente. A Sinonímia era, como todas as outras pessoas, única. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O que não quer dizer que fosse excepcional ou incomparável. Pelo contrário.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-8740923184191890530?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/8740923184191890530/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=8740923184191890530' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/8740923184191890530'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/8740923184191890530'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2010/08/da-sinonimia.html' title='Da Sinonímia'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-210150206965944061</id><published>2010-07-30T15:08:00.003+02:00</published><updated>2010-10-09T00:18:16.261+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Diálogos'/><title type='text'>Olha, este blogue morreu. - Parte II</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;a href="http://belgavista.blogspot.com/2010/07/olha-este-blogue-morreu.html"&gt;(Ler Parte I)&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leitor 2 – Mas as pessoas podiam deixar de cá vir e pronto.&lt;br /&gt;Leitor 1 – Pois podiam.&lt;br /&gt;Leitor 2 – Aliás, nem percebo como é que continuam a vir, se não se passa nada aqui.&lt;br /&gt;Leitor 1 – Pois, mas já sabes como são os leitores... Afeiçoam-se!&lt;br /&gt;Leitor 2 – Ao blogue?&lt;br /&gt;Leitor 1 – Não, ao sapo.&lt;br /&gt;Leitor 2 – Os leitores afeiçoaram-se ao sapo?&lt;br /&gt;Leitor 1 – Claro. Só ele é que mantém este blogue a mexer.&lt;br /&gt;Leitor 2 – Bem, nesse caso, o sapo deve estar todo contente.&lt;br /&gt;Leitor 1 – Pois deve. Toda a gente o mima.&lt;br /&gt;Leitor 2 – Está mais gordo que eu sei lá.&lt;br /&gt;Leitor 1 – Pois está.&lt;br /&gt;Leitor 2 – A morte de uns é a fartura de outros.&lt;br /&gt;Leitor 1 – Credo! Isso é algum ditado?&lt;br /&gt;Leitor 2 – Não, acho que não.&lt;br /&gt;Leitor 1 – Achas que o sapo está contente com a morte do blogue?&lt;br /&gt;Leitor 2 – Então, não se vê logo?!&lt;br /&gt;Leitor 1 – Opá! Tu queres ver que foi o sapo que matou o blogue?&lt;br /&gt;Leitor 2 – Olha, se calhar foi.&lt;br /&gt;Leitor 1 – Achas?!&lt;br /&gt;Leitor 2 – Acho. Os sapos são do piorio.&lt;br /&gt;Leitor 1 – Mas este sapo é um príncipe!&lt;br /&gt;Leitor 2 – É?&lt;br /&gt;Leitor 1 – É. Está lá escrito. É um príncipe encantado.&lt;br /&gt;Leitor 2 – Então ainda pior. Os monarcas são completamente doidos.&lt;br /&gt;Leitor 1 – Mas que motivo teria o príncipe encantado para matar o blogue?&lt;br /&gt;Leitor 2 – Não sei. Se calhar queria a atenção dos leitores.&lt;br /&gt;Leitor 1 – Ou se calhar estava deprimido.&lt;br /&gt;Leitor 2 – Se calhar.&lt;br /&gt;Leitor 1 – Ou então com fome.&lt;br /&gt;Leitor 2 – Pois. Queres ver que o sapo comeu o blogue?&lt;br /&gt;Leitor 1 – Olha, é bem possível.&lt;br /&gt;Leitor 2 – Pois é...&lt;br /&gt;Leitor 1 – ...&lt;br /&gt;Leitor 2 – Cabrão do sapo.&lt;br /&gt;Leitor 1 – Podes crer.&lt;br /&gt;Leitor 2 – Então, e agora?&lt;br /&gt;Leitor 1 – Agora o quê?&lt;br /&gt;Leitor 2 – Temos de fazer alguma coisa!&lt;br /&gt;Leitor 1 – Pois temos.&lt;br /&gt;Leitor 2 – Mas o quê?&lt;br /&gt;Leitor 1 – Olha, eu vou continuar a dar de comida ao sapo.&lt;br /&gt;Leitor 2 – O quê?! Mas o sapo comeu o blogue.&lt;br /&gt;Leitor 1 – Pois comeu. Estava com fome, coitadinho! Temos de alimentar o sapo.&lt;br /&gt;Leitor 2 – Não! Nós devíamos era matar o sapo!&lt;br /&gt;Leitor 1 – Matar o sapo?! Porquê?!&lt;br /&gt;Leitor 2 – Porque comeu o blogue.&lt;br /&gt;Leitor 1 – Bolas, também não é preciso matar o sapo por causa disso.&lt;br /&gt;Leitor 2 – Achas que não?&lt;br /&gt;Leitor 1 – Claro que não! Coitadinho do sapo.&lt;br /&gt;Leitor 2 – Então, e não tens pena do blogue?&lt;br /&gt;Leitor 1 – Eu não! Que raio de blogue se deixa comer por um sapo?!&lt;br /&gt;Leitor 2 – Sim, tens razão.&lt;br /&gt;Leitor 1 – Era, no mínimo, um blogue fraquinho.&lt;br /&gt;Leitor 2 – Pois era.&lt;br /&gt;Leitor 1 – E, além disso, não dava de comer ao sapo.&lt;br /&gt;Leitor 2 – Pois não.&lt;br /&gt;Leitor 1 – ...&lt;br /&gt;Leitor 2 – Cabrão do blogue.&lt;br /&gt;Leitor 1 – Podes crer.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-210150206965944061?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/210150206965944061/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=210150206965944061' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/210150206965944061'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/210150206965944061'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2010/07/olha-este-blogue-morreu-parte-ii.html' title='Olha, este blogue morreu. - Parte II'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-3325562331061755757</id><published>2010-07-29T17:16:00.007+02:00</published><updated>2010-07-30T15:08:28.508+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Diálogos'/><title type='text'>Olha, este blogue morreu. - Parte I</title><content type='html'>Leitor 1 – Olha, este blogue morreu.&lt;br /&gt;Leitor 2 – O quê? Não me digas isso.&lt;br /&gt;Leitor 1 – Ai, digo, digo.&lt;br /&gt;Leitor 2 – A sério? Mas eu não dei por nada.&lt;br /&gt;Leitor 1 – Não deste por nada?!&lt;br /&gt;Leitor 2 - Não, não dei por nada. Achava que ele até estava com boa cara.&lt;br /&gt;Leitor 1 – Como assim, com boa cara?!&lt;br /&gt;Leitor 2 – Opá, com boa cara! Na última vez que o vi continuava com uma corzita saudável e até dizia umas coisinhas.&lt;br /&gt;Leitor 1 – Até dizia umas coisinhas?! Há dois meses e um dia que este blogue não diz absolutamente nada.&lt;br /&gt;Leitor 2 – A sério?! Não reparei…&lt;br /&gt;Leitor 1 – Como é possível ver um blogue e não reparar que o tipo está morto?!&lt;br /&gt;Leitor 2 – Opá, nesse dia estava cheio de pressa. Passei por ele, vi-o assim com os olhos muito abertos e parti do princípio de que estava vivo e de boa saúde. Mas afinal estava morto, coitado.&lt;br /&gt;Leitor 1 - Pois estava.&lt;br /&gt;Leitor 2 - Os peixes, quando morrem, também ficam assim, com os olhos escancarados.&lt;br /&gt;Leitor 1 – E cheiram mal como tudo.&lt;br /&gt;Leitor 2 - Quem? Os peixes?&lt;br /&gt;Leitor 1 - Não, os blogues.&lt;br /&gt;Leitor 2 - A sério? Mas o blogue não me cheirou mal.&lt;br /&gt;Leitor 1 - Se calhar, não te aproximaste muito.&lt;br /&gt;Leitor 2 – Pois não. Por acaso, até reparei que ele estava assim murxito, mas achei que podia estar só deprimido.&lt;br /&gt;Leitor 1 – Pois podia.&lt;br /&gt;Leitor 2 – Então, se calhar até estava.&lt;br /&gt;Leitor 1 – Se calhar.&lt;br /&gt;Leitor 2 – Nesse caso, pode não estar morto.&lt;br /&gt;Leitor 1 - Pois, pode não estar morto. Mas também não está vivo.&lt;br /&gt;Leitor 2 - Mas repara que o sapo aqui em baixo ainda mexe.&lt;br /&gt;Leitor 1 – Mas isso é porque as pessoas lhe dão de comer.&lt;br /&gt;Leitor 2 – A sério?!&lt;br /&gt;Leitor 1 – Claro! Tu não dás de comer ao sapo?!&lt;br /&gt;Leitor 2 – Eu não. Nem sabia que se podia dar de comer ao sapo.&lt;br /&gt;Leitor 1 – Podes, claro. Vais lá com o rato, clicas e depois há assim uns mosquitos a voar que o sapo come.&lt;br /&gt;Leitor 2 – E ele come mesmo?!&lt;br /&gt;Leitor 1 – Come, pois. Lança uma língua super rápida.&lt;br /&gt;Leitor 2 – A sério?!&lt;br /&gt;Leitor 1 – A sério.&lt;br /&gt;Leitor 2 – Que giro! Nunca tinha reparado. Então, os leitores vêm cá dar de comer ao sapo?&lt;br /&gt;Leitor 1 – Vêm, claro. Não se faz mais nada neste blogue há dois meses e um dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(continua)&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-3325562331061755757?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/3325562331061755757/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=3325562331061755757' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/3325562331061755757'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/3325562331061755757'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2010/07/olha-este-blogue-morreu.html' title='Olha, este blogue morreu. - Parte I'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-3874265714008826378</id><published>2010-05-28T16:40:00.004+02:00</published><updated>2010-05-28T23:35:40.099+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Exercícios de escrita criativa'/><title type='text'>A rua segundo o cão do vizinho polaco</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Não sei como é nas outras ruas, mas na minha rua vivem mais pessoas do que cães. Ando mais na minha rua do que nas outras. Quando fico pela minha rua, não tenho de usar trela. Quando ando noutras ruas, tenho. Gosto mais de andar sem trela, por isso gosto mais de ficar na minha rua do que andar nas outras ruas. Gosto mais de cães do que de pessoas, por isso tenho pena que haja mais pessoas do que cães na minha rua. Vou à rua três vezes por dia. Gosto muito de ir à rua. Outros cães vão à rua mais vezes por dia, mas a maioria vai à rua duas vezes. Há outros cães que só vão uma vez. Por isso, não me queixo. O meu &lt;a href="http://belgavista.blogspot.com/2008/03/o-vizinho-polaco.html"&gt;dono&lt;/a&gt; vai à rua mais vezes do que eu. Algumas vezes sai com a minha dona de carro, mas normalmente sai sozinho e desce a rua a pé. Não sei para onde vai. Saio três vezes com o meu dono. É raro sair com a minha dona. Só saio com a minha dona, quando o meu dono não está. O meu dono não é daqui, é de outro sítio. A minha dona é daqui. Eu também sou daqui, acho. Os meus donos têm filhos. As pessoas têm mais filhos do que os cães, parece-me. Também têm mais filhos do que cães. O meu dono não me deixa parar na rua para falar com outros cães. Também não me deixa cheirá-los nem lambê-los. No entanto, pára muitas vezes para falar com outras pessoas, mas não as cheira nem as lambe. Não sei porquê. Também não sei por que não me deixa falar com os outros cães. Os meus dias preferidos são as segundas-feiras e as quintas-feiras, porque às segundas-feiras e às quintas-feiras as pessoas põem os sacos do lixo na rua e há muitos cheiros misteriosos no ar. O meu dono deixa-me olhar para os sacos e cheirá-los, mas não me deixa abri-los. Gostava de poder abrir os sacos do lixo e provar todas as coisas misteriosas que vivem dentro deles. Os sacos têm três cores: branco, azul e amarelo. Os sacos brancos guardam mais cheiros do que os sacos amarelos e azuis. Normalmente os sacos amarelos trazem jornais e caixas de cartão. Os sacos azuis trazem muitas embalagens de muitos formatos e feitios. Não percebo a razão de ser destes sacos nem por que motivo os não posso abrir. Os sacos desaparecem às terças-feiras e às sextas-feiras de manhã. Por vezes, eu e o meu dono encontramos o enorme camião do lixo no nosso passeio matinal. Há duas pessoas que vêm agarradas à traseira do camião. São elas que recolhem o lixo. Essas pessoas e o camião fazem muito barulho. Não gosto do camião do lixo nem das pessoas do lixo, tenho medo deles. No geral, também tenho medo dos carros, mas só quando os vejo de fora. Não tenho medo de andar de carro, até gosto de ver as outras ruas através da janela, as outras pessoas, os outros cães. Por vezes também vejo gatos às janelas das casas, mas não na minha rua. Gosto quando o meu dono abre a janela do carro e me deixa morder o ar. Gosto de correr pelas escadas do prédio. O meu dono nunca é tão rápido como eu a subir as escadas nem a descê-las. Gosto de comer. Tenho uma caixa para a comida e outra para a água. Também tenho uma cama e muitos brinquedos. O meu brinquedo preferido é uma bola que faz barulho quando a mordo. Gosto do meu dono e da minha dona. Também gosto da minha rua. Principalmente às segundas-feiras e às quintas-feiras. Sonho muitas vezes com os sacos do lixo.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-3874265714008826378?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/3874265714008826378/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=3874265714008826378' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/3874265714008826378'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/3874265714008826378'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2010/05/rua-segundo-o-cao-do-vizinho-polaco.html' title='A rua segundo o cão do vizinho polaco'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-8492894698325130183</id><published>2010-05-19T16:19:00.016+02:00</published><updated>2010-05-20T14:57:16.635+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Da música'/><title type='text'>Ana Bacalhau</title><content type='html'>&lt;object width="391" height="316.48"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/Qxv9s3PTIzY&amp;amp;hl=en_US&amp;amp;fs=1&amp;amp;color1=0xe1600f&amp;amp;color2=0xfebd01"&gt;&lt;param name="allowFullScreen" value="true"&gt;&lt;param name="allowscriptaccess" value="always"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/Qxv9s3PTIzY&amp;amp;hl=en_US&amp;amp;fs=1&amp;amp;color1=0xe1600f&amp;amp;color2=0xfebd01" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="391" height="316.48"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Simpatizaríamos com a Ana Bacalhau, se ela, por exemplo, não cantasse. Se não tivesse uma voz arremessada e não irrompesse pelas casas e pelos ouvidos, chamando por nós. Se não fosse tão circular nem consolada como as coisas verdadeiramente completas. No fundo e à superfície, simpatizaríamos com a Ana Bacalhau, se ela fosse outra pessoa: por exemplo, uma mulher taciturna como um cemitério ou uma criança com necessidades especiais. Uma coitadinha, por exemplo. Ou então uma mulher voluntariosa que ajudasse os coitadinhos. Mas, agora e objectivamente, vendo e ouvindo a pessoa que Ana Bacalhau aparenta ser, não. Não simpatizamos com a Ana Bacalhau, nem com a sua voz esmerada. Estamos em crer que a voz da Ana Bacalhau é um verdadeiro insulto a todas as vozes de todas as outras mulheres e tememos por elas, por nós e pelos respectivos maridos, pelas respectivas casas. Depois da Ana Bacalhau, nada mais soa como dantes e as vozes que outrora eram belas são agora grasnos, guinchos e uivos. Por esta razão, rogamos muitas pragas à Ana Bacalhau e ao tom pérfido e inteligente da sua voz, atiramos-lhe pedras enraivecidas dentro das nossas cabeças e desejamos secretamente que um dia, ao partir na sua longa viagem para Ítaca ou para a Índia ou para o Brasil, caia borda fora da caravela ou do iate ou do veleiro e se transforme em sereia por efeito de uma estranha e momentânea reacção alérgica a cloreto de sódio e seja acolhida por Neptuno e este a leve para a Ilha dos Amores, onde a mulher-agora-sereia se veja obrigada a prostituir o corpo, a alma, o muco e a voz por muitos anos. Desejamos também que, por inveja do seu canto ardiloso, as outras ninfas a matem durante o sono, que atirem o seu corpo ao mar e que Hades a receba no reino dos mortos, lhe arranque a voz e as tripas e a envie muda e compungida de regresso à vida, qual pequena sereia repetida, mas muito mais ridícula, muito mais feia, muito mais burra. Desejamos também que Zeus apague a memória dos homens e estes se esqueçam daquele canto da Ilha dos Amores que todos amaram nos sonhos mas nunca sonharam escutar, que a Ana Bacalhau viva calada e contristada uma longa vida sem música nem sentimento, cheia de dores nas costas e nos dentes, lavrando a terra e comendo batatas cozidas. Desejamos tudo isto enquanto ouvimos religiosamente os Deolinda. Enquanto as casas saem de si próprias para a rua, alvoroçadas. Todos andam apaixonados pela Ana Bacalhau, pela sua voz imaginada que todos continuarão a amar depois do tempo. Todos, menos nós.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Que caia borda fora e regresse feia e caladinha. Para bem dos homens, das mulheres e das nossas casas.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-8492894698325130183?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/8492894698325130183/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=8492894698325130183' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/8492894698325130183'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/8492894698325130183'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2010/05/ana-bacalhau.html' title='Ana Bacalhau'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-2958127316228787920</id><published>2010-04-30T15:55:00.004+02:00</published><updated>2010-04-30T16:19:53.106+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A Casa'/><title type='text'>A casa (VII)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Nunca tinha estado tanto tempo longe de casa, por isso, quando abriu a porta, surpreendeu-a o odor intenso da noite imposta, o som real e aturado do tempo nas paredes e nos tecidos da sala, como se a ausência fosse um corpo que ocupasse o seu próprio espaço, alimentando-se de si própria, do pó do parapeito, das madeiras mais-que-perfeitas. Correu os cortinados e o corpo do tempo ergueu-se das coisas, prolongou-se exponencial pela casa. Abriu as janelas da sala, as três janelas da sala. O corpo do tempo era feito de pequeníssimas partículas que emitiam luz como estrelas minúsculas. Essas estrelas morriam no primeiro contacto com o chão ou com o tecto ou com as mãos que estendíamos para elas. O corpo do tempo era frágil. Abriu as portas e as janelas dos quartos. Os seus passos eram estranhos à casa, pesavam sobre ela como relógios de cuco. As paredes espreguiçavam-se, contrariadas. Regressava às coisas com as mãos. Aos braços de napa do sofá, ao ferro forjado do porta-revistas, às rugas da tapeçaria, às arestas da casa dos livros, aos armários ocos da cozinha, à imagem reflectida no espelho, ao colo profundo do quarto, às mãos frias do azulejo. Tocava nos objectos com a ponta dos dedos, dedilhando-os, como se deles saíssem música. Nunca tinha estado tanto tempo longe da casa. Tão longe do tempo e de casa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sentou-se na cadeira de baloiço. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E baloiçou-se. Vagarosa. Absorta. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;À espera que a casa voltasse.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-2958127316228787920?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/2958127316228787920/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=2958127316228787920' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/2958127316228787920'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/2958127316228787920'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2010/04/casa-vii.html' title='A casa (VII)'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-6952102614027967909</id><published>2010-03-19T16:14:00.004+01:00</published><updated>2010-03-25T21:01:25.833+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Das pessoas de verdade'/><title type='text'>As cartas do pai parecem pautas de música</title><content type='html'>&lt;p align="right"&gt;&lt;em&gt;Para o melhor pai de todos.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;O meu pai escreve-me cartas. São feitas de papel de verdade e vêm impecavelmente dobradas ao meio, como mapas de tesouros. As cartas do pai vêm dentro de envelopes de verdade que exibem selos de verdade e chegam às minhas mãos a meio da semana, misturadas com recortes de jornal. Rasgamos o envelope com os dedos ou então com os dentes ou então com uma tesoura ou com a ponta de uma caneta. Rasgamos o envelope de qualquer maneira. Lemos as cartas do pai antes de vermos as capas das revistas ou dos jornais que nos envia. Lemos as cartas do pai antes de tudo o resto. As cartas do pai demoram quatro páginas, as quais demoram todo o tempo do mundo. Cada página demora muitas letras. Cada letra é longa como uma semibreve. As cartas do pai parecem pautas de música, porque as letras são altas e delgadas como claves de sol e caminham ordeiras pelas páginas alvacentas. As cartas do pai parecem pautas de música, também porque têm o ritmo e o som de canções conhecidas. Contam-nos a história das horas e das pessoas, dos centros comerciais, da cidade de Lisboa, do fim-de-semana passado, do próximo fim-de-semana, das actividades da Dona Lina e da Dona Amélia, das peripécias do Dom Rodrigo, dos horários do filho que entretanto se fez pai. A letra do pai é atilada e traz adornos suaves nas pontas e nos acentos. Com as cartas do pai chegam outras histórias: recortes do Expresso, da Visão, da Revista Única, do Público, que são receitas de cozinha, entrevistas, &lt;em&gt;faits divers&lt;/em&gt; de Hollywood, crónicas da Clara Ferreira Alves, reportagens sobre lugares desconhecidos no mundo. Não sabemos quanto tempo o pai se demora na escrita e nos seus recortes, quanto tempo se demora nos correios. Também não sabemos quanto tempo nos demoramos na leitura. Provavelmente todo o tempo do mundo, que é quanto demoram as quatro páginas. As cartas do pai viverão certamente mais tempo do que nós e, por isso, escondemo-las numa caixa que escondemos, por sua vez, na casinha dos livros. Faríamos o mesmo a outros mapas de tesouros. Nem sempre leio todos os artigos que o pai me envia, porque me falta o tempo ou o espaço ou outra dimensão qualquer. Também não respondo às cartas do pai. Provavelmente pelas mesmas razões. O pai escreve na mesma. Gostaria de ser melhor filha para merecer o melhor pai de todos, cujas cartas parecem pautas de músicas.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-6952102614027967909?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/6952102614027967909/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=6952102614027967909' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/6952102614027967909'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/6952102614027967909'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2010/03/as-cartas-do-pai-parecem-pautas-de.html' title='As cartas do pai parecem pautas de música'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-3911496615431595820</id><published>2010-03-16T12:05:00.006+01:00</published><updated>2010-03-16T13:47:40.249+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos infantis para adultos'/><title type='text'>Conto infantil para adultos: Aladino e a lâmpada mágica</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O senhor Aladino tinha sete ofícios. O seu primeiro ofício era ser marido. O segundo ofício era ser pai de três filhos. O terceiro ofício era dar aulas de história numa escola secundária. O quarto ofício era realizar projectos de reabilitação do património com o grupo de arqueologia da junta de freguesia. O quinto ofício era tocar cavaquinho no rancho folclórico. O sexto ofício era ser chefe de um clube do ambiente. O sétimo ofício era jogar Sudoku. No entanto, o senhor Aladino andava enfastiado, porque não tinha tempo para mais nada se não para os seus sete ofícios, que preenchiam a forma e o conteúdo dos dias, mas não a forma e o conteúdo da alma. O senhor Aladino tinha outros desejos. Por exemplo, atravessar o mundo num barco à vela e aprender a dançar o tango. Ora, certo dia, enquanto andava a exercer o seu quarto ofício no Castelo de Alcoutim, o senhor Aladino deu com uma candeia indiana muito misteriosa, porque tinha um corpo ligeiramente achatado e um pescoço muito comprido. Interessou-se, antes de mais, pela luz cintilante que o bronze espelhava, por isso acariciou a lâmpada, a qual se acendeu subitamente, pois tornou-se muito quente e da sua boca emergia agora uma nuvem opaca que foi ganhando a forma de homem. Esse homem era azul, mas em nada se assemelhava aos indígenas daquele filme chamado Avatar, porque não tinha um corpo atilado nem um rosto felino. Era obeso e azul. Esse homem tratou-o por mestre e apresentou-se como génio. Informou, de seguida, que o seu ofício era conceder três desejos a quem o libertasse e ficou à espera desses desejos. O senhor Aladino estava deveras confuso, pois não percebia qual a relação hierárquica entre um mestre e um génio. Queria perguntar ao génio quem mandava em quem, mas teve receio de que a sua pergunta fosse encarada como um dos três desejos, por isso ignorou a sua dúvida e dedicou-se aos seus pedidos. Em primeiro lugar, pediu saúde para toda a família, incluindo para si próprio. Em segundo lugar, pediu dinheiro para toda a família, incluindo para si próprio. E por último, em terceiro lugar, pediu sete vidas para si próprio, para poder dedicar cada uma delas a cada um dos seus sete ofícios e ter, assim, tempo para outras coisas que não os seus sete ofícios. Numa vida seria apenas professor de história e teria aulas de tango nos tempos livres. Noutra vida seria apenas chefe do clube do ambiente e viajaria pelo mundo no resto do tempo. Noutra vida passaria muito tempo a jogar Sudoku, mas também a ler romances e a ver televisão. O senhor Aladino nunca tinha tempo para ver televisão. O génio estalou os dedos e os três desejos realizaram-se. O senhor Aladino estava, de repente, em casa a pôr a loiça na máquina, porque, na sua primeira vida, o seu ofício era, tão somente, ser marido. Não tinha profissão nem filhos, por isso passava muito tempo na cozinha a arrumar a loiça ou a fazer o jantar para a mulher ou simplesmente a comer. Tinha saúde e dinheiro, tal como pedira ao génio. Andava de bicicleta pela vila e era afável com os vizinhos. No início, o senhor Aladino estava extremamente satisfeito com a sua vida de um só ofício, mas depois de muito dormir e descansar, não sabia o que fazer com o tempo que lhe sobrava. Começou então a comprar o jornal diariamente e passava horas no café a ler as notícias. Era formidável saber o que se passava no mundo. Mais tarde começou a apanhar o gosto pelo Sudoku que aparecia na última folha e especializou-se na resolução dessas tabelas. Mesmo assim, o senhor Aladino não tardou a aperceber-se de que não se sentia preenchido. Estava novamente enfastiado e decidiu arranjar uma nova actividade. Era chegada a hora de mudar de vida, pois tinha desejos que ainda gostaria de concretizar. Como ter filhos e aprender a tocar cavaquinho.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-3911496615431595820?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/3911496615431595820/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=3911496615431595820' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/3911496615431595820'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/3911496615431595820'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2010/03/conto-infantil-para-adultos-aladino-e.html' title='Conto infantil para adultos: Aladino e a lâmpada mágica'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-246955089183075373</id><published>2010-02-24T18:24:00.013+01:00</published><updated>2010-02-24T18:52:14.962+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A casinha dos livros'/><title type='text'>A casinha dos livros - Parte II</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Entrou na casinha dos livros e esvaziou-a devagar. Tirava os livros um a um e não dois a dois nem três a três. O primeiro livro chamava-se &lt;em&gt;As Naus&lt;/em&gt;. O segundo chamava-se &lt;em&gt;Explicação dos Pássaros&lt;/em&gt;. O terceiro &lt;em&gt;Memória de Elefante&lt;/em&gt;. Os livros de António Lobo Antunes estavam mais perto das mãos do que os outros. Não saberia explicar porquê, mas assim era. Talvez por isso tenham merecido mais atenção do que os outros. Tinha um pano na mão e com ele limpava o rosto dos livros, a lombada, as costas. Abria-os depois com imenso cuidado, como se neles morasse alguma folha seca ou uma pérola ou algum outro segredo. Lia a primeira frase ou a última frase ou outra frase qualquer. Contemplou demoradamente o rosto de António Lobo Antunes, um rosto antiquíssimo, diferente do actual, o cabelo ainda inteiro, um sorriso de pessoa feliz ou imbecil ou conformada e não o sorriso de um escritor presciente que tem um coração negro onde guarda um arado para revolver a alma. O António Lobo Antunes tinha sido um homem bonito. Lera algures que o António Lobo Antunes já não gostava de nenhuma das suas primeiras obras e isto encheu-a de sentimentos estranhos, quiçá, contraditórios, incompatíveis. Certamente, sentimentos incómodos, insólitos, intoleráveis e, por essa razão, esvaziou o quarto de António Lobo Antunes com menos amor do que antes. Atirou para o chão o &lt;em&gt;Conhecimento do Inferno&lt;/em&gt; e até a primeira edição autografada do &lt;em&gt;Auto dos Danados&lt;/em&gt;, que era, aliás, o único livro autografado que possuía, por não ter paciência nem entusiasmo para o coleccionismo. Era evidente que António Lobo Antunes se tinha transformado num homem feio. No entanto, escrevia cada vez melhor. Questionou-se sobre esta relação entre a beleza do corpo e a beleza da escrita. Não saberia dizer ao certo se a escrita roubava a beleza ao corpo, mas era provável que sim. Vagueia as prateleiras à procura de outros escritores. O Albert Camus, único autor frequentemente revisitado, também tinha sido um homem bonito e só não continuava a sê-lo hoje, porque morrera entretanto, há coisa de cinquenta anos. O José Eduardo Agualusa, por exemplo, também escrevia bem e era um homem bonito. Esta constatação apaziguava-a. O mesmo se passava com Paul Auster. Com Haruki Murakami. E até com o jovenzinho Paolo Giordiano, se bem que este não fosse grande escritor. Entrou outra vez na casinha dos livros, onde viviam, claramente, mais homens do que mulheres. Tirava os livros um a um e não dois a dois nem três a três. Não tinha pressa. Dedicava mais tempo a uns do que a outros. Nem todos os homens que viviam na casinha dos livros eram bonitos. Muitos deles, na verdade, eram muito feios e não interessariam ao menino Jesus, a começar por Truman Capote e a acabar em José Saramago, passando ainda por George Orwell e Thomas Mann. Curiosamente, quase todas as mulheres que viviam na casinha dos livros eram bonitas ou, pelo menos, graciosas em algum aspecto do corpo. Veja-se o nariz de Virgina Woolf, as maçãs do rosto de Lídia Jorge, o sorriso de Toni Morrison, os olhos de Herta Müller, as sobrancelhas de Sophia de Mello Breyner. Naquele domingo arrumava a casinha dos livros e esforçava-se por visualizar esses outros rostos dos livros. O Dostoievski tinha uma barba austera. O Carlos Ruiz Zafón era careca. Achava piada a homens barbudos e também a homens carecas. Apercebia-se agora mesmo de que não conhecia a cara de muitos daqueles homens e mulheres que viviam na sua casa. Perguntava-se: Que rosto teria Roald Dahl? Ou F. Scott Fitzgerald? Ou Nikolai Gogol? Ou Mario Vargas Llosa? Estas perguntas assentavam nela como o pó nos livros, mas continuou a esvaziar a sua casinha, como se nada mais naquele domingo importunasse os ossinhos das suas mãos. Estava ciente de que todos aqueles livros soltavam bichos estranhos pela casa e teve medo desses corpos sem cabeça. De repente, ao esvaziar uma das prateleiras menos exploradas, ocorreu na sua própria cabeça a descoberta de que possuía dois exemplares iguaizinhos do pequeníssimo livro de Gonçalo M. Tavares intitulado &lt;em&gt;Água, cão, cavalo, cabeça&lt;/em&gt;. Este título trazia-lhe à memória o inesquecível livro do Camilo Castelo Branco &lt;em&gt;Coração, Cabeça e Estômago&lt;/em&gt;, apesar de apenas a palavra &lt;em&gt;cabeça&lt;/em&gt; se repetir nos títulos. Curiosamente, o livro duplicado ganhara, há uns anos, o Grande Prémio do Conto "Camilo Castelo Branco" . Talvez por isso o tivesse comprado duas vezes. Não sabe. Senta-se no chão, de frente para a casinha dos livros e de costas para o resto da casa. Pousa a seu lado o pano com que limpava os livros, cruza as pernas e lê um dos exemplares do pequeníssimo livro. Pela casa deambulam agora os tais corpos sem cabeça. Tem medo deles, mas nunca olha para trás. Gosta da cabeça de Gonçalo M. Tavares.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;(continua)&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-246955089183075373?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/246955089183075373/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=246955089183075373' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/246955089183075373'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/246955089183075373'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2010/02/casinha-dos-livros-parte-ii.html' title='A casinha dos livros - Parte II'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-7824928445235497983</id><published>2010-01-27T17:16:00.002+01:00</published><updated>2010-01-27T17:56:04.109+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A casinha dos livros'/><title type='text'>A casinha dos livros - Parte I</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Naquele domingo decidiu arrumar a casinha dos livros. A casinha dos livros não era uma casinha propriamente dita e muito menos uma casa, porque não tinha um telhado nem uma casa de banho nem uma cozinha nem uma lareira na sala de estar. De resto, a casinha dos livros tinha tudo o que as casas tinham, incluindo portas, janelas, divisões, uma despensa e um sótão e ainda um rés-do-chão, um primeiro andar, um segundo andar, um terceiro andar, um quarto andar, um quinto andar e um terraço com vista para a casa. Contudo, não era uma casinha propriamente dita e muito menos uma casa. Era, somente, um armário de madeira com dois metros de altura e um metro e sessenta de largura, e quatro portas de vidro, de onde se avistavam as vidas dos livros. Naquele domingo decidiu arrumar a casinha dos livros mas, na verdade, a sua motivação era outra, ficcional, anterior àquele domingo e a muitos outros. Essa motivação encolhia-se na prateleira mais profunda da sua cabeça, mas existia no seu corpo com a mesma intensidade que um coração ou um pulmão ou um fígado. Na verdade, não queria arrumar a casinha dos livros, mas apenas visitá-la, espreitar os seus livros nos seus quartos e deixar-se cair nas suas encadernações. Adormecer de exaustão nas folhas dos livros, com a cabeça em cima das palavras mais confortáveis. Esta era a sua motivação real e essa motivação era anterior a tudo o resto. Encarou a casinha dos livros de frente, primeiro à distância e depois ao perto, com o mesmo entusiasmo com que Gretel olhou para a casa de chocolate. O mesmo apetite, o mesmo impulso. Abriu as portas da casinha dos livros como quem abre um cofre ou um tesouro e, de início, percorreu a casinha dos livros com os olhos, de baixo para cima e depois de cima para baixo, e logo a seguir com as mãos, o nariz, o ventre e a boca. Tinha uma relação promíscua com os seus livros e nem sempre os tratava bem. Por norma, não os tratava bem. Nunca os tratava bem. Tinha, por exemplo, o hábito de dobrar os cantos de certas folhas, marcando-as para sempre como os homens faziam ao gado ou a outros homens. Sublinhava as frases mais curiosas, mais estranhas, mais profundas. Usava para o efeito um lápis qualquer ou uma caneta qualquer, incluindo as de feltro. Também assinava e datava os livros como se fossem obra sua. Por vezes introduzia comentários nas margens das folhas, à toa. Abria-os exageradamente para os ler melhor e quando terminava, atirava-os para o lado de qualquer maneira. Os livros ali ficavam muito tempo, ladeando a cama ou o sofá como cãezinhos ingénuos ou porquinhos-da-índia ou qualquer outro animal igualmente estúpido. Na maior parte das vezes, levava os seus livros para a cama. A páginas tantas, se não a satisfaziam, fartava-se deles, batia-lhes e devolvia-os à casinha dos livros. Enquanto pensa nesta sua relação com os livros, apercebe-se, agora mesmo, de que a sua cama é maior do que a casinha dos livros. A sua cama é maior do que muitas coisas porque tinha sido feita para um rei (&lt;em&gt;king size&lt;/em&gt;). A sua cama é, exactamente, vinte centímetros maior do que a casinha dos livros. Dir-se-ia que, naquela casa, na sua vida, há mais espaço para dormir do que para ler. Este pensamento chegava novinho em folha à sua cabeça e surpreendia-a. Não tinha a certeza de que gostasse mais de dormir do que de ler, mas era provável que sim. Estava, agora, na casinha dos livros. E falou para eles da mesma maneira com que falava para as suas plantas, de cima para baixo, sorrindo sempre. Era mais carinhosa com as plantas do que com os livros. Muito mais carinhosa com as plantas do que com os livros. Não era carinhosa com os livros. No entanto, gostava mais deles do que das plantas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A sua forma de amar era cruel.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;(continua)&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-7824928445235497983?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/7824928445235497983/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=7824928445235497983' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/7824928445235497983'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/7824928445235497983'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2010/01/casinha-dos-livros-parte-i.html' title='A casinha dos livros - Parte I'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-8670690162892115263</id><published>2010-01-06T18:22:00.009+01:00</published><updated>2010-01-28T13:41:17.212+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Das pessoas de verdade'/><title type='text'>Miúxa</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;Para a &lt;a href="http://www.blogger.com/profile/08513733907840471793"&gt;Miúxa&lt;/a&gt;, &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;que nasceu no Dia de Reis &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;para desviar a atenção do Menino.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Por norma, chega a casa com paisagens dentro da cabeça. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Os outros trazem outras coisas dentro da cabeça: recordações do próprio dia, planos para o dia seguinte, contas por pagar, sentimentos de culpa, expectativas, raciocínios, argumentos. Mas a Miúxa não. As paisagens que traz dentro da cabeça são como fotografias, porque têm cores e são mais concretas do que certas memórias concretas. No entanto, não são como fotografias, porque crescem dentro da sua cabeça como árvores e são tão profundas como o mar. Nos tempos livres, pensa nessas paisagens. Também vê as paisagens dos outros ou lê as paisagens dos outros. Por exemplo, as narrativas de José Saramago ou os livros que os outros recomendam. Ou então, livros policiais. Além disso, gosta de cozinhar, porque tem jeito nas mãos para manejar o forno e construir castelos de claras. A Miúxa gosta de doces e de fazer doces para os que gostam de doces. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Por norma, chega a casa com paisagens dentro da cabeça. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nessa casa, além da Miúxa, vivem o marido, o filho, o passarinho, a tartaruga e a gata Nani. A Miúxa escreve sobre a sua casa e todos estes seres que habitam a sua casa, mas sobretudo, sobre a tartaruga, que vive na despensa. A Miúxa escreve, igualmente, sobre as suas paisagens. Por vezes, desenha-as no papel ou no próprio computador. Por causa do jeito que tem nas mãos, também passa as suas paisagens para a tela. Os quadros da Miúxa têm pedacinhos de Monserrate, de Monet, da praia de São Pedro. A Miúxa vive na cidade, mas é possível que preferisse morar longe da cidade. Não sabemos. Por ser Dia de Reis, imaginamos que esteja, neste preciso momento, a desmontar o seu presépio. De outra maneira, talvez estivesse a fazer um bolo de iogurte ou de noz. Gostamos de doces, em geral, e dos doces da Miúxa, em particular. Também gostamos dos quadros da Miúxa. Na verdade, gostaríamos de plantar as paisagens da Miúxa na nossa casa, mas receamos que sejam difíceis de criar em vaso. Como as pessoas. E as &lt;a href="http://ervilhas-de-cheiro.blogspot.com/"&gt;ervilhas-de-cheiro&lt;/a&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-8670690162892115263?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/8670690162892115263/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=8670690162892115263' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/8670690162892115263'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/8670690162892115263'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2010/01/miuxa.html' title='Miúxa'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-1566973944739664650</id><published>2009-12-31T00:58:00.009+01:00</published><updated>2009-12-31T14:17:35.959+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Das pessoas de verdade'/><title type='text'>A mulher de avental não está de avental, mas é como se estivesse.</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Para a primeira de todas as &lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;a href="http://mulheresdeavental.blogspot.com/"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;mulheres de avental&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/a&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A mulher de avental está na cozinha, mas não está a cozinhar nem a lavar a loiça, por isso não está de avental. A cozinha da mulher de avental é a mais bonita de todas as cozinhas, a mais ampla de todas as cozinhas, a mais luminosa. Tem uma janela enorme, mais alta do que as pessoas mais altas e também mais larga do que as pessoas mais largas. A janela da cozinha mais bonita de todas as cozinhas tem o tamanho de uma parede e a mulher de avental está de frente para ela. Observa, agora mesmo, o alpendre da sua casa, o jardim, o pátio longuíssimo. A relva está molhada e muito sozinha por causa do Inverno e da chuva que ele chora. No centro da cozinha há uma mesa de jantar e a mulher de avental está sentada num canto dessa mesa. Por cima da mesa há uma toalha lindíssima e nada mais. A toalha de mesa foi bordada e oferecida pela tia. A roupa jamais secará com aquela humidade. Isto pensa a mulher de avental, enquanto segue os caminhos abstractos da toalha com o dedo indicador.  A vida é mais lenta no Inverno, vai por aí, arrastando-se pelo chão da cozinha como uma tartaruga, esconde-se num canto para hibernar. Era o penúltimo dia. A chuva faz barulho ao cair e incomoda os ouvidos e também os olhos, porque não deixa ver mais além. A mulher de avental observa tudo isto e come, cheia de tempo, uma mousse que parece ser de chocolate, mas não é. A mulher de avental come uma mousse de alfarroba e não uma mousse de chocolate. É provável que a mulher de avental goste mais de comer mousse de chocolate do que mousse de alfarroba, mas, neste preciso momento, o seu paladar não está na boca nem no céu da sua boca nem na ponta da língua nem nas papilas gustativas. O paladar da mulher de avental está nos olhos e estes saboreiam a vista ou a falta dela. Não se pode jogar futebol quando a relva está molhada. Por causa disso, não há crianças no pátio, nem vozes, nem jogos, nem nada de nada. Apenas a relva molhada e as casas iguais àquela. A cozinha é muito mais bonita na Primavera, quando o sol vem iluminar a bancada, a cesta de frutos, os electrodomésticos e as peças de alumínio, de vidro, de porcelana. A mulher de avental faz anos no penúltimo dia do ano. Há 38 anos que é assim. Faz o balanço do ano no penúltimo dia. Também faz o balanço dos 38 anos. Faz, portanto, dois balanços ao mesmo tempo. A mulher de avental não está de avental, mas sim de lenço na cabeça, porque perdeu o cabelo. Também emagreceu. Tudo isto se passou em 2009. Proclama aquele ano como o pior de todos os anos. A mulher de avental pensa nisto e não se sente propriamente triste. Noutros dias, sim, sente-se triste, mas hoje não, porque é o penúltimo dia e não o primeiro nem o segundo. Segue, novamente, os caminhos abstractos da toalha com o dedo indicador. A sua esperança é maior do que a janela enorme, ou seja, é maior do que as pessoas. A mulher de avental não está de avental, mas é como se estivesse, porque está a trabalhar a vida como quem trabalha a massa. Decide: Tudo será diferente em 2010, quando a Primavera entrar na cozinha. E levanta-se.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-1566973944739664650?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/1566973944739664650/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=1566973944739664650' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/1566973944739664650'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/1566973944739664650'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/12/mulher-de-avental-nao-esta-de-avental.html' title='A mulher de avental não está de avental, mas é como se estivesse.'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-6476523722629273554</id><published>2009-12-09T17:49:00.011+01:00</published><updated>2009-12-14T17:04:14.210+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Discurso diarístico sem mim'/><title type='text'>Discurso diarístico sem mim – Parte III</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Gostaríamos, francamente, que certas pessoas não existissem ou passassem a não existir, que desaparecessem da face desta Terra e da outra, levadas pela força do vento ou da água ou da terra ou do fogo. Passamos, aliás, muito tempo a imaginar catástrofes naturais ou artificiais que justificassem o desaparecimento dessas tais pessoas e, nos dias menos bons, desejamos que qualquer uma destas catástrofes suceda de facto. Nos dias bons, desejamos apenas que essas pessoas se fossem embora. De preferência, com o rabinho entre as pernas ou então com uma pesada mala de viagem às costas ou a rastejar pelo chão (tanto faz), desde que apanhem o comboio ou o avião ou o foguetão ou a nave espacial. Gostaríamos, com efeito, que nunca mais voltassem atrás nem olhassem para trás nem deixassem nada para trás, nem sequer uma recordação ou uma carta ou um postal ou um número de telefone. Gostaríamos que certas pessoas sumissem da nossa vida com a simplicidade com que o fumo sai das chaminés, para nunca mais regressarem, em estado gasoso ou em qualquer outro estado, à casa de onde saíram. Gostaríamos, aliás, que a nossa vida fosse uma casa, à semelhança da nossa casa inicial ou da nossa casa final ou da nossa casa do meio. Que a nossa vida fosse uma casa e tivesse, pelo menos, quatro paredes, bem isoladas e feitas de betão. Gostaríamos, também, que a vida tivesse uma porta e que todos tivessem de bater nela antes de entrarem. (Não abriríamos a porta a certas pessoas. Andaríamos descalços pela vida-feita-casa para não fazermos barulho e apagaríamos as luzes para que certas pessoas não soubessem que andávamos na vida.) Gostaríamos que a vida tivesse, pelo menos, quatro paredes para as pintarmos de uma cor qualquer ou para nos encostarmos a elas ou para pendurarmos um quadro bonito ou feio. Gostaríamos que a nossa vida fosse uma casa e não esta alameda cheia de semáforos e carros e pombos e pessoas feias, monstruosas, indesejáveis, detestáveis. Gostaríamos, sinceramente, que essas pessoas fossem dar uma volta ao bilhar grande e se perdessem no regresso. Gostaríamos, já agora, que a noite fosse fria, tão inteiramente fria, que essas pessoas tilintassem como passarinhos mas não soubessem voar e chorassem de medo e dormissem ao relento num sítio estranho sem casas nem vidas, apenas relva molhada repleta de bostas de cães vadios ou de gatos vadios ou de pombos doentíssimos. Pensamos em tudo isto e desejamo-lo com toda a convicção, embora saibamos que nenhum destes desejos se realizará num futuro próximo ou longínquo, mesmo que desejemos tudo isto com muito força e várias vezes por dia, à luz de velinhas secretas. Imaginamos, no entanto, todas as catástrofes naturais e artificiais e, de todas elas, temos preferência pelo furacão, porque gostamos de vento e de drama. Imaginamos o furacão e sentimo-nos, efectivamente, felizes. Gostaríamos, sem dúvida, que certas pessoas fossem levadas por um furacão para um sítio qualquer e que nunca mais conseguissem pentear o cabelo nem andar a direito por causa das 1001 rotações do corpo durante a viagem. Na verdade, sempre que falamos com essas pessoas ou sempre que as vemos ou ouvimos ou sentimos ou pressentimos, imaginamos este furacão. Fantasiamos, depois, o uivo ensurdecedor do vento, o cabelo desgrenhado dessas tais pessoas, as suas perninhas ridículas abanando no céu, cada vez mais longe desta Terra. Depois caímos, naturalmente, na real e apercebemo-nos de que a nossa preferência pelo furacão tem mais a ver com o Feiticeiro de Oz do que com o nosso profundo desejo de ver desaparecer certas pessoas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Concluímos, então, que continuamos a preferir a ficção à realidade. E gostaríamos, com toda a franqueza, que certas pessoas não existissem de todo. Nem a sério, nem a brincar.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-6476523722629273554?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/6476523722629273554/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=6476523722629273554' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/6476523722629273554'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/6476523722629273554'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/12/discurso-diaristico-sem-mim-parte-iii.html' title='Discurso diarístico sem mim – Parte III'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-8100855827251851299</id><published>2009-12-08T17:52:00.006+01:00</published><updated>2009-12-10T11:25:10.287+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Dos livros'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Da música'/><title type='text'>The Death of Bunny Munro ou o Nick Cave e as suas más sementes ou más intenções or something</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O Nick Cave podia ter saído de um filme de animação, por causa das pernas muito magras, demasiado longas, das suas más sementes e dos olhos profundíssimos como poços (no fundo dos quais cantamos para o céu que vemos ao fundo) e da testa montanhosa (no cimo da qual vive um pastor que talvez seja um ciclope). O Nick Cave bem podia ser uma personagem de um filme de animação de &lt;a href="http://www.imdb.com/name/nm0000318/"&gt;Tim Burton&lt;/a&gt; (e a ideia nem sequer é do autor nem do narrador deste texto), porque é branquíssimo e se veste de preto e tem um ar meio fúnebre ou maquiavélico ou infernal, próprio de quem emergiu das profundezas de um vulcão ou das Brumas de Avalon ou de Gotham City ou de um qualquer sítio desconhecido dos comuns mortais ou dos imortais mais puros, por estes não saberem o mal que habita por baixo da superfície, no centro da terra ou no fundo do mar. A propósito disto, o narrador e o autor deste texto dão-se conta de que ouvem Nick Cave preferencialmente por baixo da terra, quando andam de metro pela Gotham City e não de eléctrico nem de autocarro. Curiosamente, Nick Cave escreveu &lt;a href="http://www.thedeathofbunnymunro.com/"&gt;The Death of Bunny Munro&lt;/a&gt; num autocarro ou, pelo menos, parte do livro. Estava em digressão na Europa e escreveu esta tal morte de Bunny Munro em 6 semanas, no seu iPhone, cujo teclado exige mais precisão aos dedos do que um piano ou uma flauta ou uma máquina de calcular &lt;em&gt;or something&lt;/em&gt;. O Nick Cave emerge do seu vulcão e traz metáforas desse outro mundo, acrescentando, quase sempre, qualquer coisa &lt;em&gt;or something&lt;/em&gt;: &lt;em&gt;Her face is the purple colour of an aubergine or something.&lt;/em&gt; Isto pensa, por exemplo, Bunny Munro sobre o rosto arroxeado da mulher. Bunny Munro pensa sobre várias coisas, entre elas sobre a sua mulher e também sobre todas as outras mulheres, especialmente nos possíveis formatos das suas vaginas. Bunny Munro é, naturalmente, um tarado sexual que, além de alcóolico, é, possivelmente, a pior pessoa do mundo. Isto no entender de Nick Cave, que apresentou o seu livro também no &lt;em&gt;Arenbergschouwburg&lt;/em&gt;, um lugar impossível com nome inefável em Antuérpia, onde &lt;a href="http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966"&gt;a pessoana&lt;/a&gt;, &lt;a href="http://belgavista.blogspot.com/2008/06/o-homem-ilimitado.html"&gt;o homem ilimitado&lt;/a&gt; e &lt;a href="http://quemtemmedodolobomau.blogspot.com/"&gt;a capuchinho vermelho&lt;/a&gt; estiveram numa certa noite de Outubro, só para o ver cantar, tocar e ler certos excertos de certos capítulos do seu livro. (A certa altura, &lt;em&gt;Bunny takes a deep breath and allows himself to open up to her vibes like a medium or spiritualist or something&lt;/em&gt;.) O Nick Cave podia ter saído de um filme de animação do Tim Burton, é certo, mas o Tim Burton, que tem sete cabeças e sete vidas para a sétima arte e uma criatividade que mais parece uma cascata &lt;em&gt;or something&lt;/em&gt;, jamais poderia ter criado o Nick Cave, a não ser que os homens criassem deuses ou os rios parissem mares, o que até pode ser o caso. O Nick Cave é maior do que Tim Burton. Ou seja, Nick Cave até podia ter criado Tim Burton, mas nunca o contrário, a não ser que a arte seja maior do que o criador, o que até pode ser o caso. E nesse caso, Nick Cave é, de facto, uma personagem de ficção, um produto imaginário, uma criação sem corpo, o que não é verdade, porque o autor e o narrador deste texto viram-no ali à frente, a cerca de 30 metros, em carne e osso, a tocar e a cantar &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=rBk2sOx3qig&amp;amp;feature=related"&gt;Hold on to yourself&lt;/a&gt; e a ler pedaços da tal morte de Bunny Munro. Desculpem a interrupção, mas o narrador deste texto tem, dentro da cabeça, uma outra cabeça que o censura e critica e recrimina como uma madrasta má. Diz-lhe insistentemente: "Não és nada em comparação com as sobrancelhas de Nick Cave". A outra cabeça do narrador, que é blogueira nas horas livres como outros são palhaços, concorda com a cabeça madrasta. Ambas presenciaram o concerto intimista do Nick Cave, que apresentou o seu livro e leu o seu livro e tocou e cantou e falou como se estivesse na sua sala de estar ou de ser. Respondeu também a todas as perguntas. Aproximava-se do público, perguntava: &lt;em&gt;Any questions?&lt;/em&gt; e as pessoas falavam alto, tratavam-no por &lt;em&gt;Mr. Cave&lt;/em&gt;, perguntavam-lhe tudo e mais alguma coisa. (A pessoana e companhia ficaram caladinhas que nem uns ratos. Os olhos sem fundo do Mr. Cave, as suas mãos soltas, desarticuladas, independentes, o compasso irónico das pernas, o timbre acertado, de quem já tudo fez e tudo ganhou e perdeu, e tudo provou e conheceu, como só o Diabo terá provado e conhecido: tudo isso assustou pessoana e companhia.) O Nick Cave escreveu um livro sobre vaginas e outros mistérios em 6 semanas, usando para o efeito o teclado do seu iPhone enquanto atravessava a Europa de autocarro. A pessoana, que é boa pessoa mas não é nada em comparação com as sobrancelhas de Nick Cave, anda a ouvir e a ler Nick Cave. De momento, não precisa de mais nada, não deseja mais nada, não lhe apetece mais nada. Nem mesmo para o Natal. (Ainda assim, se alguém lhe der como prenda &lt;a href="http://www.fnac.pt/pt/Catalog/Detail.aspx?cIndex=0&amp;amp;catalog=livros&amp;amp;categoryN=Livros&amp;amp;category=literaturaLinguaPortuguesaTraduzida&amp;amp;product=9789896720063"&gt;o saco de pano&lt;/a&gt; que a FNAC anda a oferecer na compra do livro, ficará extremamente feliz, como se, de facto, o desejasse.)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-8100855827251851299?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/8100855827251851299/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=8100855827251851299' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/8100855827251851299'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/8100855827251851299'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/12/death-of-bunny-munro-ou-o-nick-cave-e.html' title='The Death of Bunny Munro ou o Nick Cave e as suas más sementes ou más intenções or something'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-6261808418445182976</id><published>2009-12-02T18:25:00.003+01:00</published><updated>2009-12-02T18:41:41.907+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos infantis para adultos'/><title type='text'>Conto infantil para adultos: O presidente fora de água e a baronesa inglesa</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A baronesa inglesa é a menina mais feia das redondezas. Tem cabelo insonso e falta de queixo. Mesmo assim, insistiu em que queria casar e colocou-se muito carochinha à janela. Para espanto de todos, a baronesa mais feia das redondezas encontrou, não um barão durão, mas sim um presidente com quem casar. O presidente tinha, infelizmente, um ar ridículo, por causa dos olhos esbugalhados, iguais aos de um cherne fora de água, mas a baronesa não se importou e apaixonou-se em três tempos, qual dona de casa desesperada. Ontem à noite, a baronesa e o presidente foram passear juntos ao centro da cidade. Todos os meninos das redondezas vieram vê-los passar e concordaram que, apesar da sua fealdade, a baronesa e o seu presidente faziam um casal simpático. Isto porque ambos tinham um nariz impossível, à Cyrano de Bergerac, e um sorriso muito torto, de criança mal-intencionada. A baronesa e o presidente passeavam-se pela rua e todos sorriam para eles, porque mais pareciam dois duendes saídos de um conto de fadas. Há quem diga que a baronesa e o presidente vinham de mãos dadas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O nosso desejo é que, ao darem um beijo, se transformem. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Em meninos de verdade.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Nota do narrador: Esta história não tem nada a ver com a baronesa Catherine Ashton nem com o presidente José Manuel Barroso, porque, como todos sabem, ambos estão muito bem casados com outras pessoas e não andam de mãos dadas na rua. Só por isso.&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-6261808418445182976?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/6261808418445182976/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=6261808418445182976' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/6261808418445182976'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/6261808418445182976'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/12/conto-infantil-para-adultos-o.html' title='Conto infantil para adultos: O presidente fora de água e a baronesa inglesa'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-1885507017394037281</id><published>2009-12-01T19:09:00.006+01:00</published><updated>2009-12-10T11:25:53.522+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias do real'/><title type='text'>História do cerco dos minaretes e das torres de igreja</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;1. A única altura na vida em que &lt;a href="http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966"&gt;pessoana&lt;/a&gt; pensou em minaretes foi enquanto lia a História do Cerco de Lisboa. (O José Saramago prefere a palavra almádena à palavra minarete. A pessoana também.) A História do Cerco de Lisboa tem pouco mais de 200 páginas, pelo que a pessoana não passou muito tempo da sua vida a pensar em almádenas. As descrições de José Saramago são, porém, inesquecíveis e a pessoana jamais se esqueceria do almuadem cego e das escadas em caracol da almádena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Numa certa época da sua vida, a janela da sala de estar da casa da pessoana tinha vista para a torre de uma igreja. Agora já não é assim, porque pessoana mudou de casa, mas nessa época, nos fins-de-semana, o &lt;a href="http://belgavista.blogspot.com/2008/06/o-homem-ilimitado.html"&gt;homem ilimitado&lt;/a&gt; acordava muito cedo por causa dos sinos. Ela não. (Os sinos da igreja não a despertam; dão-lhe sono.) Por esta razão, e também pelo facto de ter tido uma educação católica (muito embora não tenha casado pela igreja) e não conhecer um único muçulmano (muito embora viva rodeada deles), a pessoana pensa mais rapidamente em sinos de igrejas do que em almádenas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. A pessoana percebe muito pouco (quase nada) de religião e arquitectura, mas tem para si que a almádena está para o islamismo como a torre da igreja está para o cristianismo, porque a almádena e a torre da igreja cumpriam, num passado mais ou menos longínquo, a função de chamar os crentes à oração. (Esta comparação, como é evidente, não é original.) Porém, nos dias que correm, a pessoana tem dúvidas quanto à função das almádenas e das torres de igrejas. Gostaria, aliás, de subir uma almádena ou a torre de uma igreja para perguntar aos fiéis e infiéis: Para que servem as almádenas e as torres das igrejas? A pessoana gostaria também de confessar o seguinte: por princípio, não tem nada contra a ideia de se começar a construir mesquitas sem almádenas, desde que as igrejas passem também a ser construídas sem torres. Tão simples quanto isto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. Se Portugal e outros países decidissem o seu futuro com base em referendos e noutras formas de democracia directa, é provável que muitas pessoanas votassem, por exemplo, contra a entrada da Suíça na União Europeia (os suíços decidiram – também por referendo – não pertencer à União Europeia). Muitas pessoanas não percebem nada sobre a Suíça nem sobre a União Europeia e, por isso mesmo, votariam contra a entrada da Suíça na União Europeia. No entender de pessoana e de &lt;a href="http://publico.pt/Mundo/foi-o-medo-da-suica-tradicional-que-venceu-a-consulta-dos-minaretes_1412132"&gt;outras pessoanas&lt;/a&gt;, o exercício da democracia directa exprime, não as vontades de um povo nem as suas convicções, mas sim os seus medos. Já se sabe que todos os europeus têm medo dos suíços, incluindo os próprios suíços. Os suíços, por seu turno, também têm medo dos muçulmanos, daí não quererem almádenas. A pessoana, por sua vez, tem medo dos suíços, dos muçulmanos e da democracia directa.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;5. É por estas e por outras que pessoana acredita que se vive tão bem sem a democracia directa como se vive sem minaretes e torres de igrejas. A pessoana acredita também noutras coisas, mas não propriamente em Deus. Na verdade, a pessoana tem mais dúvidas do que crenças. Ou seja, é céptica. Isto deve-se, provavelmente, à sua educação católica.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-1885507017394037281?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/1885507017394037281/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=1885507017394037281' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/1885507017394037281'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/1885507017394037281'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/12/historia-do-cerco-dos-minaretes-e-das.html' title='História do cerco dos minaretes e das torres de igreja'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-5842686952358902577</id><published>2009-11-30T18:00:00.006+01:00</published><updated>2009-12-10T11:27:01.399+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias de mim'/><title type='text'>Do voo e da queda</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;A avó disse que não gostava nada de andar de avião, mas que sempre desejou fazer parapente. Depois falou da diferença entre as duas coisas. Fazer parapente estava mais perto de voar. Concordei. Estávamos de mãos dadas, no velório do avô.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes disso, pela primeira vez, não tinha chorado ao sobrevoar Lisboa. A cidade surgia inteira e ela não quis saber do rio escuríssimo nem das luzes à beira das estradas. Estava visivelmente preocupada com outras coisas. Desapertou o cinto de segurança antes de ser seguro desapertar o cinto de segurança e pôs a mala a tiracolo para assegurar uma saída de rompante, sem obstáculos. (É preciso um certo vagar para a saudade.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é impossível ficar e voar. Isto segundo Ed Asner, o velhote rezingão que decidiu, justamente, ficar e voar. O último filme da Pixar chama-se &lt;a href="http://www.imdb.com/title/tt1049413/"&gt;Up&lt;/a&gt; e fala, mais ou menos, de um homem que decide ficar em casa e voar. Ed Asner tem uma cara quadrada e óculos quadrados: é um homem aos quadradinhos. Ed Asner não existe, por isso teve de ser inventado. Ed Asner é parecido com o meu avô, mas o meu avô existe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bruxelas é uma cidade mais profunda e tenebrosa do que a Gotham City do Batman, mas tem mais portas e janelas do que Gotham City. É uma cidade real.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O último livro do Agualusa começa com uma mulher a cair do céu durante uma tempestade tropical. &lt;em&gt;Caiu – veio caindo, nua, negra, de braços abertos – quase ao mesmo tempo que o raio&lt;/em&gt;. Era uma boa imagem aquela, da mulher caindo, de braços abertos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Concluiu que tinha uma certa obsessão por quedas e não por voos. Preferia, por exemplo, o &lt;em&gt;bungee jumping&lt;/em&gt; ao parapente. Também gostaria mais de cair na toca do coelho do que de voar para a Terra do Nunca. Não sabia se isto dizia alguma coisa sobre a sua personalidade. Estava-se nas tintas para a sua personalidade. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;A Cat Woman caiu da janela, perdeu uma vida. O Batman voa. E ela gostava mil vezes mais da Cat Woman do que do Batman. Também tinha uma queda para a &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=MJfQXS1hKDo"&gt;Cat Power&lt;/a&gt;, que tinha, por seu turno, uma certa queda para cair.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por vezes, achava que tinha caído em Bruxelas. De braços abertos. Mas hoje não achava nada disso. Tinha de ir ao supermercado, antes que fechasse. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;(Como aqui se disse, é preciso um certo vagar para a saudade.)&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-5842686952358902577?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/5842686952358902577/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=5842686952358902577' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/5842686952358902577'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/5842686952358902577'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/11/do-voo-e-da-queda.html' title='Do voo e da queda'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-5071319140005276775</id><published>2009-11-26T16:31:00.009+01:00</published><updated>2009-12-31T03:19:36.402+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Das pessoas de verdade'/><title type='text'>O meu avô e eu</title><content type='html'>&lt;div style="TEXT-ALIGN: right"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;Para o meu avô.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;O meu avô morreu. Chamava-se Fernando Pessoa, mas não era poeta, era engenheiro. &lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;Quando decidi estudar alemão na universidade, bateu-me nas costas três vezes. Disse-me que eu era a primeira da família a estudar Letras. (No peso da sua mão estava o peso da família inteira.)&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;O meu avô batia-me nas costas três vezes, quando eu fazia qualquer coisa acertada ou quando ele pensava que eu tinha feito alguma coisa acertada.&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;Também me disse que o alemão era uma língua fácil para quem tinha estudado latim. (O alemão é uma língua difícil, mesmo para quem tenha estudado latim, mas eu nunca disse isto ao avô.) &lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;O meu avô não discutia as suas ideias: a própria ideia de discutir ideias irritava-o.&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;Ninguém discute com o avô Fernando.&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;O meu avô conta uma história e abre muito a mão direita para mostrar a dimensão da sua história, da sua inteligência, do seu feito. O meu avô conta uma história, várias histórias, mil e uma histórias, sempre as mesmas histórias. Fala dos pretos, de África, do Antigo Regime, diz mal de quase todos os povos, e todos o ouvimos respeitosamente. Ninguém discute com o avô Fernando.&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;Certo dia, quase sem querer, saí de Portugal. Estava na Alemanha há cerca de um ano e o meu avô sentou-se ao meu lado. &lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;(Foi a primeira e única vez que o meu avô se sentou ao meu lado.) &lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;Disse-me: &lt;i&gt;Sobre essa tua decisão de viver no estrangeiro, interessa-me saber uma coisa&lt;/i&gt;. E nisto abriu a tal mão direita, para me mostrar o peso dessa coisa. &lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;(Até então, eu não tinha consciência de ter tomado decisões na vida. A ideia de ter decidido viver no estrangeiro assustava-me.)&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;Prosseguiu: &lt;i&gt;Eu queria saber, justamente, qual é o teu objectivo&lt;/i&gt;. E repetiu, apontando para mim: &lt;i&gt;O teu objectivo.&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;Nessa altura e mesmo hoje em dia, fixar objectivos parece-me uma tarefa tão ou mais difícil do que aprender alemão, por isso, em vez de falar sobre temas difíceis, falei de outras coisas: da Alemanha, dos alemães, da importância daquela experiência. Falei também da Europa, de como era fácil viajar na Europa, de como o mundo estava tão perto. Disse-lhe ainda que queria estar sozinha, fazer qualquer coisa sozinha, descobrir qualquer coisa sozinha. O meu avô ouviu tudo isto com muita atenção, mas no final perguntou-me: &lt;i&gt;E o teu objectivo? Qual é o teu objectivo?&lt;/i&gt;. Insistiu: &lt;i&gt;Tens de ter um objectivo!.&lt;/i&gt; Encolhi os ombros. Respondi-lhe que o meu objectivo era conseguir. O meu avô bateu-me três vezes nas costas e levantou-se. Eu levantei-me também. Depois repetiu com o ar mais sério do mundo, como se o meu futuro começasse ali: &lt;i&gt;O teu objectivo é conseguir&lt;/i&gt;. &lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;O meu avô só não foi poeta, porque não quis. &lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;Quando eu crescer, quero ser poeta. E conseguir como ele conseguiu. Para que ele me bata nas costas três vezes. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-5071319140005276775?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/5071319140005276775/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=5071319140005276775' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/5071319140005276775'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/5071319140005276775'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/11/o-meu-avo-e-eu.html' title='O meu avô e eu'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-7764671841496176747</id><published>2009-11-18T19:29:00.004+01:00</published><updated>2009-12-10T11:27:54.206+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Das pessoas de verdade'/><title type='text'>Dessi</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Para a Dessi.&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Chama-se Dessislava e faz 28 anos. A Dessislava é como o Dorian Gray, só que é uma mulher do século XXI e não tem um retrato secreto. A Dessislava é jovem para sempre, porque tem um riso fácil e um cabelo um pouco ingénuo, aos caracóis. Ou então porque é pequena ou parece pequena e encolhe os ombros quando se ri. A Dessislava ri à gargalhada, mas não faz muito barulho quando ri à gargalhada. Ninguém trata a Dessislava por Dessislava, toda a gente a chama Dessi. A Dessi abraça as pessoas, dá-lhes beijinhos. Tem uns dedos pequeninos e toca ao de leve nos nossos ombros, nas nossas mãos, diz que nos adora, que tem saudades nossas, que quer sair connosco, beber connosco, dançar connosco. A Dessi diz isto a toda a gente. A Dessi faz perguntas. A Dessi faz algumas perguntas descabidas. Outras perguntas são muito íntimas. Também faz perguntas políticas, perspicazes, profundas, de resposta difícil. Nem sempre ouve as nossas respostas às suas perguntas. Não sabemos porquê. A Dessi anda à procura do amor, da humanidade e de outras coisas abstractas. Tem um emprego das 9 às 5, é competente. A Dessi foi sozinha ao Chile. Também foi sozinha ao Japão e ao Havai, conhece sempre muitas pessoas nessas viagens. A Dessi conhece muitas pessoas em todo o mundo. Nasceu numa pequena aldeia na Bulgária, mas nós não sabemos onde fica essa aldeia. Já conhecemos a sua mãe, uma mulher cheia de força com música nos dedos que se mudou para Iémen. A Dessi foi a Iémen visitar a mãe. Há turistas que não voltam de Iémen. A Dessi voltou. Tivemos medo de que não voltasse. A Dessi podia ser uma personagem, mas é uma pessoa de verdade. Nós gostamos muito da Dessi.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-7764671841496176747?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/7764671841496176747/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=7764671841496176747' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/7764671841496176747'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/7764671841496176747'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/11/dessi.html' title='Dessi'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-3603722280466974474</id><published>2009-11-17T18:11:00.009+01:00</published><updated>2009-12-22T10:03:11.046+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Das personagens de verdade'/><title type='text'>O aprendiz de guitarrista</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O vizinho de cima toca guitarra. Não, não toca guitarra, está a aprender. Dedilha as cordas, nota ante nota. Anda há meses nisto. Chamemos-lhe aprendiz de guitarrista. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Felizmente, toca guitarra clássica e o seu quarto fica por cima da sala de estar e não do quarto de dormir. A vizinha senta-se no sofá a ler uma revista e gosta de ouvir aquela guitarra, aprendeu a ouvir aquela guitarra, já sabe distinguir, por exemplo, os acordes novos dos antigos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;É verdade que aqueles sons ainda não são música, mas a vontade do aprendiz cativa-a. A vizinha de baixo gosta do aprendiz de guitarrista como quem gosta de um pássaro ou de um eléctrico repetido ao fundo da rua: o som conhecido sossega-a. Também a sossega a vontade do aprendiz de guitarrista, a sua perseverança, o seu entusiasmo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O aprendiz de guitarrista fá-la pensar que talvez o mundo avance.&lt;br /&gt;Por mais estranho que pareça, não conhece o aprendiz de guitarrista. Conhece, no entanto, a mãe e sabe que o aprendiz é adolescente, tendo em conta a idade previsível da senhora que disfarça a idade e o instrumento musical escolhido. Se fosse criança, o aprendiz tocaria flauta ou xilofone. Se fosse adulto, um instrumento qualquer que não guitarra clássica. (Os únicos adultos que tocam guitarra clássica aprenderam a tocá-la na adolescência. Nenhum adulto é aprendiz de guitarrista. Talvez seja aprendiz de clarinete. De piano. Ou de canto. Mas não de guitarra clássica.)&lt;br /&gt;Esta não é, portanto, uma história de amor. A vizinha de baixo não tem idade para se apaixonar por aprendizes de guitarrista e tem o coração mais ou menos limitado ao &lt;a href="http://belgavista.blogspot.com/2008/06/o-homem-ilimitado.html"&gt;homem ilimitado&lt;/a&gt;. Esta é uma história sobre música, muito embora aqueles acordes ainda não fossem nada ou quase nada ou, pelo menos, não propriamente música.&lt;br /&gt;É que ontem, às 10 da noite, o aprendiz de guitarrista tocou um conjunto de notas seguidas que, juntas e compassadas, formavam, de facto, uma tímida melodia. O aprendiz de guitarrista repetiu aquele conjunto de notas e a vizinha de baixo parou de ler para ouvir. A vizinha de baixo e o vizinho de cima assitiam juntos e separados, com os olhos, os ouvidos e os dedos, à primeira de todas as melodias. Chegava, nas pontas dos pés, quase imperceptível, e atravessava os tímpanos, o coração, a boca e pousava quase nada no mundo.&lt;br /&gt;O aprendiz de guitarrista repetiu a mesma combinação de notas vezes sem conta até que a melodia se tornou inegável e existiu naquelas paredes para sempre. A vizinha de baixo parou definitivamente de ler. Pousou os óculos e levantou-se. Foi, antes, regar as plantas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Voltava a preenchê-la aquela esperança de que talvez o mundo avançasse.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Na arte, tudo era possível.&lt;br /&gt;Depois voltou a sentar-se no sofá e ligou a televisão. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O aprendiz de guitarrista continuou a tocar a mesma melodia. Devagarinho. Igual ao mundo.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-3603722280466974474?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/3603722280466974474/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=3603722280466974474' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/3603722280466974474'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/3603722280466974474'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/11/o-aprendiz-de-guitarrista.html' title='O aprendiz de guitarrista'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-5526742696661984361</id><published>2009-11-16T11:48:00.005+01:00</published><updated>2009-12-14T17:06:54.034+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Da escrita'/><title type='text'>Três desejos</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;Brevemente neste blogue, um dos três desejos.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Uma história. Uma personagem. Um discurso diarístico.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Estes eram os três desejos do narrador que, apesar de minúsculo, comia &lt;em&gt;Kinder Surpresa&lt;/em&gt; como gente grande. Os desejos eram também maiores do que ele próprio, como certos sonhos de infância. Queria, urgentemente, uma história, uma personagem, um discurso diarístico. Na verdade, queria qualquer coisa que não aquele silêncio. Urgentemente. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nos tempos livres, o narrador costumava brincar com as retroexcavadoras cor-de-laranja que descobria dentro dos ovinhos, mas ultimamente só tem comido o ovo de chocolate e deita fora os brinquedos.&lt;br /&gt;O autor é mais maduro do que o narrador. Além de nada desejar, veste uma misteriosa gabardina preta para o proteger da chuva, do vento e dos outros. Comporta-se, aliás, como os gatos: senta-se contemplativo no parapeito da janela, mas o narrador não tem a certeza se o autor contempla alguma coisa, porque não mexe a cabeça nem as orelhas nem os olhos nem as patas. Ninguém contempla imóvel. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Era a opinião do narrador. À falta de metafísica naquela casa, come chocolates, mas não brinca. Tem três desejos mais fortes do que ele próprio. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Diz em voz alta: &lt;em&gt;Uma história. Uma personagem. Um discurso diarístico. &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Repete: &lt;em&gt;Uma história. Uma personagem. Um discurso diarístico.&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Depois grita, chora, esperneia.&lt;br /&gt;O autor está virado para a janela, por isso não lhe vemos o rosto. Está tão quieto que mais parece uma estátua. Há quatro semanas que não se mexe (na verdade, o narrador tem medo que o autor tenha morrido à janela).&lt;br /&gt;Por vezes, aproxima-se devagar do parapeito, põe-se em bicos dos pés para tocar na cauda longuíssima do autor, mas depois arrepende-se. Regressa ao seu cantinho, mais pequeno do que antes.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Hoje, no entanto, pela hora de almoço, algo acontece:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Belgavista é nome de peixe.&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;É o que diz, de repente, o autor. Depois salta para o chão e começa a lamber as próprias patas. É previsível que, além da vontade de escrever, tenha uma pontinha de fome. Daí a alucinação.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O narrador dá um pulo de contente, mas continua a comer chocolate. Na sua modesta opinião, Belgavista não é nome de peixe. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas isso, agora, pouco importa.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-5526742696661984361?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/5526742696661984361/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=5526742696661984361' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/5526742696661984361'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/5526742696661984361'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/11/tres-desejos.html' title='Três desejos'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-2226409026659883827</id><published>2009-10-12T18:53:00.017+02:00</published><updated>2009-10-12T19:27:14.959+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Western revisited'/><title type='text'>Western revisited: Eleições no Far West</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Um índio candidatou-se a xerife. Era a primeira vez que tal sucedia no Far West. Esse índio chamava-se Jlin-Litzoque (Cavalo Amarelo) e pescava no rio com uma lança. Também lia o futuro no movimento da água e falava com a lua. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;No bar do Joe, todos à excepção das mulheres discutiam as eleições, os direitos dos índios, o futuro da América.&lt;br /&gt;Como previsto, e para grande alívio dos vaqueiros, o rancheiro Rowdy Yates também se candidatara. Era respeitado na povoação e sabia manter a ordem, a julgar pelas suas vacas disciplinadas. Tinha uma mulher e três filhos, sabia ler e escrever.&lt;br /&gt;Os índios não votavam, pelo que a vitória de Rowdy Yates era provável. A contagem de votos terminou na segunda-feira e o xerife cessante anunciou o vencedor no bar do Joe, onde os homens passaram a noite a beber, a comer, a dançar e a copular com mulheres que não as suas. O xerife anunciou, sem surpresas: Rowdy Yates era o vencedor, tendo os homens continuado a festa. O novo xerife subiu para o balcão a custo e recebeu a sua estrela.&lt;br /&gt;Nisto entra no bar do Joe o Cavalo Amarelo. (Os índios nunca entravam no bar do Joe.) Todos os homens se calaram, estupefactos, excepto Rowdy Yates, que lhe perguntou destemido:&lt;br /&gt;- Vens felicitar-me, Cavalo Amarelo?&lt;br /&gt;- Não. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Vens anunciar a tua derrota?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Não.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Então, o que fazes aqui?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Venho convocar-te.&lt;br /&gt;- Convocar-me?!&lt;br /&gt;- Sim.&lt;br /&gt;- Para uma reunião?!&lt;br /&gt;- Não, para um duelo.&lt;br /&gt;Os homens soltaram uma gargalhada em uníssono, incluindo Rowdy Yates. O próprio Cavalo Amarelo esboçara um sorriso. A situação era caricata: já se sabe que os índios nada sabem de pistolas. Rowdy Yates mostrou-se curioso, perguntou genuinamente:&lt;br /&gt;- Queres morrer, Cavalo Amarelo?&lt;br /&gt;- Não.&lt;br /&gt;- Pensas que ganharás um duelo contra mim?&lt;br /&gt;- Sim.&lt;br /&gt;- A sério?&lt;br /&gt;- A sério.&lt;br /&gt;- Muito bem. E para quando queres marcar este duelo?&lt;br /&gt;- Para agora.&lt;br /&gt;O Cavalo Amarelo não espera um segundo. Saca uma caçadeira não se sabe de onde e dispara uma só vez. Depois foge no seu cavalo amarelo. Os homens demoram a reagir, ficam a olhar para o chão, onde jaz Rowdy Yates, de cabeça escancarada, indubitavelmente morto. Não dizem nada.&lt;br /&gt;O xerife cessante sai de cena, retoma as funções. Alguns homens tiram o chapéu. Não era digno morrer daquela maneira, sem pré-aviso e pelas mãos de um índio. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas no Far West era assim, morria-se por tudo e por nada. A dignidade era tão longínqua como o resto da terra. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O mesmo sucedia, por exemplo, em &lt;a href="http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1388440&amp;amp;seccao=Norte"&gt;Vila Real&lt;/a&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-2226409026659883827?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/2226409026659883827/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=2226409026659883827' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/2226409026659883827'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/2226409026659883827'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/10/western-revisited-eleicoes-no-far-west.html' title='Western revisited: Eleições no Far West'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-2545497322683254457</id><published>2009-10-06T17:28:00.007+02:00</published><updated>2009-12-10T11:24:30.403+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Dos livros'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Da música'/><title type='text'>Derramada por Chico Buarque</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Quando sair daqui, vou comprar música do Chico Buarque, toda a música do Chico Buarque.&lt;br /&gt;Tinha acabado de ouvir o Leite Derramado, quando pensou nisto, mas só dias mais tarde se lembrou dessa decisão. Disse: Saio daqui, reentro na chuva, apanho o metro e compro música do Chico Buarque, toda a música do Chico Buarque. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não tem uma única música do Chico Buarque e tem pena, vergonha, raiva de si mesma, porque aprendeu a dançar samba no Rio de Janeiro e canta Caetano Veloso no duche. Não sabe porquê, tenta perceber porquê.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Observa: há qualquer coisa de profundamente inquietante na voz de Chico Buarque, nos seus lábios, nos seus cabelos. Uma certa manha de rapousa, uma astúcia de cavalo de Tróia e ela não gosta disso. Dança samba despreocupadamente, "como se pulasse corda", igual à Matilde que derrama o leite.&lt;br /&gt;Preocupa-se em arranjar desculpas: O próprio nome Chico Buarque é estrondoso e a canção do Chico Fininho assenta-lhe que nem uma luva. Não consegue levar a sério aquela voz. O seu rosto é certinho, bonitinho, direitinho, tem um certo ar intelectual e as letras das canções são complicadas. Tudo isto a incomoda.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tudo isto estava prestes a mudar, porque tinha acabado de ler o Leite Derramado e apercebera-se do seguinte: os olhos de Chico Buarque, a sua voz, o seu perfil, todo ele tinha alguma coisa de profundamente feminino. E isso era, de facto, inquietante. Com Caetano também era assim, mas Chico Buarque emanava, de facto, um entendimento feminino do mundo, era conhecedor da mulher por fora e por dentro.&lt;br /&gt;Sim, isto inquieta-a. O conhecimento dos outros de um pedaço de si própria é sempre inquietante. Está derramada por Chico Buarque, quer ouvir a sua voz. Tinha lido o romance anterior há coisa de três anos, quando estava, precisamente, em Budapeste. Só o lera por isso mesmo, porque estava em Budapeste e o livro tinha o nome da cidade. Mais nada. É verdade que tinha gostado do livro, mas apreciou mais a viagem e esqueceu o Chico Buarque ainda durante a estadia: o seu amor era outro, a leitura era acessória. Guardou, contudo, aquele livro na memória e revisitou-o.&lt;br /&gt;Comprou o Leite Derramado porque sim. Lê da mesma maneira como samba e era costume comprar livros porque sim. Também comprava livros por outras razões (por vezes pensava que os livros podiam desaparecer de repente de todas as estantes de todas as livrarias e isto assustava-a).&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Além de tudo isso, também gosta das capas da Dom Quixote, os relevos das letras atraem as pontas dos dedos e dos olhos. Era branca, &lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_zrr5D5KhAB8/Slr3i_i8yNI/AAAAAAAAEU8/SdMW__zG20o/s1600-h/00000219281.JPG"&gt;a capa&lt;/a&gt;. O Chico Buarque estava mais bonito com a idade, uma injustiça para os outros, que ficam, por norma, mais feios. Trouxe o livro para outro lugar e leu-o em três tempos: o primeiro tempo passou-se num quarto de hotel, o segundo tempo no comboio, o terceiro tempo no avião. Na verdade, talvez nada disto tenha acontecido, porque a sua sensação era a de que ouvira o Leite Derramado e não que o lera.&lt;br /&gt;Quando pensa no livro, lembra-se da &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=pPz10ycXrcg&amp;amp;feature=related"&gt;voz de Chico Buarque&lt;/a&gt; contando a história de um homem centenário que conta, por sua vez, a sua história para não se esquecer dela. Também conta a sua história para não ser esquecido. Nessa história fala da sua obsessão por Matilde, uma mulher "quase castanha" que colhe conchas na praia e ouve "maxixe e samba na vitrola". O homem centenário revive aquele amor, regressa àquele amor, repete esse amor. Também repete outras histórias. Conta tudo isto à enfermeira que se ocupa dele, à filha que o visita, ao neto, a toda a gente, a si próprio, a ninguém. Fala do Brasil, de escravos, de "mil oitocentos e lá vai fumaça", de mangas, capelas, portugueses, franceses, putas, vestidos, droga, religião e de outras coisas. Também fala das suas dúvidas, das suas angústias e convicções. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um discurso tão real como a voz de Chico Buarque dentro dele. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ouviu o livro e ficou derramada por Chico Buarque. Queria ouvir mais aquela voz e, enquanto não era hora de sair, vai ao Youtube. Ouve a &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=P7mHf-UCZp0"&gt;Construção&lt;/a&gt; como se fosse a última canção. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O Chico Buarque inquieta-a. E ela gosta.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-2545497322683254457?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/2545497322683254457/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=2545497322683254457' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/2545497322683254457'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/2545497322683254457'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/10/derramada-por-chico-buarque.html' title='Derramada por Chico Buarque'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-8471616389399172175</id><published>2009-10-05T17:02:00.005+02:00</published><updated>2009-12-14T17:03:58.139+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Discurso diarístico sem mim'/><title type='text'>Discurso diarístico sem mim – Parte II</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Não escrevia desde o &lt;a href="http://belgavista.blogspot.com/2009/09/discurso-diaristico-sem-mim-parte-i.html"&gt;segundo dia&lt;/a&gt;. Este facto era tão mau como o tempo em Bruxelas, mas entristecia-a ainda mais que o tempo em Bruxelas, porque o segundo dia tinha sido há muito tempo, quando o sol ainda não era um sonho na cidade escura. Não escrevia desde o segundo dia e apetece-lhe que isto não seja verdade. Pega, portanto, na tesoura de poda para cortar aquela raiz profunda e semear, no seu lugar, uma semente de escrita, que funcione ao contrário, de frente para trás, da direita para a esquerda, como a língua árabe, e reinvente o passado, em mil e uma noites. O Orhan Pamuk diz que passa 10 horas por dia a escrever. Diz também que acorda cedo, por isso adivinhamos que se sente à escrivaninha logo de manhã. Tenta imaginar o escritório de Orhan Pamuk, a possível janela de um segundo andar [ou terceiro ou quarto, não mais] sobre uma rua movimentada, com dois sentidos. Nisto doem-lhe os ombros e os olhos e os pés, bem como o coração, a cabeça e o estômago, como se tivesse escrito [ela e não ele], 10 horas sem parar. Explicava dentro da cabeça que, no fundo, assim era: tinha, afinal de contas, escrito sem parar e não apenas 10 horas, mas 10 dias seguidos, 10 meses, mil e uma noites, para trás e não para a frente, da direita para a esquerda e, portanto, talvez em hebraico. Tudo isto dentro da cabeça, porque, conforme insistia, escrevia dentro da cabeça. Ora, isto não era verdade. Já se sabe que ninguém escreve dentro da cabeça e os seus pensamentos, jamais tangíveis, são feitos de pombos e não de palavras: descem até à cidade e sobrevoam as casas ao sabor do vento ou contra ele, uns atrás dos outros, desaparecem nas esquinas mais escuras, em trajectórias que mais ninguém conhece. Passam também em frente à janela de Orhan Pamuk, mas não o vêem. Ele, sim. Vê-os. E ela vê-o a ver os pombos, gosta de o ver a ver os pombos. Coloca-o à janela para ele ver os pombos. Imagina Orhan Pamuk de pijama, de roupão, de fato de treino, de camisa branca, de t-shirt, não sabe que roupa escolher para Orhan Pamuk. Diz que escreve dentro da cabeça, mas ninguém lê o que escreve, por isso ninguém acredita. Ela também não lê o que escreve, portanto é possível que nem ela acredite. Pega na tesoura de poda, mas não consegue encontrar a raiz daquela falta profunda. Encolhe os ombros e fuma cigarros. Também escova os dentes várias vezes por dia e faz outras coisas, como falar ao telefone, comprar pijamas e chocolates. Um desperdício de tempo, de água, de dinheiro, de saúde, de latim. Não lhe faz bem não escrever: a cabeça fica cheia de pombos e não há espaço para uma praça, para um sopro, para uma janela, por isso os pombos não voam e bicam-lhe a cabeça sem parar, 10 horas seguidas, todos os dias. O sol já é um sonho na cidade sempre escura e ela decide escrever. Pensa em Orhan Pamuk e sente uma ponta de inveja. Talvez uma asa de inveja. Duas asas, um pombo, um bando inteiro de inveja. Está mau tempo em Bruxelas. Doem-lhe os ombros e os olhos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um pombo pousa no seu parapeito, mas ela não o vê. Está de costas. A escrever. Que azar.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-8471616389399172175?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/8471616389399172175/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=8471616389399172175' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/8471616389399172175'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/8471616389399172175'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/10/discurso-diaristico-sem-mim-parte-ii.html' title='Discurso diarístico sem mim – Parte II'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-4296052197889335481</id><published>2009-09-08T18:06:00.007+02:00</published><updated>2009-12-14T17:04:30.670+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Discurso diarístico sem mim'/><title type='text'>Discurso diarístico sem mim – Parte I</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Não escrevia desde o &lt;a href="http://belgavista.blogspot.com/2009/08/primeiro-dia.html"&gt;primeiro dia&lt;/a&gt;. Ora, esse dia [o primeiro] tinha sido há imenso tempo dentro e fora da cabeça e daquela dimensão que era o tempo a contar desde o primeiro dia à volta do sol e de si própria. Tinha, no entanto, uma enorme urgência &lt;em&gt;da&lt;/em&gt; escrita. Uma enorme urgência &lt;em&gt;para&lt;/em&gt; a escrita. &lt;em&gt;Na&lt;/em&gt; escrita. &lt;em&gt;Pela&lt;/em&gt; escrita. Dir-se-ia que a urgência da cabeça, do tronco e dos membros estava desfasada da tal dimensão à volta do sol. Ou que a urgência fazia parte da espera, não obstante a urgência. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A meio da tarde, a pálpebra inferior do olho direito saltava como o coração de um passarinho. Isto acontecia todas as tardes, por volta das 14 horas e 10 minutos, a hora perfeita dos relógios sem horas. Quem já teve um passarinho na mão, conhece o seu compasso acelerado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Assim saltava a pálpebra inferior do olho direito e isto incomodava o resto do corpo, o resto do tempo, o resto do mundo: tudo parecia estar em sintonia com o coração do passarinho, escondido atrás da pálpebra.&lt;br /&gt;O dia 8 de Setembro de 2009 parecia-lhe um óptimo dia para acabar com aquela espera que, como já se disse, não era uma espera, mas sim uma urgência estendida no tempo. O desfasamento entre o corpo e o tempo era tão grande que mais parecia um abismo.&lt;br /&gt;Dito isto, o abismo abriu-se de repente como uma boca ou como uma cortina ou como uma luz ao contrário [por ser negra] e o corpo caiu devido à gravidade ou à vontade de cair [não sabemos].&lt;br /&gt;A professora de português do 5.º ano chamava-se Lídia Inês Pinto e este nome parecia-lhe tão bonito que o corpo desfasado do tempo desconfiava que ela [a professora] era, afinal, uma das suas personagens. Tinha, no seu entender, que era pouco e parcial, um certo jeito para todos os nomes que não o seu e o nome daquela professora parecia-lhe seu e não dela [da professora]. Isto a propósito da escrita, porque a professora fictícia ou real [pouco importa] lhe disse, certa vez, que o discurso diarístico era o princípio da escrita. Depois explicou porquê, mas ela [a do abismo] não se lembrava da razão. Do resto, sim, lembrava-se. Tão claramente como do rio Tejo. Tinha algumas memórias [não muitas, não todas] e aquela era uma delas. A professora podia ser fictícia, mas o conteúdo era real.&lt;br /&gt;O princípio da escrita era, pois [talvez], o início do corpo: eventualmente, o tal coração de passarinho atrás da pálpebra inferior do olho direito.&lt;br /&gt;Para que se saiba, estava a ler o Livro do Desassossego. [Ah!, diz o leitor, daí o seu desassossego, a sua urgência, ou parte dele e parte dela.] Também lia outras coisas ao mesmo tempo, mas o Livro do Desassossego era o princípio de outras coisas. Também fazia parte daquele princípio, mesmo que &lt;em&gt;a posteriori&lt;/em&gt; do princípio.&lt;br /&gt;O abismo, de natureza opaca e rugosa, assustava-a, por isso susteve a respiração durante a queda. Também fechou os olhos. Por causa disso ou apesar disso, o coração de passarinho atrás da pálpebra inferior do olho direito parou de bater e houve, dentro da cabeça, um pressentimento de morte.&lt;br /&gt;A morte do coração atrás da pálpebra era, naturalmente, uma coisa boa, porque matava de uma vez por todas, não a urgência, não a saudade, mas, pelo menos, o tempo [perdido]. Assim pensava o coração original, maior do que certos pássaros, e, correndo desvairado, soprou sangue, vento, poeira e escrita pela cabeça, o tronco e os membros. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Era o segundo dia.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-4296052197889335481?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/4296052197889335481/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=4296052197889335481' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/4296052197889335481'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/4296052197889335481'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/09/discurso-diaristico-sem-mim-parte-i.html' title='Discurso diarístico sem mim – Parte I'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-3010957260056428841</id><published>2009-08-10T18:49:00.013+02:00</published><updated>2009-12-14T17:23:15.830+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias de mim'/><title type='text'>Primeiro dia</title><content type='html'>&lt;object height="295" width="480"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/-uVj_LCMv70&amp;amp;hl=en&amp;amp;fs=1&amp;amp;"&gt;&lt;param name="allowFullScreen" value="true"&gt;&lt;param name="allowscriptaccess" value="always"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/-uVj_LCMv70&amp;amp;hl=en&amp;amp;fs=1&amp;amp;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="480" height="295"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;No primeiro dia, a rapariga ficou mais velha. Acordou de manhã e viu isso mesmo, que estava mais velha. A constatação passou-se em frente ao espelho, mas o envelhecimento não, tinha sucedido provavelmente antes, durante a noite. A rapariga só dera por ela de manhã e olhou para si própria em frente ao espelho. Fenómeno esquisito.&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;Depois foi fazer café. A rapariga, agora mais velha, pensou que não era mau envelhecer.&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;a href="http://belgavista.blogspot.com/2008/06/o-homem-ilimitado.html"&gt;O homem ilimitado&lt;/a&gt; andava à solta pela casa e assobiava ilimitadamente. A rapariga chamou-o como quem chama um pássaro, mas o homem ilimitado não era um pássaro porque era mais parecido com o Peter Pan: tinha uma terra longínqua dentro dele. Além disso, tinha asas nas mãos, nos pés, nas orelhas, nos cabelos. Também tinha voos no corpo e muitos ventos. Não era um pássaro.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A rapariga, agora mais velha, ligou a música. Ouvia &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/M._Ward"&gt;M. Ward&lt;/a&gt; dia sim, dia não: num dia passava os minutos todos atrás dele, no dia seguinte ignorava-o, para que ele fosse atrás dela. Uma história de amor como as outras. Naquele domingo, por exemplo, a rapariga não ouviu M. Ward, o que foi uma pena, porque o M. Ward tinha sido a banda sonora perfeita para aquele primeiro dia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A rapariga, agora mais velha, comia torradas despreocupadas com ovos mexidos. O homem ilimitado também. Falavam de boca cheia porque queriam comer e falar ao mesmo tempo.&lt;br /&gt;Não, não era mau envelhecer. Desde que houvesse pão e café de manhã. Desde que a música tocasse aos domingos. E o homem ilimitado assobiasse. Ilimitadamente. À solta pela casa.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-3010957260056428841?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/3010957260056428841/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=3010957260056428841' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/3010957260056428841'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/3010957260056428841'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/08/primeiro-dia.html' title='Primeiro dia'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-4197357482787239393</id><published>2009-08-07T15:23:00.008+02:00</published><updated>2010-03-16T14:03:07.005+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Das personagens de verdade'/><title type='text'>Não obstante as brumas</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Aquela rapariga anda de sandálias brancas não obstante as brumas e a inevitabilidade da chuva. Anda contente de pés ao léu, ostentando as suas unhas lindíssimas, pintadas de fresco.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A rapariga de sandálias brancas acredita piamente no Verão, mesmo que daqui a pouco ande a chapinhar em poças de água. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Outras raparigas acreditam noutras coisas. Aquela acredita no Verão. (As raparigas arabescas, por exemplo, que andam por aí encarapuçadas como criminosas acreditam em coisas mais invernais e, portanto, menos iluminadas.)&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A rapariga de sandálias brancas e unhas pintadas de fresco atravessa a rua e polvilha a estrada de Verão, qual Sininho na terra do sempre.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quase desejamos que chova para a ver chapinhar na água.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Em Bruxelas, o Verão é assim. Uma questão de atitude. De crença. E não uma estação.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O autor e o narrador converteram-se. E vão pintar as unhas dos pés.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-4197357482787239393?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/4197357482787239393/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=4197357482787239393' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/4197357482787239393'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/4197357482787239393'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/08/nao-obstante-as-brumas.html' title='Não obstante as brumas'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-50960914331500719</id><published>2009-08-04T17:14:00.005+02:00</published><updated>2009-12-14T17:04:58.457+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Da escrita'/><title type='text'>Os que escrevem</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Os que escrevem nem sempre escrevem. Às vezes fazem outras coisas. Por norma fazem outras coisas. O autor e o narrador deste texto supõem que os outros, que fazem outras coisas, também escrevem. Os que escrevem nem sempre escrevem. Por vezes mascam pastilhas elásticas. Andam de comboio. Vão ao mercado. São iguais aos que fazem outras coisas, só que preferem escrever a fazer outras coisas. O autor deste texto, na verdade, prefere comer chocolate a escrever. O narrador não, gosta mais de escrever. Por vezes nem o autor nem o narrador escrevem, ficam a meio, entre o pensamento e a escrita. Por vezes a palavra é mais bonita entre o pensamento e a escrita. Por norma a palavra é mais bonita entre o pensamento e a escrita. Às vezes os que escrevem lêem o que os outros escrevem. Gostam do que os outros escrevem. Têm inveja do que os outros escrevem. Às vezes têm medo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Uns escrevem mais que os outros, melhor que os outros, mais forte que os outros, mais opaco. Os que escrevem só têm isso em comum: escrevem. Nem todos os que escrevem são escritores. A maioria é outra coisa. Alguns são tradutores. Ou medíocres. Ou as duas coisas. Os que traduzem põem noutra língua o que os outros escrevem. Os que escrevem também viajam. Também compram pão. Também vão à livraria Galileu em Cascais comprar o &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=yCOaoWRVJ1k"&gt;último romance do José Eduardo Agualusa&lt;/a&gt;. Também vão à praia. E a Aveiro. No comboio. Alfa pendular. Os que escrevem nem sempre escrevem no comboio. Às vezes ouvem música. Ou lêem o que os outros escrevem. Ou fazem as duas coisas ao mesmo tempo. Outras vezes não fazem nada. Mascam pastilhas elásticas. Ou olham para a capa do último romance do José Eduardo Agualusa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Os que escrevem têm medo. Da noite. Do dia. Do lobo mau. Dos cabelos negros do Agualusa. De Angola. Os que escrevem compram livros, mas nem sempre os lêem. Os que escrevem são iguais aos outros. Medíocres, pequeninos, invejosos. São iguais aos que fazem outras coisas, só que preferem escrever a fazer outras coisas. Só isso. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tenho medo do José Eduardo Agualusa.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-50960914331500719?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/50960914331500719/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=50960914331500719' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/50960914331500719'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/50960914331500719'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/08/os-que-escrevem.html' title='Os que escrevem'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-5668662834830645021</id><published>2009-07-28T18:15:00.006+02:00</published><updated>2009-12-10T10:49:23.918+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cinema'/><title type='text'>Johnny Depp</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Neste fim-de-semana tive vontade de dar um par de estalos no Johnny Depp. Um estalo com a palma da mão direita e outro com as costas da mão direita, tudo isto em dois segundos: &lt;em&gt;traz&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;traz&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;Há quase 20 anos, na altura da série &lt;a href="http://www.imdb.com/title/tt0092312/"&gt;21 Jump Street&lt;/a&gt;, o Johnny Depp era-me tão indiferente como bróculos cozidos, mas agora já não é assim. Gosto dele como de queijo fresco e eu gosto muito de queijo fresco.&lt;br /&gt;Comecei a ter um fraquinho pelo Johnny Depp na altura do &lt;a href="http://www.imdb.com/title/tt0162661/"&gt;cavaleiro sem cabeça&lt;/a&gt;, por causa do rosto muito branco e do fato muito negro, o seu ar sombrio que trazia à memória os vestígios das suas inesquecíveis &lt;a href="http://www.imdb.com/title/tt0099487/"&gt;mãos de tesoura&lt;/a&gt;. O Johnny Depp tinha, já nessa altura, o Bem e o Mal no corpo, a Bela e o Monstro.&lt;br /&gt;Este contraste cativa-me.&lt;br /&gt;Quando se vestiu de &lt;a href="http://www.imdb.com/title/tt0367594/"&gt;Willy Wonka&lt;/a&gt;, quis saltar para dentro da sua cartola para entrar na sua cabeça. Também simpatizei com a sua madeixa branca e com o seu rosto ainda mais obscuro em &lt;a href="http://www.imdb.com/title/tt0408236/"&gt;Sweeney Todd&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;Todas estas personagens e também o facto de Johnny Depp ter encarnado, a certa altura, &lt;a href="http://www.imdb.com/title/tt0308644/"&gt;Sir James Matthew Barrie&lt;/a&gt; fizeram com que lhe perdoasse todos os disparates, incluindo o bigode e a pêra que usou naquele filme enjoativo sobre &lt;a href="http://www.imdb.com/title/tt0241303/"&gt;chocolate&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;Mas só quando Johnny Depp perdeu definitivamente o tino e pintou os olhos de negro para se transformar em &lt;a href="http://www.imdb.com/title/tt0325980/"&gt;Jack Sparrow&lt;/a&gt; é que tive vontade de me atirar ao mar e procurar aquele pirata improvável.&lt;br /&gt;Ora, neste fim-de-semana fui ver o &lt;a href="http://www.imdb.com/title/tt1152836/"&gt;Public Enemies&lt;/a&gt;. O Johnny Depp é, nem mais nem menos, John Herbert Dillinger, o bandido americano mais procurado dos anos 30 que assalta bancos como quem rouba ameixas no quintal do vizinho. Johnny Depp anda com uma arma por baixo do sovaco, veste fato completo com colete no meio, frequenta bares de jazz e conquista a belíssima Marion Cotillard com duas frases: &lt;em&gt;I like baseball, movies, good clothes, whiskey, fast cars... and you. What else you need to know?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Isto passou-se no filme, como é evidente, porque, na vida real, qualquer mulher – especialmente a Marion Cotillard – teria passado por cima de Johnny Depp, calcando-o cuidadosamente com os finíssimos saltos altos. Na vida real, com esta deixa, só Al Pacino teria levado a rapariga para casa. Mesmo o Robert De Niro não teria conseguido mais do que um beijinho na testa.&lt;br /&gt;O Johnny Depp é ridículo num papel igual aos outros, porque não é um homem igual aos outros. O Johnny Depp é especial de corrida, tem de ser tratado como tal. O Johnny Depp devia ser fustigado por tentar ser igual aos outros.&lt;br /&gt;Tenho a certeza de que Marion Cotillard não pensaria duas vezes, se tivesse pela frente o pirata das Caraíbas. Também ela se atiraria ao mar.&lt;br /&gt;O Johnny Depp é um saltimbanco e não um assaltante de bancos. E devia levar um par de estalos para ver se aprende a lição.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-5668662834830645021?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/5668662834830645021/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=5668662834830645021' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/5668662834830645021'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/5668662834830645021'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/07/johnny-depp.html' title='Johnny Depp'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-8440562290714371302</id><published>2009-07-24T16:34:00.006+02:00</published><updated>2009-12-22T10:09:15.928+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos do outro mundo'/><title type='text'>Teoria da Revolução das Espécies</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O professor Alberto Gago e Esperto é antropólogo de formação mas, para sobreviver, trabalha como outra coisa qualquer. Nos tempos livres dedica-se, contudo, à observação disciplinadíssima de pessoas seleccionadas ao calhas. Um exemplo clássico desta sua actividade como antropólogo é sentar-se num restaurante e ficar a observar um casal qualquer. Durante um longo período de tempo, o professor Alberto Gago e Esperto tira imensas notas e, caso haja informações relevantes, persegue o casal durante horas, se não mesmo dias ou semanas ou meses. Casos houve em que prolongou a sua observação durante anos, seguindo as pessoas escolhidas de carro ou a pé, no metro, no autocarro ou até de bicicleta. Por vezes entrevistava as suas pessoas de laboratório, interrogava-os à porta de casa, observava as suas línguas, apalpava as suas glândulas salivares, testava os seus reflexos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Para o ajudar na sua difícil tarefa, trazia vários instrumentos enfiados numa mala de pele rectangular: um par de binóculos, uma máquina de filmar, um gravador de voz, um iPhone, um computador portátil, uma máquina fotográfica, um estetoscópio, um esfigmomanómetro, um bloco de notas A4, meia dúzia de canetas BIC e um enorme arquivo com o historial dos seus humanos. O professor Alberto Gago e Esperto passou anos nisto (na verdade, décadas) e queria agora publicar um livro com a sua teoria da evolução das espécies que, segundo nos conta, vai mais longe que a de Darwin. Isto porque, desde a Guerra Fria, o ser humano estava a viver um momento único na sua evolução. Os olhinhos do professor Alberto Gago e Esperto brilharam quando disse estas palavras. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Na sequência da sua observação, tinha reunido dados suficientes que permitiam concluir que o ser humano estava, não a evoluir, mas sim a regredir. Ou seja, a evoluir "ao contrário, para trás". Claro que a regressão era, também ela, uma evolução, pelo que o professor Alberto Gago e Esperto intitulou a sua teoria, não de regressão, mas de &lt;em&gt;revolução&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;Para este antropólogo, os factos estavam à vista de todos. Os seres humanos andavam cada vez mais corcundas e tinham feições cada vez mais feias, bastava andar pelas ruas das capitais europeias para perceber isso. As mulheres de hoje tinham visivelmente muito mais pêlos do que antigamente e os homens recomeçavam a comer de boca aberta e eram cada vez mais agressivos. No curto espaço de meio século, era possível ver toda esta regressão (ou melhor, revolução). As próprias classes dirigentes andavam mais animalescas. As trombas do presidente iraniano e os cornos de Manuel A. A. Pinho ilustravam claramente esta tendência. Na sua opinião científica, era possível que, nas próximas três gerações, nascesse o primeiro australopiteco. Isto porque a revolução das espécies se estava a dar muito mais rápido do que a evolução. As pessoas eram cada vez menos inteligentes e tomavam atitudes cada vez mais irracionais.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;No final desta conversa, o professor revelou uma outra hipótese ainda por comprovar. O professor Alberto Gago e Esperto previa que, no futuro, o ser humano menos sapiente fosse domesticado por uma espécie mais inteligente. Os sinais de hoje pareciam apontar nesse sentido: as pessoas já não tinham ideologias mas queriam seguir quem as guiasse, além de que eram cada vez mais carentes e desorientadas. As observações do professor sobre os acessórios femininos são também extremamente perspicazes no atinente à domesticação da espécie humana&lt;sup&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;1&lt;/span&gt;&lt;/sup&gt;.&lt;br /&gt;A pergunta que se coloca é saber quem será a espécie domesticadora. Mas esta teoria, promete o professor Alberto Gago e Esperto, ficará para um outro livro.&lt;br /&gt;É, pois, com impaciência que aguardamos a publicação desta revolucionária &lt;em&gt;Teoria da Revolução das Espécies&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;sup&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;1 &lt;/span&gt;&lt;/sup&gt;&lt;em&gt;"As mulheres ocidentais do século XXI cobrem os pulsos de pulseiras que tilintam com qualquer movimento do corpo. Ora, o som destas pulseiras é muito semelhante ao dos chocalhos das ovelhas. Não me parece que esta semelhança seja uma coincidência."&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-8440562290714371302?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/8440562290714371302/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=8440562290714371302' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/8440562290714371302'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/8440562290714371302'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/07/teoria-da-revolucao-das-especies.html' title='Teoria da Revolução das Espécies'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-5451858778923804871</id><published>2009-07-22T18:58:00.004+02:00</published><updated>2009-12-10T11:35:47.702+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias do real'/><title type='text'>Mohammed Ajmal Amir Kasab</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O narrador deste texto anda a pensar em &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Ajmal_Kasab"&gt;Mohammed Ajmal Amir Kasab&lt;/a&gt; há dois dias. O autor deste texto também, mas não pelos mesmos motivos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Vejamos: o narrador deste texto interessa-se por Mohammed Ajmal Amir Kasab, pela pessoa de 21 anos; o autor não, está-se profundamente nas tintas para este paquistanês.&lt;br /&gt;O narrador pensa em Mohammed Ajmal Amir Kasab e vê o indivíduo, lamenta o indivíduo, não o compreende, não o aceita e anda preocupado precisamente com o seguinte: se encontrar na rua o rapaz de nome Mohammed Ajmal Amir Kasab, não sabe o que dizer-lhe. Isto porque o narrador deste texto fica de rastos sempre que lhe faltam as palavras, parte do princípio de que o diálogo não é possível sem as palavras. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ora, a verdade é que o narrador deste texto gostaria de ter uma coisa clarividente para dizer a este rapaz. Uma coisa única, extraordinária, brutal, capaz de mudar o jovem capaz de matar dezenas de pessoas. O narrador deste texto gostaria de o encontrar na rua e de lhe dizer uma coisa capaz de mudar o mundo. Apenas isto.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O narrador, por lhe faltar o corpo, tem destas presunções, mas o autor deste texto não o leva a sério, como é evidente. Desce a rua, sem lhe prestar atenção.&lt;br /&gt;O autor não esconde que também anda a pensar em Mohammed Ajmal Amir Kasab, mas, na prática, não quer saber do rapaz. Quando pensa nele, pensa nos atentados de Bombaim, como é natural, e depois deixa logo de pensar em Bombaim e na Índia e no mundo, passa a pensar só na Europa e, logo a seguir, só na sua casa. O autor, quando pensa em Mohammed Ajmal Amir Kasab, espera o seguinte: que o terrorismo não chegue a Bruxelas. Depois distrai-se com esta ideia, pensa nos potenciais alvos para um ataque terrorista nesta capital europeia e tem pena de estar ao pé de todos eles. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Enquanto desce a rua, o autor acha todas estas suposições mais mórbidas do que o livro sobre vampiros que anda a ler, por isso resolve pensar noutra coisa. Regressa a Mohammed Ajmal Amir Kasab e pensa novamente em Bombaim, na tal estação de comboios. Depois distrai-se outra vez e começa a planear uma viagem nos comboios indianos. Lembra-se do anúncio "Incredible India" que tanto passa na BBC, lembra-se do filme &lt;a href="http://www.imdb.com/title/tt1010048/"&gt;Slumdog Millionaire&lt;/a&gt;. Gostaria de ir, por exemplo, a Goa, ao Taj Mahal, a Deli. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O autor deste texto anda evidentemente preocupado com o seu umbigo e, a propósito disso, pensa em Mohammed Ajmal Amir Kasab. Não anda propriamente preocupado com o rapaz paquistanês de 21 anos.&lt;br /&gt;O narrador deste texto sim, anda preocupado com o rapaz de 21 anos, porque é europeu e acredita na carta dos direitos fundamentais, nomeadamente no artigo 2.º relativo ao direito à vida. Mas enquanto desce a rua enfiado no capuz do autor assusta-se com a ideia de encontrar Mohammed Ajmal Amir Kasab ao virar da esquina, tem vergonha da sua incapacidade para o diálogo, deixa de perceber a razão da sua existência. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O autor deste texto também é europeu mas, antes de mais, é humano, tem um corpo a sério e uma vida pela frente. O narrador não, tem uma existência intermitente: aparece e desaparece no capuz do autor. Indiferente a tudo isto, o autor desce a rua e pensa agora em Gandhi, nos seus ensinamentos. Volta a pensar no seu umbigo e depois em Mohammed Ajmal Amir Kasab. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Repete na sua cabeça a esperança de que o terrorismo não chegue a Bruxelas. Depois pensou em coisas boas. Por exemplo, no facto de o rapaz estar a ser julgado na Índia. Essa era uma coisa boa. Por a Índia ser um país longínquo. E por aí se aplicar a pena de morte. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O narrador fica tão chocado com o pensamento do autor que decide morrer. Atira-se do capuz e morre. Não obstante o seu direito à vida.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-5451858778923804871?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/5451858778923804871/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=5451858778923804871' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/5451858778923804871'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/5451858778923804871'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/07/mohammed-ajmal-amir-kasab.html' title='Mohammed Ajmal Amir Kasab'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-1431187585514994158</id><published>2009-07-20T16:33:00.012+02:00</published><updated>2009-12-10T11:36:18.137+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias do real'/><title type='text'>Da noite e do espaço</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;a href="http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1392487&amp;amp;idCanal=13"&gt;40 anos da chegada do Homem à Lua&lt;/a&gt;.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sonhava muitas vezes que voava até à última nuvem e mergulhava para fora da Terra. O voo era tão silencioso que deixava de ser e o corpo caía devagar. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;No Espaço. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Trazia vestido um fato de astronauta e a respiração repetia-se na cabeça como as ondas da praia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O Espaço era igual à noite. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Havia certas luzes que interrompiam a escuridão e, portanto, muitas sombras. Havia também sons desconhecidos, tão misteriosos e longínquos que era necessário conter a respiração para ouvi-los.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O corpo vestido de astronauta boiava no Espaço de planeta em planeta, assistia ao nascer de outros sóis. Nem sempre sabia regressar à Terra. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O ar expirado embaciava o visor, por isso também era preciso conter a respiração para contemplar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nos sonhos bons, a Terra resplandecia inteira num outro céu e os lobos uivavam para ela. O corpo regressava, então, a casa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nos sonhos maus, a Terra não estava à vista e o corpo perdia-se para sempre no Espaço.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Aquele astronauta tinha, como é natural, um certo fascínio pelo Espaço. Mas gostava mais da Terra. Muito mais da Terra.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Vista do Espaço.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-1431187585514994158?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/1431187585514994158/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=1431187585514994158' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/1431187585514994158'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/1431187585514994158'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/07/da-noite-e-do-espaco.html' title='Da noite e do espaço'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-4366010330939654727</id><published>2009-07-14T12:55:00.005+02:00</published><updated>2009-12-10T12:10:42.481+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Das personagens de verdade'/><title type='text'>Senhora Eleonora</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Durante a hora de almoço estivemos a observar a senhora Eleonora. Para isso, tivemos de dobrar os nossos olhos como sinos porque a senhora Eleonora estava sentada na mesa do lado. Decidimos observar a senhora Eleonora por ela ser muito gorda e saltar, por isso mesmo, à vista. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A julgar pelo volume do peito, a senhora Eleonora podia ser prima-dona de profissão, vocação e temperamento, mas rapidamente concluímos que não era.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Uma pena. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quando a comida chega, a senhora Eleonora recebe-a de braços literalmente abertos. Pega no garfo com a mão inteira e enrola com pressa um novelo de massa, que enfia de uma só vez na enorme boca. Temos fome só de a ver.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A senhora Eleonora não está sozinha. À sua frente, uma mulher magra desinteressante conta qualquer coisa e a senhora Eleonora come e cala. De vez em quando pressiona um guardanapo na boca e bebe um trago de água sem gás. No final de um relato visivelmente cómico, a senhora Eleonora dá uma gargalhada profunda e engasga-se porque ri, bebe e come ao mesmo tempo. A gargalhada, interrompida por uma curtíssima tosse, deixa adivinhar a enorme caixa-de-ar e nós temos novamente pena de a senhora Eleonora não ser prima-dona. Isto porque, tendo em conta a simpleza do apetite, não restam dúvidas de que a senhora Eleonora não actua nas óperas das grandes cidades. Desejamos, portanto, que a sua profissão e atitude na vida sejam tão prezáveis como as de uma prima-dona. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A senhora Eleonora fala agora de olhos esbugalhados e a sua voz é tão poderosa que queremos ouvir a sua história. Infelizmente nenhum de nós parla italiano, por isso não percebemos a história certamente animadíssima, pois já se sabe que as pessoas gordíssimas e respectivas histórias são, por norma, mais animadas do que as outras pessoas e as outras histórias, por causa do enorme apetite que têm por todos os prazeres da vida. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A senhora Eleonora regressa à massa com a sua mão sapuda e domina-a facilmente. Ri enquanto come, mas agora já não se engasga.&lt;br /&gt;Observamos a indumentária da senhora Eleonora e reparamos, em primeiro lugar, nos enormes brincos redondos e cor-de-rosa que apontam para a frente no final dos caracóis. Descendo pelo pescoço, apercebemo-nos de que o colar é feito das mesmas esferas cor-de-rosa. Ora, isto causa-nos um certo espanto. Dir-se-ia que a senhora Eleonora, além de ser gorda, ostenta este facto nas orelhas e no pescoço, orgulhosa das suas formas redondíssimas. Nunca tínhamos visto uma mulher deste tamanho com tanta vocação para ser gorda.&lt;br /&gt;Estamos conquistados, por isso observamo-la ainda.&lt;br /&gt;No final da refeição, quando já nada há no prato, enquanto a mulher magra e desinteressante vai dizendo uma outra coisa, a senhora Eleonora pega num pedaço de pão e arrasta-o pelo prato, desenhando círculos perfeitos. Enquanto come olha para o prato imaculado, à procura de vestígios. Não encontra. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Está visto: a senhora Eleonora adora ser gordíssima. Por esta razão, temos imensa pena de não sermos tão gordos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;No final desta hora de almoço, damos graças a Deus Nosso Senhor por a senhora Eleonora não ser prima-dona.&lt;br /&gt;Só então nos apercebemos de que não acreditamos em Deus.&lt;br /&gt;Dizemos em tom de correcção: Ainda bem que a senhora Eleonora não é prima-dona. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Repetimos: Ainda bem.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pois não seria tão graciosa nem tão sublime.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E isso seria lamentável.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-4366010330939654727?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/4366010330939654727/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=4366010330939654727' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/4366010330939654727'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/4366010330939654727'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/07/senhora-eleonora.html' title='Senhora Eleonora'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-6399868936036360120</id><published>2009-07-06T17:37:00.019+02:00</published><updated>2009-12-10T11:36:46.953+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias do real'/><title type='text'>Das raízes</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;A propósito de um post da &lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;a href="http://nocinzentodebruxelas.blogspot.com/"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Pitucha&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/a&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt; sobre esta &lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;a href="http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1390053&amp;amp;idCanal=14"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;notícia&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/a&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Uma mulher de nome Maria decidiu cortar as raízes que trazia nos pés. Ora, não era costume as pessoas andarem por aí a cortar as raízes dos pés, na verdade nunca se tinha ouvido falar de tal prática. Diga-se que a mulher de nome Maria também não gostava propriamente de cortar: parecia-lhe um verbo demasiado definitivo e tinha medo do arrependimento. Contudo, a mulher de nome Maria estava muito habituada a usar a tesoura no seu dia-a-dia e não via nenhum problema em cortar também as raízes.&lt;br /&gt;Tinha, por exemplo, o hábito de cortar as unhas das mãos. Outras mulheres e outros homens também cortavam as unhas das mãos, mas algumas pessoas roíam-nas simplesmente e outras deixavam-nas crescer até que elas se partissem. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A mulher de nome Maria preferia cortar as unhas das mãos e fazia-o com alguma regularidade. Também não se importava de cortar as unhas dos pés, embora tal implicasse um esforço físico maior que exigia desenterrar as pernas, lavar os dedos, cortar as unhas onduladas e voltar a enterrar as pernas até aos joelhos. Ora, isto era extremamente custoso, além de que ninguém via as unhas dos pés da mulher de nome Maria por estarem precisamente enterradas com os ditos pés.&lt;br /&gt;Em dias especiais cortava também os cabelos. Nessas alturas não cortava o cabelo a si própria: ia ao cabeleireiro e uma outra pessoa cortava o seu cabelo. Outros seres humanos também iam ao cabeleireiro cortar o cabelo, mas também havia quem cortasse o cabelo em casa, em frente ao espelho.&lt;br /&gt;Naquele dia, porém, a mulher de nome Maria decidiu cortar as raízes. E sem dramatismos, agarrou na tesoura e cortou.&lt;br /&gt;O corte em si não foi doloroso, porque não implicava nenhuma cirurgia, apenas uma manobra parecida com a poda, porque as raízes, como todos sabemos, são como os cabelos e as unhas: voltam a crescer indefinidamente e, em excesso, não fazem falta. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A mulher de nome Maria disse ainda: "Já não pertenço a esta terra" e deitou a terra fora. Como não podia sobreviver sem terra, escolheu uma terra nova para passar o tempo. Escolheu também um vaso novo, de terracota. Deitou o antigo fora, que era da Vista Alegre. Empurrou o vaso novo até à janela, para apanhar mais sol.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Depois atirou-se para dentro do vaso e enterrou-se até aos joelhos.&lt;br /&gt;As outras mulheres e os outros homens ficaram muito indignados. Disseram que ninguém podia cortar as raízes, por isso, esquecendo-se das suas outras raízes católicas, atiraram pedras à mulher de nome Maria, que se estava profundamente nas tintas, porque o seu lugar ao sol estava longe dos seres humanos indignados e as pedras não a alcançavam.&lt;br /&gt;Ora, o narrador e o autor deste texto jamais cortariam as suas raízes, apesar de terem mudado de terra há cerca de cinco anos. Gostam de ter as mesmas raízes do início. A mulher de nome Maria não. Nós - autor e narrador - não vemos problema nisso. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Até porque a pátria, como disse um certo mestre desta pátria, é a nossa língua e a mulher de nome Maria, falando português, gostava mais de ser brasileira. Por causa do samba, imaginamos. Nós compreendemos e aceitamos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pena a mulher de nome Maria estar enterrada até aos joelhos. Senão, até podia sambar como os brasileiros.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas assim, enterrada como está, não pode. Deve ser estranho uma pessoa ser estrangeira na sua própria terra. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O que vale à mulher de nome Maria é o piano. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E a ortografia, que é milagrosamente a mesma.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-6399868936036360120?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/6399868936036360120/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=6399868936036360120' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/6399868936036360120'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/6399868936036360120'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/07/das-raizes.html' title='Das raízes'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-6649814601067985884</id><published>2009-07-03T16:34:00.006+02:00</published><updated>2009-07-03T16:56:00.705+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='A Casa'/><title type='text'>A casa (VI)</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;O Belgavista faz 2 anos amanhã.&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;E eu resolvi mudar o papel de parede. &lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Acordava de manhã e nem sempre a casa lhe parecia igual. O chão estava, por vezes, muito inclinado e as janelas um pouco mais estreitas. Para se certificar de que aquela era a sua casa, cheirava as paredes e reconhecia nelas as memórias de outras casas, de outras cómodas, de outros espelhos, candeeiros, cadeiras, livros. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não era bom tocar nas paredes logo pela manhã, eram muito frias. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ideia: Um dia haveria de comprar um papel de parede para o seu quarto. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Imaginou todas as formas, todos os desenhos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ideia: Ou então talvez bastasse pintar as paredes de várias cores. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;As cores do arco-íris, as cores primárias, as cores do mar. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Depois desistiu de todas estas ideias, continuou a cheirar as paredes. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tinha medo de subir o escadote e o tecto do seu quarto era muito alto.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Resolveu comprar um quadro. O filho de um quadro. Um pedaço de um quadro. Só não sabia qual. Não gostava especialmente de nenhum artista, mas sim de alguns quadros de determinados artistas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Naquela sexta-feira, foi ao centro da cidade e, inesperadamente, apaixonou-se. Por um homem sem rosto, atrás de uma maçã, um filho de outro homem. Gostava, acima de tudo, do chapéu do tal homem atrás da maçã, tentava adivinhar o seu rosto. Comprou, naturalmente, uma reprodução daquele &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/The_Son_of_Man"&gt;quadro&lt;/a&gt;. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Colocou-o na parede virada a Norte e contemplou-o durante várias horas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Estava deveras apaixonada pelo homem atrás da maçã, por isso abraçava-o.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Depois começou a falar para as paredes.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E nunca mais saiu de casa.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-6649814601067985884?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/6649814601067985884/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=6649814601067985884' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/6649814601067985884'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/6649814601067985884'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/07/casa-vi.html' title='A casa (VI)'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-4391125343382237203</id><published>2009-07-01T17:21:00.008+02:00</published><updated>2009-12-10T11:37:01.552+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias do real'/><title type='text'>Coração Independente Dourado</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Gostaríamos de trazer pela mão um coração dourado. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não um cão, não um papagaio, não um brinquedo nem uma criança. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Gostaríamos de trazer pela mão um coração dourado. Independente. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Maior do que o corpo, do que as portas das casas. Mais aberto do que as janelas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um coração impossível, flutuando no ar como uma nuvem. Como um balão. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Gostaríamos de trazer pela mão um &lt;a href="http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1389654&amp;amp;idCanal=41"&gt;coração independente dourado&lt;/a&gt;. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Para respirarmos mais alto. Mais profundo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mais ar, mais sentimento. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um coração maior do que o corpo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Para sermos mais humanos, mais transparentes. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E percorreríamos as ruas da cidade para que os outros vissem o nosso coração, sentissem o nosso pulsar. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Para que tocassem nos nossos ventrículos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Bem que nós gostaríamos de percorrer a cidade trazendo pela mão aquele coração dourado. E partilhar todo aquele sangue, todo aquele amor, todo aquele engenho, para os quais nunca tivemos corpo nem alma nem tempo. Nem arte.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-4391125343382237203?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/4391125343382237203/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=4391125343382237203' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/4391125343382237203'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/4391125343382237203'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/07/coracao-independente-dourado.html' title='Coração Independente Dourado'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-2130479294843106186</id><published>2009-06-23T18:39:00.005+02:00</published><updated>2009-12-22T10:10:09.575+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias do corpo e da alma'/><title type='text'>A Forma e o Conteúdo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A Forma e o Conteúdo apanhavam juntos o autocarro para a escola e sentavam-se ao lado um do outro. Quando a Forma não ia à escola, o Conteúdo ficava triste. O mesmo se passava com a Forma, quando lhe faltava o Conteúdo. Davam-se bem.&lt;br /&gt;Ora, um dia, estavam a Forma e o Conteúdo a ouvir uma música da Lisa Hannigan em casa da Forma, quando o Conteúdo disse à Forma:&lt;br /&gt;- Amo-te.&lt;br /&gt;A reacção da Forma foi estranha: agarrou no comando e desligou a aparelhagem de música. Depois voltou a ligá-la. Demorou-se com o comando porque queria pôr a mesma &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=WSaPbVjcrp4&amp;amp;feature=channel_page"&gt;canção&lt;/a&gt;. A Lisa Hannigan regressou àquele espaço. E a Forma rebolou na direcção oposta ao Conteúdo.&lt;br /&gt;Ele não se importou: gostava de ver a Forma rebolar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O Conteúdo era profundo no sentimento. A Forma era mais pragmática, imaginava um beijo e não uma palavra. Coerente consigo própria, não disse nada.&lt;br /&gt;O Conteúdo também não, embora por outros motivos. Tinha a consistência de uma nuvem: quando se mexia, os seus movimentos nasciam desagregados. A Forma pensava que, se o abraçasse, o Conteúdo ganharia mais consistência. Este pensamento agradava-a, por isso aumentou o volume da aparelhagem.&lt;br /&gt;A certa altura, cerca de quatro minutos depois, a canção chegou ao fim.&lt;br /&gt;Acabava-se o pretexto, portanto despediram-se. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O Conteúdo pôs a mochila às costas e foi-se embora.&lt;br /&gt;A Forma encheu o peito de ar, por isso ficou um pouco maior do que antes.&lt;br /&gt;O Conteúdo tropeçava nas próprias pernas descendo a rua. A vontade de andar era maior do que o corpo. O Conteúdo pensou que, se fosse uma ave, tudo seria mais fácil. Depois pensou noutra coisa, designadamente que o amor era difuso, confuso, complicado.&lt;br /&gt;E assim era.&lt;br /&gt;Assim seria. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas não para sempre. Só o tempo suficiente. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Para o amor ganhar forma. Nada mais.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-2130479294843106186?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/2130479294843106186/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=2130479294843106186' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/2130479294843106186'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/2130479294843106186'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/06/forma-e-o-conteudo.html' title='A Forma e o Conteúdo'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-7157860715335500062</id><published>2009-06-02T18:56:00.005+02:00</published><updated>2009-12-10T11:51:15.455+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias de mim'/><title type='text'>Facebook, o livro dos rostos</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Um certo rosto está no livro dos rostos, tem uma página no livro dos rostos, por isso passa muito tempo com os seus rostos e os rostos dos outros. Todos os rostos têm outros rostos além do rosto original. Os rostos dos outros também têm páginas no livro dos rostos. Dentro de cada rosto há outros rostos de outros rostos. Nem todos os rostos têm pessoas dentro, podem ser só rostos ou então máscaras.&lt;br /&gt;Eu não tenho uma página no livro dos rostos, mas tenho muitos rostos na mesma.&lt;br /&gt;Trago na cara o meu rosto original e nos bolsos os outros todos. Tenho também uma máscara, que é esta, a &lt;a href="http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966"&gt;pessoana&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;De uma vez por todas: Não gosto do livro dos rostos. Abomino o livro dos rostos. Não me convidem para o livro dos rostos. Os outros rostos que me desculpem, mas eu não quero uma página no livro dos rostos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Antes perder-me na floresta como o Hansel e a Gretel e ser escrava de uma bruxa.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-7157860715335500062?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/7157860715335500062/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=7157860715335500062' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/7157860715335500062'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/7157860715335500062'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/06/facebook-o-livro-dos-rostos.html' title='Facebook, o livro dos rostos'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-7635350867222274035</id><published>2009-05-26T19:01:00.006+02:00</published><updated>2009-12-22T10:18:08.566+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Sobre os lugares'/><title type='text'>Pastelaria de esquina</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Naquele domingo a rapariga entrou na &lt;a href="http://www.patisseriegarcia.be/"&gt;pastelaria de esquina&lt;/a&gt;. Não tinha por hábito passar por ali, muito menos ao domingo, e agora que a ocasião surgia, não hesitava. Pela maneira como observa os candeeiros interiores, somos obrigados a admitir que talvez aquela rapariga nunca tenha entrado naquela pastelaria. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nós, sim, já conhecemos o sítio e sabemos que é raro a mesa da janela estar vaga. E logo agora que a rapariga entra, a mesa oferece-se às suas pernas e estas sentam-se aí mesmo, de frente para o cruzamento feio de carros e gente.&lt;br /&gt;O rosto da rapariga denuncia-a: é nova e sensível. Não é mulher suficiente para se sentar nas montras dos cafés, por isso observamo-la. O desconforto das mãos enquanto espera por qualquer coisa que as ocupe confirma isso mesmo.&lt;br /&gt;Um empregado aproxima-se. Não é simpático nem antipático. A rapariga ainda não sabe o que quer, mas pede apressadamente qualquer coisa, como se verdadeiramente a quisesse. Não era fã de nenhuma das suas escolhas, mas ansiava por que chegassem à mesa. Não chegam logo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O empregado pousa-lhe na mesa um compal de pêra e uma tosta mista. Enquanto bebe e come, a rapariga toma uma série de decisões: pedirá um café de seguida, levará pastéis de nata, irá ao cinema mais tarde, por volta das oito, para não voltar tarde para casa. Só agora olha para a janela.&lt;br /&gt;A vista não é bonita: na verdade é só um enorme corredor de asfalto repleto de carros. No passeio, surgem e desaparecem pessoas de todos os tamanhos e feitios. Um eléctrico guincha na curva. Algumas bicicletas deslizam satisfeitas e, de vez em quando, carrinhos com bebés lá dentro. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um pedaço de cidade igual a outros.&lt;br /&gt;Do outro lado da rua há um supermercado aberto. Entram e saem pessoas de caras tortas e cabelos amarrotados. Uma loja de flores está de rosto virado para o sol. Tem tantas flores que a rapariga não consegue ver quem lá trabalha. A rapariga decide comprar um vaso naquela loja. Ou talvez uma planta. Talvez bolbos de tulipas. Isso.&lt;br /&gt;Olha para dentro, ou seja, para a pastelaria. Pede um café e recosta-se na cadeira desconfortável. Um casal observa atentamente a vitrina dos pastéis, parece indeciso. Uma menina muito bem sentada ao colo da mãe acena-lhe atrevida. A rapariga acena de volta. A mãe não se apercebe de nada, fala animadamente com uma outra mulher, atrapalhando os dedos num pastel de feijão. Três rapazes e duas raparigas apertam-se à volta de uma só mesa, comentam uma coisa qualquer divertida. Duas senhoras mais velhas querem pagar a conta e demoram-se a interpretar as moedas. O empregado espeta as duas mãos na cintura e fala para trás do balcão, onde uma moça risonha enfia um pano dentro de um copo. Um casal barrigudo entra na pastelaria e cumprimenta a mãe da menina atrevida. A menina atrevida salta para o chão, dá uma palmada na barriga do homem. Riem-se todos.&lt;br /&gt;As paredes da pastelaria são exageradas: têm uma fonte ao centro e umas janelas alentejanas sem nexo. O empregado devia cortar o cabelo e as pessoas deviam falar mais baixo. A sala perde luz à medida que se entra. Mais um pouco e a escuridão estaria à vista.&lt;br /&gt;A rapariga inicial, de chávena de café na mão, apercebe-se de tudo isto.&lt;br /&gt;Depois olha outra vez para a janela. Para o pedaço feio da cidade.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Decide ficar mais um pouco.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nem sempre a beleza faz falta.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-7635350867222274035?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/7635350867222274035/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=7635350867222274035' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/7635350867222274035'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/7635350867222274035'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/05/pastelaria-de-esquina.html' title='Pastelaria de esquina'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-6100242332019409470</id><published>2009-05-25T17:40:00.006+02:00</published><updated>2009-05-26T21:44:03.572+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos infantis para adultos'/><title type='text'>Conto infantil para adultos: A Bela e o Monstro</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A verdade era que nem sempre a Bela e o Monstro se amavam. Por vezes não gostavam um do outro e em dias mais entediantes, com tantos empregados silenciando pelo castelo, perdiam a cabeça e chegavam mesmo a odiar-se. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nesses momentos ela atirava-lhe com os pratos do outro lado da mesa e ele rugia furioso. Nos dias bons, a Bela chorava e ele pedia-lhe perdão. Depois saíam de mão dada para o jardim. Mas nos dias maus, que eram os mais frequentes, gritavam como loucos e ela ameaçava que se ia embora. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O Monstro, rugindo de amor e ódio, arrastava-a para o quarto e enclausurava-a durante dias. A Bela nem sequer chorava, gostava aliás daqueles dias de paz em que jogava sudoku e lia contos de fada sobre príncipes mais belos do que o seu. Não via ninguém, nem mesmo as dedicadas aias. Também não comia nem bebia, só para chatear o marido. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Durante esse tempo, o Monstro, logo pela manhã, pegava no seu enorme cavalo e galopava pela floresta, rugindo para as árvores. De vez em quando arrancava mesmo uma do chão, tal era a sua força bruta e a sua pouca delicadeza para com o ambiente. À noite via filmes americanos no canal Hollywood com o Woody Allen, o Clint Eastwood, a Kim Basinger, o Fred Astaire.&lt;br /&gt;Até que um dia se sentia só, tão profundamente só, que até os pedaços de lenha que atirava para a lareira lhe pareciam mais felizes do que ele próprio. Então encaminhava o seu monstruoso corpo até ao quarto da Bela e implorava-lhe perdão durante horas, se não mesmo dias, semanas, meses. Ajoelhava-se no chão, unia as volumosas patas e chorava. A Bela assistia pacientemente ao espectáculo até se render a uma qualquer compaixão que, não sendo enorme, ganhava forma no seu peito.&lt;br /&gt;No entretanto os empregados reuniam-se na cozinha e discutiam sobre quem tinha razão naquela disputa, se a Bela, se o Monstro, e não chegavam a conclusão nenhuma. Eram ambos cruéis e egoístas, além de parecerem incompatíveis.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Moral da história visando a educação das crianças: Que as meninas não sejam tão belas, para não serem tão amadas. E que os meninos não se tornem monstros, para saberem amar um pouco menos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-6100242332019409470?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/6100242332019409470/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=6100242332019409470' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/6100242332019409470'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/6100242332019409470'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/05/conto-infantil-para-adultos-bela-e-o.html' title='Conto infantil para adultos: A Bela e o Monstro'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-3284192715793307905</id><published>2009-05-19T17:58:00.010+02:00</published><updated>2009-12-14T16:58:45.804+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias do corpo e da alma'/><title type='text'>Atracar</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Disse: atracar.&lt;br /&gt;E não chegar. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Acercar. Entrar. Voltar. Regressar. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não.&lt;br /&gt;Disse: Atracar.&lt;br /&gt;E, por isso, imaginou. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Primeiro o verbo.&lt;br /&gt;Depois o corpo. Atracando.&lt;br /&gt;As espias em torno dos pulsos, dos tornozelos, do ventre, o rosto amarrado ao cais, a testa contra o porto (contra os pés do porto), o nariz apertado no pouco ar que afasta o mar da terra.&lt;br /&gt;Nisto um arrepio rolou até ao final das costas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um longo arrepio.&lt;br /&gt;Tinha frio, talvez. Ou medo.&lt;br /&gt;(Provavelmente saudade.)&lt;br /&gt;O arrepio instalou-se no final das costas e ficou.&lt;br /&gt;Para sempre.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Rodou um pouco a cabeça e viu, pela proa dos olhos, o bico amarelo de uma gaivota.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;(Respirou finalmente o fio de ar entre o mar e a terra.)&lt;br /&gt;Pensou: Não é mau atracar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E não era.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-3284192715793307905?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/3284192715793307905/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=3284192715793307905' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/3284192715793307905'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/3284192715793307905'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/05/atracar.html' title='Atracar'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-1037124401292585326</id><published>2009-04-28T05:24:00.005+02:00</published><updated>2009-12-22T10:13:06.714+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Primeiros estudos quase poéticos'/><title type='text'>O lugar estranho</title><content type='html'>Ele disse que aquele lugar era estranho e, no entanto, apenas ele o era.&lt;br /&gt;Quem o disse.&lt;br /&gt;E não o lugar.&lt;br /&gt;O narrador e o autor regressam dia 17 de Maio.&lt;br /&gt;(De um lugar estranho.)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-1037124401292585326?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/1037124401292585326/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=1037124401292585326' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/1037124401292585326'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/1037124401292585326'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/04/o-lugar-estranho.html' title='O lugar estranho'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-3855982095965816328</id><published>2009-04-21T18:30:00.005+02:00</published><updated>2009-12-14T16:21:58.985+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos do outro mundo'/><title type='text'>O estranho caso do lápis pequeníssimo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O lápis pequeníssimo desaparecia nos dedos e reaparecia nas folhas em forma de carbono. O carbono era, por seu turno, o sangue do lápis. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não demorámos a perceber a semelhança entre o lápis e &lt;a href="http://www.imdb.com/title/tt0421715/"&gt;Benjamin Button&lt;/a&gt;. Ora, esta semelhança cativou-nos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;(Não vimos o filme, mas gostamos do Brad Pitt e conhecemos o tal estranho caso de se nascer ao contrário.)&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Observamos o lápis como quem observa um diamante: estudiosamente. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;(A propósito desta comparação apercebemo-nos disto: o lápis e o diamante são formas distintas de carbono, outro estranho caso.) &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tacteamos o lápis, descobrimos os seus contornos, as seis faces, gostamos de todos elas, giramo-lo na mesa, fechamos os olhos para ouvir o seu chilrear. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Afiamos o lápis cheios de tempo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;(Tão cheios de tempo que o lápis perde o bico e logo o afiamos de novo.)&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Gostamos de afiar o lápis.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O lápis pequeníssimo é agora ainda mais pequeno. Em contrapartida, a sua existência é maior, pois gostamos mais dele do que do resto do mundo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pousamo-lo na orelha e levamo-lo a passear pelas ruas. Contamos-lhe histórias, compramos-lhe um gelado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;No final do dia voltamos de mão dada para casa. Pegamos no lápis ao colo, acariciamo-lo, entrelaçamo-lo nos dedos para escrever. No final do dia afiamos o lápis pequeníssimo mais uma vez. Na verdade, até ele perder o bico, para que haja silêncio no seu corpo. No nosso corpo. Em todos os corpos.&lt;br /&gt;Depois afiamo-lo novamente. Ansiosamente. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Até ao final do lápis.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;No final contemplamos os despojos de carbono e madeira.&lt;br /&gt;Arrastamos estes restos de vida para o cesto dos papéis, bem como tudo o que escrevemos com aquele lápis e tudo o que desenhámos, tudo o que desejámos (primeiro os dedos, depois o coração e finalmente a linguagem).&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Era um bom lápis, aquele. Nem duro nem mole. De tipo HB. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;(Nada será como dantes.)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-3855982095965816328?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/3855982095965816328/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=3855982095965816328' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/3855982095965816328'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/3855982095965816328'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/04/o-estranho-caso-do-lapis-pequenissimo.html' title='O estranho caso do lápis pequeníssimo'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-8756527941543280467</id><published>2009-04-16T18:29:00.015+02:00</published><updated>2009-12-10T12:11:11.747+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Das personagens de verdade'/><title type='text'>A ideia incomum de V. Moreira</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;Nem sempre o homem de nome V. Moreira fazia coisas esdrúxulas como naquele dia. Mas certas manhãs havia em que uma ideia incomum caía sobre a sua cabeça tão misteriosamente como o pó sobre as mobílias. E naquele dia assim fora:&lt;br /&gt;Às dez horas da manhã desse tal dia V. Moreira estava na Junta de Freguesia de Vila Real de Santo António a preencher uma declaração para alterar a morada da sua residência permanente. Isto porque o homem de nome V. Moreira se tinha reformado há uns meses e, ganhando consciência de que estava permanentemente de férias, decidira trocar a sua casa de Setúbal pela sua casa no Algarve. Enquanto o senhor Moreira preenchia a declaração, espreitámos por cima do seu ombro e foi nessa altura que aprendemos o último nome deste homem, mas não o primeiro, por falta de oportunidade para uma segunda espreitadela. Estamos, no entanto, convictos de que a primeira letra do seu primeiro nome era V.&lt;br /&gt;A declaração pedia ao homem de nome V. Moreira que indicasse o seu endereço antigo e o senhor Moreira obedeceu. Escreveu &lt;em&gt;Avenida Soeiro Pereira Gomes&lt;/em&gt; e antes mesmo de escrever o número, o andar e o código postal, o homem parou de escrever e demorou-se a olhar para o papel. Isto preocupou-nos por motivos óbvios: talvez o homem de nome V. Moreira tivesse esquecido a sua morada em Setúbal ou talvez tivesse saudades dela. Estas hipóteses comprovaram-se, no entanto, erradas, porque o senhor Moreira pensava, não na sua morada, não na sua cidade, mas no próprio Soeiro Pereira Gomes.&lt;br /&gt;É que o homem de nome V. Moreira tinha morado 20 anos na Avenida Soeiro Pereira Gomes, em Setúbal, e há 20 anos que prometia a si mesmo ler um livro daquele escritor. Era, no mínimo, um exercício sensato, dado que conviviam tão intimamente. E, no entanto, finalizadas duas décadas, não só o senhor Moreira não tinha lido um único livro do Soeiro Pereira Gomes, como nunca tinha comprado sequer um exemplar. Na verdade – apercebia-se o homem agora – desconhecia por completo a capa e a contracapa de qualquer um dos livros, nunca lhes tinha sentido o cheiro nem o peso.&lt;br /&gt;Este pensamento transtornava-o. E o homem de nome V. Moreira teve então a ideia incomum de regressar a Setúbal imediatamente. No seu entender, não podia mudar oficialmente de residência enquanto não lesse um livro de Soeiro Pereira Gomes. Sentia-se em falta consigo próprio, com a sua rua, com o escritor.&lt;br /&gt;O homem de nome V. Moreira saiu da Junta de Freguesia de Vila Real de Santo António, mas nós, infelizmente, perdemo-lo de vista logo na primeira esquina, tal era a sua pressa de chegar a casa.&lt;br /&gt;Anos mais tarde, encontrámos o senhor Moreira vagueando pelo Parque do Bonfim. Pelo seu meio-sorriso esclarecido percebemos que tinha lido os &lt;em&gt;Esteiros&lt;/em&gt;, bem como todos os outros livros de Soeiro Pereira Gomes. Nunca tinha chegado a mudar de morada e raramente ia até Vila Real de Santo António.&lt;br /&gt;Estava-se bem em Setúbal.&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-8756527941543280467?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/8756527941543280467/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=8756527941543280467' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/8756527941543280467'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/8756527941543280467'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/04/ideia-incomum-de-v-moreira.html' title='A ideia incomum de V. Moreira'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-4896009616860226877</id><published>2009-04-14T18:47:00.005+02:00</published><updated>2009-12-14T16:59:10.317+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias do corpo e da alma'/><title type='text'>Da pessoa e do sentimento</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O sentimento, visto de frente e a olho nu, tentava caminhar na direcção oposta ao resto da pessoa, pendurava-se no final dos dedos para tentar ancorar o corpo, mas os braços navegavam em direcção a Este. O sentimento era, por natureza, mais leve do que as borboletas e nada podia contra o peso do cérebro, do estômago e dos pés. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A pessoa caminhante sentia aquele sentimento pendurado nos dedos e, no entanto, seguia em frente. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Em direcção a Este. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;De súbito, por lhe faltar a força e o corpo, o sentimento largou o dedo indicador e caiu por causa da força da gravidade. Felizmente, o resto da pessoa apercebeu-se da queda livre e apanhou o sentimento com a outra mão. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ambos suspiraram de alívio. Entreolharam-se.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A pessoa cerrou o punho para não mais perder o sentimento.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Caminhava, ainda assim, na direcção oposta.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-4896009616860226877?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/4896009616860226877/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=4896009616860226877' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/4896009616860226877'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/4896009616860226877'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/04/da-pessoa-e-do-sentimento.html' title='Da pessoa e do sentimento'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-2380968358572299213</id><published>2009-04-01T19:16:00.011+02:00</published><updated>2009-12-14T17:05:49.839+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Da escrita'/><title type='text'>1 de Abril</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;No dia 1 de Abril o narrador convenceu o autor a escrever. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Se ainda não se espantou, espante-se.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Repito: o narrador convenceu o autor a escrever. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Jamais se vira uma coisa assim. Era um evento verdadeiramente extraordinário, porque, como todos sabemos, tudo isto se costuma passar ao contrário: é o autor que convence o narrador. É sempre o primeiro que guia o segundo numa autêntica hierarquia de vontades, pois mesmo na arte da inspiração e da escrita há protocolos, disciplinas e hierarquias e tudo o que de artístico tem tão pouco. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Esta era, portanto, a ordem natural das coisas, mas ultimamente, por as actividades do autor não darem espaço nem oxigénio nem dióxido de carbono à autoria devido a prioridades do momento que nada tinham que ver com arte, o autor perdera, por assim dizer, a vontade, o fio à meada, a inspiração, o que quer que esteja no início da coisa artística, daí que não se esforçasse por convencer o narrador de nada, se não apenas que se calasse e metesse a cabeça entre as orelhas. E dito isto, o narrador, por vingança ou tédio ou simples maldade - que também a há no coração dos narradores - ia cantando dentro da sua cabeça, a qual ficava, por sua vez, dentro da cabeça do autor, a tal &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=fnIwySlvYXI&amp;amp;feature=related"&gt;canção&lt;/a&gt; do Sérgio Godinho, que o autor, por azar, não apreciava (o pronome relativo refere-se aqui à canção e não ao Sérgio Godinho, apreciado por toda a gente e mais alguma). &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E justamente no dia 1 de Abril deu-se o caso extraordinário ou até o milagre de Nossa Senhora de o narrador, aborrecido como estava com a inércia do autor, ter tomado a iniciativa de escrever, ou melhor, de fazer o outro escrever por ele. O autor, para mal dos seus pecados, levantou-se contrariado da cama, ainda a noite madrugava, e sentou-se no sofá da sala de estar, por sinal muito fria dado que se esquecera da janela aberta durante todas aquelas horas nocturnas, e escreveu. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Intervalo para descrição: No colo uma almofada e sobre a almofada um bloco. Na mão direita a caneta e na cabeça o narrador ditando o texto devagar. O narrador afastava os cabelos atrapalhados do autor lá do alto do cocoruto todo-poderoso certificando-se de que a redacção saía correcta e escorreita do ponto de vista ortográfico, sintáctico e verbal. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;No final da história, satisfeitíssimo, o narrador ordenou ao autor que publicasse aquela redacção no seu &lt;a href="http://www.belgavista.blogspot.com/"&gt;lugar&lt;/a&gt;. Mas infelizmente, ao ouvir o nome proibido do lugar, o autor acordou sobressaltado daquele feitiço e rasgou o texto decididamente. Depois coçou a cabeça com muita força e o narrador caiu redondo por ali baixo, tendo sido sua sorte a de ter ficado pendurado na ponta de um cabelo espigado que o agarrou pelos colarinhos durante a queda. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O autor foi então ao seu lugar ou não propriamente: sentou-se na margem de cá a observar a margem de lá contemplativamente. Imaginou que Ulisses, depois de regressado a Ítaca, se fizesse ao mar vezes sem conta só para repetir o regresso, a terra à vista, o mar interrompido. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O autor todo-poderoso, de repente inspirado, regressado, artístico, escreveu uma história que nada tinha que ver com a história inicial, a do narrador. Ria-se enquanto escrevia. No final achou que a sua obra era boa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tão boa que não parecia sua.&lt;br /&gt;(E não era. Isto porque o narrador continuava a ditar a mesma história, escondido atrás dos cabelos. No entanto, chegado ao final da mesma, deixou que o autor a publicasse, julgando-a sua.)&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O narrador procedera desta forma condenável não por altruísmo, não por vingança nem tédio nem nada.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Só por ser dia 1 de Abril. Mais nada. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um narrador brincalhão.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-2380968358572299213?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/2380968358572299213/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=2380968358572299213' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/2380968358572299213'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/2380968358572299213'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/04/1-de-abril.html' title='1 de Abril'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-1580964441866340649</id><published>2009-03-03T19:37:00.013+01:00</published><updated>2009-12-22T10:34:20.864+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos adultos para crianças'/><title type='text'>O ninho</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O rapaz passava muito tempo aos pés da figueira e, por vezes, quando a memória da língua lhe falava dos figos, trepava a árvore torta para lhe roubar os frutos, estivessem eles verdes ou maduros, pois eram verdes na mesma e mal não vinha ao mundo quando eram duros ou podres. Certa vez dera-se o estranho caso de o rapaz ter comido a própria flor que daria lugar ao figo, tal era a sua vontade que a Primavera passasse e o fruto existisse. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pois num dia de Verão, estava o rapaz já muito empoleirado na figueira, de mãos abertas para os figos, quando do ramo mais alto caiu, não um ramo mais pequeno, não uma folha mais fraca, não um figo empobrecido, mas um ninho inteiro, redondo e encorpado. O rapaz susteve a respiração depois da queda e encolheu todos os músculos. O coração temia pela vida do ninho, pela sua vida, pela vida dos pássaros. Saltou desconcertado para o chão e ali ficou muitos segundos, nem perto nem longe do ninho, os olhos debruçados sobre ele, as mãos lançadas para ele, a boca, o nariz, os pulmões, a garganta e o estômago muito apertado, o corpo todo debruçado sobre o ninho e muito equilibrado sobre as pontas dos pés que não davam um só passo. O ninho estava de cabeça para baixo, não se via o conteúdo (se é que algum havia) e o rapaz demorou muito tempo para lhe tocar, não fosse a morte encará-lo de frente ou levá-lo com ela. Procurou um pau comprido, mas não o encontrou, por os seus olhos se desconcentrarem na demanda. Procurou outra vez. E outra vez.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Podia arrancar um pequeno ramo da figueira, claro, mas tinha medo, imenso medo que outro ninho caísse e com ele outros pássaros, outras mortes. O rapaz angustiava. Ovos partidos, dezenas de ovos partidos, os pássaros mortos, todos mortos. O rapaz não chorou porque era forte. Também não fugiu. Era consequente. Responsável. Curioso.&lt;br /&gt;(O coração era já maior do que o corpo, a terra tremia debaixo dele.) &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O rapaz aproximou-se devagar do ninho, baixou-se sobre ele e virou-o, viu-o, pousou-o. Deu três passos para trás, quatro. Cinco. Depois parou.&lt;br /&gt;O mesmo olhar suspenso, todo ele debruçado sobre o ovo azul, ainda inteiro.&lt;br /&gt;(Igual a outros ovos, mas azul.)&lt;br /&gt;(Igual a outros azúis, mas em forma de ovo.)&lt;br /&gt;Nunca tinha visto um ovo azul, não sabia a cor azul nem o ovo nem o pássaro dentro dele. O rapaz sentou-se no chão, em frente ao ovo azul. Cruzou as pernas e pousou nos joelhos os braços. Assim ficou muito tempo. Tanto tempo. Todo o tempo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O coração crescia mais e mais até alcançar as copas das árvores.&lt;br /&gt;(A cidade era bonita, vista dali.) &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-1580964441866340649?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/1580964441866340649/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=1580964441866340649' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/1580964441866340649'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/1580964441866340649'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/03/o-ninho.html' title='O ninho'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-1048479568052771599</id><published>2009-02-12T17:52:00.009+01:00</published><updated>2009-05-26T21:44:44.814+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos infantis para adultos'/><title type='text'>Conto infantil para adultos: Soldadinhos de chumbo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Que um homem não é de ferro já todos sabiam. Mas que os soldadinhos de chumbo já não queriam ser de chumbo, não, ninguém sabia. Só eles. Aliás, os soldadinhos de chumbo tomaram esta decisão ontem à noite: já não queriam ser soldadinhos de chumbo, pronto. Informaram então o primeiro-cabo. Disseram: "Queremos ser homens de verdade". O primeiro-cabo alarmou-se e fez o que lhe competia: informou o cabo de secção. Por seu turno, o cabo de secção apressou-se escada acima para informar o segundo-sargento, que informou o primeiro-sargento do andar de cima, que informou o sargento-mor de cima, que informou o cadete, que informou o alferes, que informou o tenente, que informou o capitão, que informou o major, que informou o coronel, que informou o brigadeiro-general, que informou o tenente-general, que informou o general. E quando a informação chegou finalmente às águas-furtadas, o marechal exaltou-se, gesticulou irritado. Disse ao general que, nas forças armadas, quem dava informações era ele e não os soldadinhos de chumbo. O general informou prontamente o tenente-general e a informação desceu direitíssima até ao rés-do-chão. Por último, o primeiro-cabo informou os soldadinhos de chumbo. Disse: "Nas forças armadas, quem dá informações é o general e não os soldadinhos de chumbo". Os soldadinhos de chumbo não perceberam logo a informação. Parecia-lhes um facto evidente, estavam plenamente de acordo. Uniram, pois, os calcanhares com energia e levaram a mão direita à borda da testa, cheios de continência. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;É que, entretanto, já se tinham esquecido da tal decisão. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;(Eram soldadinhos de verdade.)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-1048479568052771599?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/1048479568052771599/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=1048479568052771599' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/1048479568052771599'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/1048479568052771599'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/02/conto-infantil-para-adultos-soldadinhos.html' title='Conto infantil para adultos: Soldadinhos de chumbo'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-1202615990119483562</id><published>2009-02-09T17:16:00.009+01:00</published><updated>2009-12-10T12:11:35.836+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Das personagens de verdade'/><title type='text'>Adelaide Eugénia Ferreira Varela Rã</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Uma senhora de 73 anos de idade entrou na repartição de finanças do Concelho de Pinhel para reclamar uns dinheiros, não para ela, mas para a associação recreativa de Cerejo a propósito das festas em honra de Santa Maria Madalena do ano passado. Esta senhora chamava-se Adelaide Eugénia Ferreira Varela Rã, um nome razoável à excepção do sobrenome, que saltava sobressaltado sobre os outros, graças às suas pernas de anfíbio. Infelizmente a senhora Adelaide Eugénia Ferreira Varela Rã não conseguiu entregar os papéis que comprovavam a dívida do Estado à associação recreativa de Cerejo. Isto porque a sua hora da morte chegou precisamente no momento em que entrou na repartição de finanças: o corpo caiu entrondoso para a frente e os papéis ficaram quietos dentro da mala. Algumas pessoas assustaram-se, outras não. Uma das senhoras atrás do balcão nem se levantou com o sucedido: agarrou no telefone e chamou a ambulância.&lt;br /&gt;O sobrenome Rã era do marido, que havia falecido há uns quinze anos por causa de um cancro nos intestinos. A senhora Eugénia, que preferia aliás o nome Adelaide mas nada podia contra a vontade do povo da freguesia de Cerejo que toda a vida a tratara por Eugénia, continuava a usar o nome Rã porque a ele se habituara, mas aos vizinhos dizia que a razão era outra, mais poética, mais respeitosa, mais leal. Dizia: "Continuo a utilizar o nome Rã para que a memória do meu marido não se perca pelo caminho" e os outros comoviam-se com as palavras da mulher que usava um nome feio em memória de um homem. Não que o senhor José Marco dos Santos Rã tivesse sido um grande homem nem um homem grande, nem sequer um bom homem (na verdade já ninguém na freguesia se lembrava dele), mas o senhor José Marco era o &lt;em&gt;seu&lt;/em&gt; homem e isso bastava para que fosse lembrado. Tudo isto era uma maneira de dizer, porque a senhora Eugénia tinha a sua vida tão ocupada com a associação recreativa de Cerejo, que mal se lembrava do José Marco, coitado. O rosto do dito já se tinha dissipado da memória, restando apenas o sorriso torto e o cabelo bem penteado do dia do casamento. À senhora da mercearia dizia a senhora Eugénia em ar de graça: "Beijei a rã em vez do sapo" e a verdade era essa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A senhora Eugénia tinha a certeza disso. Se tivesse beijado o sapo e não a rã, nunca teria vivido nem morrido assim. Logo a seguir ao casamento, o seu marido sapo e não rã teria mandado construir um castelo no centro de Cerejo, onde ela e o seu príncipe encantado viveriam com a sua família e os seus muitos empregados. No interior desse castelo se realizariam as festas em honra de Santa Maria Madalena, que muito trabalho dariam à senhora Eugénia, e todas as pessoas de Pinhel ali marcariam presença no dia 31 de Julho. Ou, se calhar, todas as pessoas da Beira Interior. Ou até mesmo todas as pessoas de Portugal. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Isto pensava a senhora de 73 anos na hora da morte. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A mania da grandeza de Adelaide Eugénia Ferreira Varela Rã só não ia além de Portugal por não haver na sua geografia nenhum mundo além daquele. Se tivesse beijado o sapo e não a rã, pensava ainda, jamais entraria na repartição das finanças para morrer. Disso tinha ela a certeza absoluta. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Os papéis que comprovavam a dívida do Estado à associação recreativa encaminharam-se despreocupados para o lixo. Os vizinhos trocaram umas palavras nem boas nem más sobre a senhora Eugénia. Os velhos da associação recreativa foram ao velório, ao funeral e à missa do sétimo dia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E ao oitavo dia a senhora Eugénia caiu no esquecimento. E o José Marco, que culpa nenhuma tinha de ter nascido rã, perdeu-se finalmente pelo caminho.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-1202615990119483562?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/1202615990119483562/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=1202615990119483562' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/1202615990119483562'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/1202615990119483562'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/02/adelaide-eugenia-ferreira-varela-ra.html' title='Adelaide Eugénia Ferreira Varela Rã'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-4679121950612353709</id><published>2009-02-02T19:00:00.010+01:00</published><updated>2009-12-10T11:58:26.557+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias de mim'/><title type='text'>Rapariga ao som de Air</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A cidade a nevar baixinho, a chorar branco, muito branco, branquíssimo (os olhos da cidade a doerem de branco), e a rapariga a passear-se nela, a pensar-se nela, e não de branco, não de neve, mas de outras cores, de outras formas. A arte nova atrás das costas, itinerante como nos filmes, e a rapariga a ver outras artes, outros filmes. Pensa, por exemplo, no Japão. Num silêncio possível para o Monte Fuji. Para os templos. Pensa em Quioto. Na cidade de Quioto. No protocolo de Quioto. Nos americanos. Pensa em Hiroshima. Em Nagasaki. Nos arranha-céus de Tóquio. No &lt;em&gt;&lt;a href="http://www.imdb.com/title/tt0335266/"&gt;Lost in Translation&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;. Na cara de náufrago do &lt;a href="http://www.imdb.com/name/nm0000195/"&gt;Bill Murray&lt;/a&gt;. No Oceano Pacífico. No programa da RFM. Nas madrugadas de regresso a casa. Em todas as madrugadas de regresso a casa. Na marginal de Cascais. No Oceano Atlântico. Na era dos Descobrimentos.&lt;br /&gt;A &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=dJ4Gb8k_2Lc&amp;amp;feature=related"&gt;música&lt;/a&gt; termina na boca do metro. Pura coincidência.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Depois começa outra. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A tempo da viagem.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-4679121950612353709?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/4679121950612353709/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=4679121950612353709' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/4679121950612353709'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/4679121950612353709'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/02/rapariga-ao-som-de-air.html' title='Rapariga ao som de Air'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-8103311096839165706</id><published>2009-01-27T18:03:00.005+01:00</published><updated>2010-03-16T14:07:57.440+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos infantis para adultos'/><title type='text'>Conto infantil para adultos: No circo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Há um macaquinho no circo. Quando o macaquinho grita, toda a gente grita. Quando o macaquinho salta, toda a gente ri. Quando ele ri, toda a gente ri mais ainda. O macaquinho é divertido por ser pequenino, ágil, frágil, desinibido e também por ter braços finos e muito compridos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Parece um menino, mas não é.&lt;br /&gt;(O Pinóquio também parece um menino, mas não é.) &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;(O macaquinho não diz mentiras, porque não diz nada. Não fala, o macaquinho.) &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nas bancadas ninguém sabe nada do macaquinho além de que é divertido e tem braços compridos. E todos se riem dele. Dos miúdos aos graúdos. Vão ao circo e riem, as pessoas. No final do espectáculo saem satisfeitas para a rua. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Por o macaquinho ser divertido. Por ser pequenino e ter braços compridos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sobretudo, por ser macaco e não menino. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E também por terem comido pipocas.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-8103311096839165706?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/8103311096839165706/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=8103311096839165706' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/8103311096839165706'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/8103311096839165706'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/01/no-circo.html' title='Conto infantil para adultos: No circo'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-6742761212068258549</id><published>2009-01-23T15:57:00.006+01:00</published><updated>2009-12-22T10:20:58.013+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Sobre os lugares'/><title type='text'>No jardim do Campo Mártires da Pátria para ver os pardais voar</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Um certo homem, de nome Manuel Matias Batalha Pereira, senta-se diariamente no jardim do Campo Mártires da Pátria para ver os pardais voar. Não os apanha, não os assusta, não lhes dá comida, nem guarida, nem nada de nada, fica por ali sentado a vê-los voar. O senhor Manuel Matias não tem família, como é evidente, nem amigos, nem assuntos para tratar, se não de quando em quando na segurança social ou nas finanças. No outro dia tinha passado, por exemplo, várias horas na Loja do Cidadão dos Restauradores, mas fora essas excepções, que até lhe davam novas cores à vida, o senhor Manuel Matias não tinha nada que fazer, senão aquilo: ver voar os pardais. Não os pombos nem as rolas nem as gaivotas, que eram pássaros gordos, altos, adultos, aborrecidos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Só os pardais. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O senhor Manuel Matias gosta dos pardais por isto: têm um voo imprevisível, incorrigível, caótico, infantil. Ora pousam aqui, ora voam para ali. Sobem para o banco, saltam para o chão, bicam a calçada, viram as costas, voam baixinho, pousam na relva, enfiam-se no canteiro, desaparecem nas árvores. Isto entretém o senhor Manuel Matias. De vez em quando ri-se de certos voos descontrolados, troça dos pardais, chama-lhes nomes. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Traz um saco de plástico que pousa sempre do seu lado direito. A certa altura tira dele uma banana, sempre uma banana, dizem que faz bem à cabeça. Come-a sem grande jeito (alguns pedaços da banana ficam pelos beiços, um pendurado no queixo, outro na ponta esquerda da boca e outro ainda no lábio superior). O senhor Manuel Matias desaprendeu a comer. O senhor Manuel Matias desaprendeu muita coisa.&lt;br /&gt;Do outro lado do Campo Mártires da Pátria está uma senhora a dar comida aos pombos. Não sabemos o seu nome, mas conhecêmo-la de vista. Observa atentamente os olhos do senhor Manuel Matias, é um olhar meigo. O dela e o dele.&lt;br /&gt;A senhora que dá comida aos pombos compadece-se do senhor Manuel Matias, roga pragas à família por o terem abandonado, pensa que são maus filhos, maus netos, maus primos, maus tudo e mais alguma coisa. Abana a cabeça enquanto pensa tudo isto, arranca os pedaços de pão com muita fúria, gosta genuinamente do senhor Manuel Matias. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A senhora que dá comida aos pombos é bem intencionada quando pensa estas palavras feias, mas ignora muita coisa, imensa coisa (não tem culpa disso, claro). Uma delas é que o senhor Manuel Matias, com o seu olhar meigo, é uma besta. Outra é que batia na mulher e ia às putas. Outra ainda é que os netos nem o conhecem por dele terem medo os filhos. Isto é a história real do senhor Manuel Matias mas nem todos são omniscientes como o narrador.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E de facto, não podemos levar a mal o amor que a senhora dos pombos tem pelo senhor Manuel Matias. Este homem tem realmente um olhar meigo e é sensível. Repare-se que ele vem ao jardim para ver os pardais a voar, ri-se deliciado para eles. Isto aperta o coração da senhora, como é natural. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Visto daqui, até nós nos comovemos. Não que perdoemos o senhor Manuel Matias. Não que tenhamos esquecido os seus pecados. Mas ao longe, efectivamente, a velhice comove. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E todos os homens são bons, quando chegam a velhos. Tornam-se imprevisíveis, incorrigíveis, caóticos, infantis. Como os pardais. E desaprendem muita coisa. Imensa coisa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Todas as coisas.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-6742761212068258549?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/6742761212068258549/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=6742761212068258549' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/6742761212068258549'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/6742761212068258549'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/01/um-certo-homem-de-nome-manuel-matias.html' title='No jardim do Campo Mártires da Pátria para ver os pardais voar'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-6880868209383378058</id><published>2009-01-22T18:52:00.005+01:00</published><updated>2010-08-02T18:54:05.838+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos linguísticos'/><title type='text'>oração subordinada final</title><content type='html'>trabalhar para comer para viver para trabalhar para comer para viver para trabalhar para comer para viver para&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-6880868209383378058?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/6880868209383378058/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=6880868209383378058' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/6880868209383378058'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/6880868209383378058'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/01/orao-subordinada-final.html' title='oração subordinada final'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-2311041764928561653</id><published>2009-01-21T18:12:00.006+01:00</published><updated>2009-12-10T11:59:37.710+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Dos livros'/><title type='text'>valter hugo mãe</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O novo presidente americano tomava posse, fazia um discurso importantíssimo e todos o ouviam, todos o seguiam, todos calavam. O mundo assistia redondo a este acontecimento e, no entanto, no primeiro andar de uma rua calmíssima de um bairro residencial de uma cidade europeia, uma mulher mantinha a televisão desligada, a rádio desligada, o computador desligado e lia concentrada, deliciada, conquistada, o último romance de valter hugo mãe. Como se nada mais houvesse no mundo senão aquelas páginas com as suas personagens esdrúxulas e vidas minúsculas. Um caso deveras estranho. O mundo parado para ver que rotação escolher e uma mulher deitada no sofá a ler um romance. Do valter hugo mãe. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Era, de facto, estranhíssimo, mas já se sabe que a realidade ultrapassa sobremaneira a fantasia. No final do livro a mulher ficou triste por haver um fim. Depois foi lavar os dentes e deitou-se. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O discurso do presidente havia de ter sido notável, mas não tão notável como &lt;a href="http://www.valterhugomae.com/?p=99"&gt;o apocalipse dos trabalhadores&lt;/a&gt;. Na opinião daquela mulher, claro, que gostava muito mais do valter hugo mãe do que do Barack Obama. Francamente mais. Mil vezes mais. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Vá-se lá saber porquê*.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;*O narrador desta história não percebe esta mulher, mas eu sim, percebo e concordo.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-2311041764928561653?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/2311041764928561653/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=2311041764928561653' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/2311041764928561653'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/2311041764928561653'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/01/valter-hugo-me.html' title='valter hugo mãe'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-8771495709199009653</id><published>2009-01-20T18:27:00.005+01:00</published><updated>2009-12-14T17:21:51.018+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Do muco'/><title type='text'>Das pessoas que escarram</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Certas pessoas escarram. Não espirram, não cospem, não tossem: escarram. Vejamos o seguinte: eu não tenho nada contra o muco. Não tenho. Sinceramente, do fundo de mim mesma (onde tudo é muco), não tenho. Na verdade, simpatizo com o muco, com a sua elasticidade, plasticidade, consistência. Gosto verdadeiramente de muco, adoro muco, só quero muco, mas é exactamente por isso que o guardo só para mim (de preferência por dentro) e não ando a escarafunchar o corpo para expelir certos dejectos não identificados. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Aliás, como muito bem sabemos, o muco é uma coisa boa, faz bem ao corpo e à alma, protege-nos de certas forças do Mal, é confortável por dentro e por fora, faz parte do que somos. Logo, não há razão para não gostarmos dele.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Portanto, quando sigo contente pelo meu caminho e vejo alguém a escarrar violentamente para o chão, coloco imediatamente as seguintes hipóteses: esta pessoa, que expele tão convictamente o muco que tão bem a protege, ou não tem amor ao corpo ou tem muco para dar e vender.&lt;br /&gt;Sobre a primeira hipótese, digo o seguinte: Não acredito. As pessoas que escarram têm certamente amor ao corpo. Encontro-as constantemente na rua e vejo que são, por norma, pessoas com um certo à vontade na vida e no corpo: dominam os ossos, a carne, os passeios, o alcatrão, cumprimentam os vizinhos, compram jornais no quiosque. Por isso, não acredito. Como é conhecido, quem não tem amor ao corpo, é triste, anda trancado na alma, não gosta do início de si próprio, é depressivo. E, de acordo com o que tenho visto, quem escarra, anda contente ou, pelo menos, satisfeito. Escarra, como já disse, convictamente.&lt;br /&gt;Inclino-me, portanto, para a segunda hipótese: As pessoas que escarram têm muco a mais. Isto, realmente, deve ser uma chatice, há que soltar o bicho. A ciência tem demonstrado que o excesso de muco é causado por doenças, nomeadamente infecções, inflamações ou maleitas do género. Logo, se as pessoas que escarram tiverem verdadeiramente muco a mais no corpo, tenho de admitir o seguinte: além de me meterem nojo (um enorme nojo, todo o nojo), metem-me medo (imenso medo), porque estão infectadas ou inflamadas ou coisa que o valha. E eu, instintivamente, afasto-me delas, não vá a peste pegar-se.&lt;br /&gt;No entanto, com base numa observação mais cuidada do acto de escarrar, noto que os verdadeiros escarradores escarram sempre, a toda a hora, onde quer que estejam. Saem de casa e escarram, esperam pelo eléctrico e escarram, saem do eléctrico e escarram, viram a esquina e escarram, entram na padaria e escarram. Ora, uma pessoa não pode estar doente toda a vida, a não ser os verdadeiramente fracos ou verdadeiramente depressivos que, como vimos, não é o caso das pessoas que escarram. Coloco, pois, mais uma hipótese: certas pessoas escarram por vício.&lt;br /&gt;Outros há que fumam por vício. Que bebem. Que assobiam. Que mascam. Que comem. Que cantam. Que escrevem. Que lêem. Que roem as unhas por vício. E certas pessoas escarram. (Entram pelo corpo adentro através das vias respiratórias e trazem ao mundo todo o muco que encontram.) Os outros vícios, comparados com este, parecem-me consideravelmente mais normais. Mais ligeiros. Mais admissíveis.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Por instinto e convicção, não me dou com pessoas que escarram, não gosto delas, não as suporto, não as aceito. Ou seja, discrimino-as. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pura e simplesmente.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-8771495709199009653?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/8771495709199009653/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=8771495709199009653' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/8771495709199009653'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/8771495709199009653'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/01/das-pessoas-que-escarram.html' title='Das pessoas que escarram'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-6666682751838796655</id><published>2009-01-19T16:49:00.006+01:00</published><updated>2009-05-26T21:47:09.591+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos infantis para adultos'/><title type='text'>Conto infantil para adultos: A bruxa má</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Era uma vez uma bruxa má que queria ser boa. Tinha um sonho em que era assim: muito boa, muitíssimo boa. Nesse sonho, o seu rosto não era tão feio nem tão severo, parecia até mais leve e feliz, e portanto, mais novo, mais bonito. Quando acordava, a bruxa má queria ser verdadeiramente boa, chegava mesmo a ter boas intenções, boas ideias, boas maneiras. E fazia planos concretos para praticar o bem na floresta e trazer a felicidade aos homens, aos animais, aos frutos, às árvores e ao rio, que eram tudo quanto conhecia no mundo. Mas infelizmente, mal se levantava da cama, a bruxa era má, profundamente má, pior que as cobras e os lagartos. Batia nos animais, arrancava cabelos às árvores, cozinhava coisas malignas num enorme tacho, rogava pragas a certos homens e ria-se poderosa, soltando a sua maldade para o mundo.&lt;br /&gt;Ora, certo dia, passou pela floresta um monge que montava um cavalo branco. Ia a caminho do seu mosteiro, mas infelizmente nunca o monge chegou ao seu destino, porque à sua frente surgiu a bruxa má que queria aprender a ser boa. O monge disse, &lt;em&gt;Eu te ajudarei a seres boa&lt;/em&gt;, mas, assim que o homem bom desceu do cavalo branco, a bruxa má transformou-o num esquilo, ficando-lhe com a sua veste negra de monge cristão, que muitíssimo bem servia para indumentária de bruxa má. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Arrependida do seu acto, a bruxa má, que tanto queria aprender a ser boa, pediu desculpa ao esquilo, mas este desatou a correr pela floresta e desapareceu. O cavalo também tentou fugir mas, ao contrário do esquilo, que era pequeno e castanho, via-se bem ao longe, por isso a bruxa má apressou-se a lançar-lhe um feitiço, que era o de nunca mais relinchar. O cavalo ficou mudo para sempre. A bruxa má atirou então a sua gargalhada furiosa e voltou para casa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mais tarde, enquanto preparava alguns legumes no seu &lt;em&gt;wok&lt;/em&gt;, a bruxa má teve pena do cavalo e ficou chateada consigo própria por lhe ter tirado a voz. Para mal dos seus pecados, já não havia nada a fazer, dado que os seus feitiços, por serem tão cruéis, não tinham emenda.&lt;br /&gt;Encolheu os ombros e comeu em silêncio. Não propriamente triste. Não propriamente alegre. Talvez ligeiramente desconfortável por ser tão má.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Moral da história: O &lt;em&gt;ser&lt;/em&gt; tem muita força. O &lt;em&gt;querer&lt;/em&gt; não tem tanta. Na vida ganha o mais forte. Conforme dita a natureza.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-6666682751838796655?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/6666682751838796655/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=6666682751838796655' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/6666682751838796655'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/6666682751838796655'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/01/conto-infantil-para-adultos-bruxa-m.html' title='Conto infantil para adultos: A bruxa má'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-4190067613648773514</id><published>2009-01-16T15:56:00.005+01:00</published><updated>2009-12-10T12:12:18.337+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Das personagens de verdade'/><title type='text'>O homem que lia Jean-Paul Sartre</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Soubéssemos nós a verdade e morreríamos.&lt;/em&gt; Isto dizia o filósofo, que nada sabia da verdade nem da morte por ser humano. Chamava-se este homem Vasco Mouro Louro, um péssimo nome para um filósofo, daí que não o fosse verdadeiramente, pois não tinha obra publicada nem teorias sobre o universo nem sobre o homem nem sobre os deuses ou o amor ou o ódio ou a razão. A bem dizer, nem sequer tinha estudado filosofia aquele homem e o seu autor preferido era, nem mais nem menos, Jean-Paul Sartre, o tal existencialista cheio de náuseas a cair em desuso. Mesmo assim, Vasco Mouro Louro levava o seu ofício a sério e sentava-se no banco espadaúdo do Jardim de Torel para pensar sobre as pessoas e a cidade, sobre as pessoas na cidade, sobre o ser humano no interior do ser urbano. Pensava tão profundamente sobre todas estas coisas que a cidade lhe parecia um pouco mais humana às cinco da tarde. E naquele preciso dia, 17 de Abril de 1995, quando o sol desceu para beijar a cidade, os prédios ganharam outro volume por causa das sombras. O filósofo assustou-se. Disse: &lt;em&gt;Soubéssemos nós a verdade e morreríamos&lt;/em&gt;. Vasco Mouro Louro deu por concluído aquele dia de trabalho, levantou-se e desceu a calçada do Lavra a pé. Trazia as mãos nos bolsos e um chapéu esquisito na cabeça. O seu assobio, que era agudo e bonito, ecoava pelas paredes, batia nos candeeiros, caía pelas escadas abaixo. Vinha contente o senhor Vasco Mouro Louro, muitíssimo contente com aquela frase de final do dia. Isto apesar de não saber nada da verdade nem da morte. De não ser um filósofo verdadeiro. E de ter um nome ridículo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Vivia noutro mundo o senhor Vasco Mouro Louro. Ainda bem para ele. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;De outra maneira, alguém morreria. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ou nós. Ou ele.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-4190067613648773514?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/4190067613648773514/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=4190067613648773514' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/4190067613648773514'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/4190067613648773514'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/01/o-homem-que-lia-jean-paul-sartre.html' title='O homem que lia Jean-Paul Sartre'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-3055684850805586950</id><published>2009-01-06T18:45:00.006+01:00</published><updated>2009-05-26T21:45:04.759+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos infantis para adultos'/><title type='text'>Conto infantil para adultos: História dos três homens que, além de reis, eram magos</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Ao sexto dia do primeiro mês recém-chegaram três homens para adorar o recém-nascido. Pelos tecidos complicados que traziam no corpo, pareciam abastados, se não mesmo reis. Isto pensava Maria, que nada dizia por ser mulher. José perguntou: "Quem sois?" e, para seu enorme espanto, dois dos três homens ajoelharam-se perante ele. O terceiro, que era corcunda e velho, não se ajoelhou. Na opinião de Maria, a mais submissa de todas as criaturas que adoravam o belo adormecido na manjedoura, o homem mais velho pemanecera de pé, não por ser mal-educado, não por ser arrogante, mas possivelmente por estar cansado da viagem e ter um corpo mais fraco que a alma. Esse homem disse: "Sou rei e mago. Chamo-me Belchior.". Maria e José, até então as pessoas mais simples da humanidade, surpreenderam-se, não tanto por causa dos títulos, mas sobretudo por causa do nome. Belchior era um nome impossível e José concluiu que os três homens deviam vir de muito longe. Piedosos e dedicados (mas não cristãos, que era coisa que na altura ainda não existia, porque o menino ainda não falava), Maria e José ofereceram a casa aos três estrangeiros, partilharam do seu pão e lavaram-lhes os pés. O segundo homem era muito novo, tinha as faces muito rosadas por causa do frio, comia e bebia timidamente. Apresentou-se baixinho: "Chamo-me Gaspar" e Maria achou aquele nome ainda mais bonito do que Jesus. O último, como bem sabemos, chamava-se Baltazar e era preto. José estava deveras perplexo com as suas feições pois nunca tinha visto um preto na vida. Assim era o interesse dos homens pelos homens: genuíno, investido, humano. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Os três homens que, além de reis, eram magos, contaram a sua viagem. Disseram ter seguido uma estrela no céu que os guiara até ali, à manjedoura mais sagrada de todas, apesar de imunda como as outras. Esta viagem tornar-se-ia o maior mistério para Jesus Cristo, mas Maria e José, até então as pessoas mais simples da humanidade, não sabiam disso, por isso não fizeram as perguntas devidas em devida altura. Para insatisfação do menino.&lt;br /&gt;De facto, Jesus Cristo, que tudo sabia do céu e da terra, nunca chegou a compreender aquela viagem. Na sua adolescência ficava, noite após noite, a olhar as estrelas e não sabia como segui-las, dado que nenhuma delas parecia apontar para um caminho. Questionava-se igualmente sobre a viagem dos três homens. Como poderiam seguir uma estrela, se durante o dia não a podiam ver e não tinham mais nada que os guiasse?&lt;br /&gt;Como já atrás se disse, tudo isto se passava na sua adolescência, porque quando Jesus Cristo entrou na fase adulta, dedicou-se a outros interesses e deixou de ter tempo para as estrelas e para a história dos três homens que, além de reis, eram magos.&lt;br /&gt;Foi um desperdício de história, como é óbvio.&lt;br /&gt;Aaaah, mas tivesse Jesus Cristo nascido português, tivesse ele uma pitada que fosse de lusitano, e a história não se desperdiçaria assim. Porque tudo valeria a pena, se a sua alma fosse outra, incluindo olhar o céu. Tivesse Jesus nascido português e observaria as estrelas durante toda a vida. Melancolicamente. Saudosamente. Para sempre.&lt;br /&gt;Teria sido, naturalmente, um ofício tão digno como salvar a humanidade. Mas, nesse caso, Jesus Cristo talvez nunca chegasse a inventar o cristianismo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O Baltazar perguntou: "E então? Que mal viria ao mundo?". Os outros magos esmagaram-se de vergonha. Disseram: "Além de preto, é inconveniente". &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E foi assim que começou o racismo. Por causa das crenças. E nunca por causa dos homens, jamais por causa dos homens. Isto pensava Maria, que nada dizia, por ser submissa e não portuguesa. Jamais portuguesa.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-3055684850805586950?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/3055684850805586950/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=3055684850805586950' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/3055684850805586950'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/3055684850805586950'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/01/conto-infantil-para-adultos-histria-dos.html' title='Conto infantil para adultos: História dos três homens que, além de reis, eram magos'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-5942255923187516698</id><published>2009-01-05T17:02:00.010+01:00</published><updated>2009-12-10T12:12:45.010+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Das personagens de verdade'/><title type='text'>Senhora Ausência</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A Senhora Ausência tinha dúvidas. Sentava-se no seu sofá (que era mais uma cadeira almofadada do que um sofá), cruzava as pernas e tinha dúvidas. Enquanto as tinha, bebia chá de jasmim. Gostava mais do cheiro a jasmim do que do sabor, mas nunca lhe ocorrera comprar incenso de jasmim ou óleo de jasmim ou champô de jasmim ou sabonetes de jasmim. Por isso, bebia chá para sentir o cheiro. A Senhora Ausência tinha muitas dúvidas sobre coisas abstractas e também outras tantas sobre coisas mais concretas. Algumas das suas dúvidas relacionavam-se, por exemplo, com a domesticação dos animais, a selecção artificial conduzida pelo Homem. A Senhora Ausência não tinha animais domésticos, não tinha particular interesse por eles, pensava na domesticação enquanto conceito. Bebia chá de jasmim e reflectia sobre coisas deste género. Era, por natureza, uma mulher interrogativa, desconfiada, céptica, metida consigo própria, ausente dos outros, sem grande tacto para as pessoas nem talento para nada. A sua actividade preferida era, sem sombra de dúvida, ter dúvidas. E enterrar-se nelas, ausentar-se nelas. As dúvidas da Senhora Ausência nem sempre chegavam à superfície, não ganhavam voz nem forma nem contornos nem entoação. E, portanto, não chegavam a ser perguntas, adoptavam antes a forma de nuvens ou de vulcões profundos que flutuavam na cabeça da Senhora Ausência para sempre. Não, para sempre não, porque nada durava para sempre. Este facto - o de nada durar para sempre - também atormentava a Senhora Ausência. Por outro lado, a eternidade de Deus e o conceito matemático de infinito tiravam-lhe o sono, o apetite, a vontade, davam origem a outras perguntas, a outras ansiedades. Bebia chá de jasmim e pensava. Seria o Homem domesticável. Um vulcão. Domesticado. Outro vulcão. A chaleira era demasiado pesada para os ossos fracos, seria melhor investir numa daquelas coisas de plástico. Levantou-se com dificuldade e foi até à porta de entrada (ou de saída). Nessa porta, ao centro, estava espetado um prego. Nesse prego estava pendurado um casaco, um só casaco. De um castanho um pouco perdido. A Senhora Ausência vestiu o casaco e ausentou-se. Enquanto descia a rua teve dúvidas sobre a vida, sobre o sentido dela, sobre a consistência do corpo e da alma. A Senhora Ausência não ia comprar pão nem leite nem uma chaleira de plástico. Também não ia visitar ninguém nem ia a nenhum serviço camarário. Ia só. Rua abaixo. À margem das coisas reais, quotidianas, vitais. Daí as suas dúvidas. A sua angústia. A sua ausência. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Temos pena da Senhora Ausência. Gostávamos de a ajudar, mas não podemos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Somos demasiado concretos. Quietos. Domesticados.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-5942255923187516698?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/5942255923187516698/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=5942255923187516698' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/5942255923187516698'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/5942255923187516698'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/01/senhora-ausncia.html' title='Senhora Ausência'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-140756812186545650</id><published>2009-01-02T18:41:00.008+01:00</published><updated>2010-03-16T13:58:56.893+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias de mim'/><title type='text'>PerCursos de Cascais: um mar de escritas</title><content type='html'>No dia 20 de Dezembro do ano passado, aconteceu isto:&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/SV5S50ymfJI/AAAAAAAAAEo/-IXw4H5hdf8/s1600-h/PerCursos_de_Cascais_capa_vers_o_reduzida.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5286754165956443282" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 190px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/SV5S50ymfJI/AAAAAAAAAEo/-IXw4H5hdf8/s320/PerCursos_de_Cascais_capa_vers_o_reduzida.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Isto não é ficção. Ou melhor, tem muita ficção, mas é um mar de verdade. Um livro com muita gente dentro, fruto de duas oficinas de escrita criativa orientadas por Luís Miguel Viterbo. Um bem-haja à Câmara Municipal de Cascais, que nunca deixou de acreditar no projecto. E um obrigada também ao &lt;a href="http://sete-mares.blogspot.com/"&gt;OrCa&lt;/a&gt;, que ao seu alcance tudo fez para que o livro nascesse. Percorri os &lt;a href="http://sete-mares.blogspot.com/"&gt;sete mares&lt;/a&gt; para roubar as fotos: cá está o &lt;a href="http://www.flickr.com/photos/sete-mares/sets/72157612011130086/show/"&gt;link&lt;/a&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;Um abraço ao maestro Luís Miguel Viterbo e aos co-criadores: Ana Flor Neves, António José Santos, Camila França, Clara Macedo Cabral, Cristina Vieira, Filipa Múrias, Isabel Coelho, João Mendes, Jorge Castro, José Farinha, Lima Rodrigues, Margarida Cipriano Rebelo, Miguel Brito, Rui Vieira Farinha e Vera Craveiro Reis.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-140756812186545650?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/140756812186545650/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=140756812186545650' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/140756812186545650'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/140756812186545650'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2009/01/percursos-de-cascais-um-mar-de-escritas_02.html' title='PerCursos de Cascais: um mar de escritas'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/SV5S50ymfJI/AAAAAAAAAEo/-IXw4H5hdf8/s72-c/PerCursos_de_Cascais_capa_vers_o_reduzida.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-3245984085581257038</id><published>2008-12-19T13:52:00.007+01:00</published><updated>2009-12-10T12:02:54.489+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Histórias de mim'/><title type='text'>Do dia em que foi para casa</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Levanta-se às 8h, mas devia levantar-se mais cedo. Por causa disso, acelera o passo. Puxa o autoclismo e o dia começa. Bebe um copo de água e queixa-se (a água é muito fria no Inverno). Toma um duche rápido e eficaz. Enquanto o faz, não pensa em nada. Seca-se e veste o pijama. Depois repara que não devia ter vestido o pijama e pragueja baixinho. Despe o pijama, veste outra coisa. Vai até à sala. Nessa altura já vem de casaco e cachecol vestidos. Abre as cortinas, espreita. O céu cinzento, a rua cinzenta, tudo cinzento. Encolhe os ombros. É melhor que preto. Canta um fado. Não, não canta, esboça palavras na boca. Não, não é um fado, é outra coisa. Uma melodia doce. Sobre Lisboa, parece. &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=GIF14vmosfA"&gt;Bela canção&lt;/a&gt;. Vai à cozinha, regressa com um regador em punho. Rega as plantas do parapeito (são muito bonitas, apesar do céu cinzento). Vai até ao quarto, beija a testa de &lt;a href="http://belgavista.blogspot.com/2008/06/o-homem-ilimitado.html"&gt;quem&lt;/a&gt; ficou na cama, sai de casa, desce as escadas, entra no mundo. &lt;a href="http://belgavista.blogspot.com/2008/03/o-vizinho-polaco.html"&gt;O vizinho polaco&lt;/a&gt; passeia o cão, cumprimentam-se com um aceno. (Na entrada do metro, mesmo antes das escadas rolantes, há, pelo menos, vinte beatas no chão. Toda a gente apaga o cigarro no mesmo sítio, é um fenómeno curioso.) O metro está a chegar e a mulher corre para ele. Vem cheio, entulhado, impossível. Por isso, não entra, espera pelo próximo. Enquanto espera, vê as pessoas passar. As mulheres não gostam que olhem para elas. Os homens gostam. Os cães também. Algumas crianças adoram, outras escondem-se atrás da mãe. Entra na última carruagem e sai duas paragens depois. Encontra um colega. Dois colegas. Três colegas. Ou nenhum. Hoje, por exemplo, não tinha encontrado ninguém, subia sozinha a rua. Pára nos semáforos. Algumas pessoas não esperam pelo sinal verde, atravessam a rua a correr. Ela não. Espera. Entra no edifício e abre a mala para procurar o cartão. Em vez disso, tira as chaves de casa. Devolve-as à mala e tira o cartão. As portas abrem-se. O segurança pisca o olho às mulheres, é atrevido. Apanha o elevador para o quinto andar, diz uma frase de circunstância para os colegas que sobem com ela. Algumas pessoas detestam frases de circunstância, não respondem. Entra no gabinete, abre a janela, liga o computador. Tem uma chamada não atendida. Do chefe. Liga de volta. Se podia fazer uma nota da mesa até às onze, para sair ao meio-dia. Com certeza. Desliga o telefone, sai do gabinete, desce as escadas, cumprimenta os colegas, cumprimenta o chefe, recebe o documento, sobe as escadas, entra no gabinete, lê a nota. É pequena. Pega na caneca e vai até ao café do primeiro andar. Às vezes esquece-se da caneca. Por norma, esquece-se da caneca. Um café, uma garrafa de água, um pão-de-leite. Paga. Senta-se com os colegas, bebe, fala, come. Não devia falar de boca cheia, mas fala. Paciência. Volta para o gabinete, trabalha. Alguém telefona. É uma colega. Se quer ir almoçar à cantina. Claro, almoçar na cantina é sempre bom. Ao meio-dia e meia. Imprime o documento, lê o documento, corrige. Não gosta de certas frases, de certas palavras, não sabe como resolvê-las. Consulta páginas na Internet, abre dicionários, fecha dicionários. Escreve, risca, reescreve. Imprime novamente. Sai do gabinete, desce as escadas, entrega o documento, explica qualquer coisa, diz: "Até logo!". Sobe as escadas, entra no gabinete, continua qualquer coisa do dia anterior. Mais interessante do que a nota da mesa. Ao meio-dia e vinte e cinco sai do gabinete, desce as escadas, atravessa a ponte, entra no outro edifício, segue pelo corredor, apanha o elevador, sai no primeiro e espera em frente à cantina. A colega atrasa-se dois minutos, nada de grave, riem-se de qualquer coisa. Hoje havia espetadas, bolonhesa e uma espécie de empadão com conteúdo imperceptível. Escolhe as espetadas. Espera na fila. Pega no tabuleiro, espera noutra fila, paga, senta-se numa mesa sem fim e espera pela colega, que chega, pousa o tabuleiro e se senta. Comem. Contam coisas, imensas coisas, são muito expressivas nos gestos e nas palavras. Acabam de comer, vão ao café, bebem café, separam-se. Cada uma para o seu edifício. Continuamos com a mulher inicial. Apanha o elevador, sai do elevador, vira à direita, segue o corredor, atravessa a ponte, entra no seu edifício, sobe as escadas, entra no gabinete. Nas restantes horas fica a maior parte do tempo a olhar para o computador. Por vezes, imprime folhas e lê no papel. Também vai à casa de banho. Encontra colegas por lá, conversam animadamente enquanto lavam as mãos. (Algumas colegas não falam, dizem só bom dia ou boa tarde.). Às cinco e meia sai a correr para apanhar a perfumaria aberta. Cheira um perfume, resolve comprar 50 mililitros, escolhe um verniz para as unhas, uma água-de-colónia. Pede à menina para embrulhar tudo em separado. Tira da carteira uma lista, risca alguns nomes. Pensa nas prendas que faltam, distrai-se com as ideias. Quer pagar e, em vez da carteira, tira as chaves de casa. Devolve-as à mala, paga com o multibanco. Sai da loja, entra no metro. Desce duas paragens depois, vai ao supermercado. Tinha-se esquecido dos sacos, esquecia-se sempre dos sacos. Azar. Compra peitos de frango, leite, pão, queijo, salmão fumado, um champô da Dove, cotonetes, papel higiénico, amaciador para a roupa, uma alface, um quarto de abóbora, maçãs, uvas, pêra abacate e pinhões. Na fila, as pessoas são muito sérias. Enquanto se passeiam pelo supermercado não são tão sérias. Paga novamente com o multibanco. Despede-se da senhora da caixa, vai para casa. Caminha devagar por causa do peso, doem-lhe os braços a meio do caminho. O vizinho polaco está a passear o cão, diz-lhe qualquer coisa em italiano, não sabemos porquê. Entra em casa, liga o computador, põe música. Talvez &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=Px8R2a7ZLpA&amp;amp;feature=related"&gt;Seasick&lt;/a&gt;. Enquanto ouve, arruma as compras. O marido chega. Vem a ouvir outra música no iPod. Cozinham juntos. Ou não. Depende. Comem juntos. Sempre. Nem sempre lavam a loiça a seguir. Têm pressa. Saem de casa, vão a qualquer lado. Atrasados, sempre atrasados. Não gostam de chegar atrasados, mas chegam. Sempre. Uma peça de teatro, provavelmente. Ou uma festa em casa de alguém. Ou um concerto na AB. É menos comum irem ao cinema. É estranho que assim seja: toda a gente vai ao cinema. Comentam isso, interessam-se por isso, conversam sobre todas as coisas. Chegam ao sítio que os espera. Ela quer encontrar os bilhetes ou a carteira ou os óculos e, em vez disso, tira as chaves de casa. Mais uma vez, as chaves de casa. Conclui que quer estar em casa e não está. Quer ir para casa e não vai. Apercebe-se de que tem saudades de casa. Imensas saudades. Anuncia: "Vou para casa". E vai.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-3245984085581257038?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/3245984085581257038/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=3245984085581257038' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/3245984085581257038'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/3245984085581257038'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2008/12/do-dia-em-que-foi-para-casa.html' title='Do dia em que foi para casa'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-857026715860128118</id><published>2008-11-24T18:31:00.018+01:00</published><updated>2009-12-14T17:39:09.321+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Primeiros estudos quase poéticos'/><title type='text'>Domingo com neve</title><content type='html'>A neve não cai, pousa.&lt;br /&gt;Os meus olhos emocionam-se com a sua leveza.&lt;br /&gt;O resto do meu corpo não. Gosta de sensações mais fortes.&lt;br /&gt;Como Ray Charles. E chocolate quente.&lt;br /&gt;O resto do corpo não está em sintonia com os meus olhos.&lt;br /&gt;Para satisfação da alma.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-857026715860128118?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/857026715860128118/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=857026715860128118' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/857026715860128118'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/857026715860128118'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2008/11/domingo-com-neve.html' title='Domingo com neve'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6331234402821030991.post-6653525297462016220</id><published>2008-11-21T15:50:00.010+01:00</published><updated>2009-12-14T17:05:22.559+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Da escrita'/><title type='text'>O escritor e a cidade</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O escritor estava no quarto a escrever. Sentava-se à escrivaninha e rabiscava num caderno liso. O escritor todo-poderoso escrevia sobre a cidade, sempre sobre a cidade, aquela cidade, a sua. O texto que andava a escrever desde ontem chamava-se justamente &lt;em&gt;Cidade&lt;/em&gt;. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O escritor fez uma pausa na escrita. Para ir à casa de banho e lavar as mãos. De vez em quando fazia isto para refrescar não as mãos, mas as ideias. Quando regressou ao seu lugar, olhou pela janela. Para espreitar a cidade. Aquela cidade. Pensou: "Na quietude de coisa já vivida". &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nesse momento, mal o pensamento ocorrera, o escritor irritou-se, fartou-se, desesperou-se. Não da escrita, não do quarto, não da janela, não das mãos, não do pensamento, mas da cidade. Daquela cidade. Da sua cidade. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O escritor todo-poderoso não fez mais nada: agarrou na cidade pelos cabelos, amachucou-a e deitou-a para o cesto dos papéis. Depois, aliviado, regressou à escrita. Ao tal texto que se chamava &lt;em&gt;Cidade&lt;/em&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6331234402821030991-6653525297462016220?l=belgavista.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://belgavista.blogspot.com/feeds/6653525297462016220/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6331234402821030991&amp;postID=6653525297462016220' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/6653525297462016220'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6331234402821030991/posts/default/6653525297462016220'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://belgavista.blogspot.com/2008/11/o-escritor-e-cidade.html' title='O escritor e a cidade'/><author><name>pessoana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05693954141991893966</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='20' src='http://3.bp.blogspot.com/_pjeHZUb5Zrk/TUmDLy6YemI/AAAAAAAAARE/o6pFaUTTNiE/s220/clochette_et_l_encrier.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry></feed>
